Cinco anos depois: diga não a quê?

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Em 25 de julho de 2021, o sexto episódio do Paulo Falante foi ao ar com uma pergunta que parecia brincadeira, mas já trazia uma provocação incômoda demais para caber em qualquer cartaz escolar: diga o que às drogas?

Naquele episódio, eu partia da Brisa, de Iza, passava por Verdinha, de Ludmilla, chamava Bicho de Sete Cabeças para a conversa, atravessava o humor desconfortável de Tapa na Pantera e ainda deixava Gabriel, o Pensador, soprando seu Cachimbo da Paz no fundo do debate. Era uma costura bastante própria do Paulo Falante: cultura popular como porta de entrada para assuntos que, quando aparecem em linguagem solene demais, quase sempre chegam atrasados, duros e cheios de pose.

Cinco anos depois, a pergunta continua boa. Talvez até melhor. Porque ela não se limita a substituir o velho “diga não às drogas” por uma provocação espirituosa. Ela obriga a desmontar o slogan. Diga não a quê? À substância? Ao abuso? À dependência? Ao tráfico? Ao prazer? Ao sofrimento que leva alguém a procurar anestesia? Ao abandono de quem precisaria de cuidado? À hipocrisia de uma sociedade que tolera algumas intoxicações com brinde, bula e nota fiscal, mas trata outras como prova definitiva de desvio moral?

A frase mais cortante daquele roteiro talvez ainda seja esta: seja na fila da farmácia, do barzinho ou da biqueira, drogas são drogas em todas as circunstâncias. Ela incomoda porque desloca o problema do lugar confortável onde costumamos escondê-lo. A farmácia parece limpa. O barzinho parece social. A biqueira parece criminosa. Mas, nesses três espaços, circulam substâncias, desejos, alívios, excessos, dependências possíveis e autorizações muito diferentes. O que muda não é apenas a química. Muda o cenário, muda o usuário imaginado, muda a roupa da culpa.

É claro que nem toda substância produz os mesmos efeitos, riscos ou danos. A questão nunca foi nivelar tudo de maneira irresponsável. O ponto é perceber que, quando a sociedade fala de drogas, raramente fala só de drogas. Fala também de classe, território, aparência, raça, juventude, respeitabilidade e medo. Algumas dependências chegam embaladas como tratamento. Outras aparecem como descontração de fim de semana. Outras, antes mesmo de qualquer escuta, já chegam escoltadas pela suspeita.

É por isso que Verdinha, no episódio, não funcionava apenas como referência musical. Funcionava como sintoma. A cultura pop, muitas vezes, canta antes que a política consiga formular. Ri antes que a lei admita. Dança antes que o debate público abandone a pose de susto. Pode-se gostar ou não da canção, aderir ou não à estética que ela propõe, mas é difícil negar que ela expôs uma pergunta que já circulava pelas ruas: por que certas práticas são tratadas como caso de polícia enquanto outras são incorporadas à vida adulta como hábito, celebração ou remédio?

Nesse ponto, Bicho de Sete Cabeças continua indispensável. O filme não entra nessa discussão apenas porque fala de maconha, juventude ou conflito familiar. Ele entra porque mostra o instante em que o medo se transforma em punição e o cuidado perde a escuta. O cigarro encontrado no casaco de Neto não é só um objeto de cena. É um detonador moral. A partir dele, abre-se uma cadeia de violências que revela algo muito mais profundo do que o uso de uma substância: revela a facilidade com que famílias, instituições e autoridades podem chamar de proteção aquilo que já nasceu como castigo.

Hoje, essa camada me parece ainda mais importante. Falar de drogas é falar também de vínculos, desamparo, saúde mental, juventude, prazer, fuga, informação, repressão e abandono. Não há seriedade possível quando o assunto vira apenas sermão, piada, guerra cultural ou pose de superioridade. O episódio de 2021, mesmo com seu tom artesanal, já tentava escapar desse empobrecimento. Ele não queria transformar opinião em sentença. Por isso, a presença de Dayana Sanchez, psicóloga, era tão importante: havia ali uma tentativa de diferenciar uso recreativo, uso abusivo, dependência, sofrimento e contexto.

O humor de Tapa na Pantera também merece ser revisto com mais cuidado. Em 2021, ele aparecia como lembrança de uma internet quase arqueológica, feita de vídeos que viralizavam antes mesmo de sabermos exatamente o que era viralizar. Hoje, a personagem de Maria Alice Vergueiro me parece carregar uma ambiguidade ainda maior: ela é engraçada, sim, mas também é triste, estranha, deslocada. O riso que ela provoca não encerra o debate. Pelo contrário. Ele deixa uma pergunta no ar: de quem estamos rindo quando rimos de alguém que parece ter sido engolido pela própria caricatura?

No fundo, o sexto episódio do Paulo Falante não era uma defesa ingênua de liberação geral, nem uma adesão obediente ao velho pânico moral. Era uma tentativa de pensar em voz alta. Talvez ainda desorganizada em alguns pontos, talvez atravessada por formulações que hoje eu faria com mais precisão, mas viva o suficiente para continuar exigindo resposta. E a resposta, se existe, não cabe em uma frase pronta.

Porque “diga não às drogas” é uma sentença curta, forte, repetível. Justamente por isso, pode se tornar perigosa quando dispensa pensamento. Antes de dizer não, seria preciso perguntar o que está sendo recusado. O abuso? A dependência? A violência do tráfico? A negligência do Estado? O prazer humano? A dor psíquica? A seletividade penal? A moral que condena a substância do outro enquanto protege a própria anestesia?

Cinco anos depois, eu não abandonaria a pergunta do episódio. Apenas a tornaria mais nítida: não basta dizer não às drogas; é preciso dizer não à ignorância sobre elas. Dizer não ao moralismo seletivo. Dizer não ao abandono travestido de prudência. Dizer não à facilidade cruel de transformar pessoas em exemplos negativos para que a sociedade não precise encarar suas próprias contradições.

O problema nunca foi apenas a substância. O problema é o modo como distribuímos cuidado, culpa, tolerância e castigo. Para uns, tratamento. Para outros, ressaca socialmente aceita. Para muitos, julgamento imediato. E, para quem já estava marcado antes mesmo da primeira escolha, a droga vira apenas mais um carimbo em uma condenação que a sociedade parecia ansiosa para assinar.

Abaixo, deixo incorporado o sexto episódio do Paulo Falante.

Que esta revisita nos ajude a trocar o susto pela escuta, o slogan pela reflexão e a condenação automática por uma pergunta mais difícil; e justamente por isso mais necessária: diga não a quê?


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