Por: Paulo Ricardo Zargolin
Uma mulher diante da câmera.
Seu nome é Ivana Jauregui.
Ela não apresenta diploma como credencial central. Apresenta experiência. Diz que observou crianças, acompanhou famílias, fundou uma escola, acumulou prática, viu padrões se repetirem. Questiona, com algum incômodo, a ideia de que apenas a formação universitária autorizaria alguém a falar sobre determinado assunto.
A provocação é legítima.
Mas também é perigosa.
Porque há um tipo de arrogância que usa jaleco mesmo quando está sem jaleco.
E há outro tipo, igualmente perigoso, que dispensa qualquer método porque “aprendeu na prática”.
Entre esses dois extremos, o conhecimento tenta respirar.
À primeira vista, o caso parece discutir apenas diploma. Quem pode falar? Quem tem autoridade? Quem estudou formalmente? Quem viveu a experiência concreta? Quem acumulou anos de observação direta?
Mas essa é só a superfície.
A fissura é mais profunda: o problema não está na universidade. Também não está na experiência. O problema começa quando qualquer uma das duas se declara absoluta.
Nem todo diploma produz sabedoria.
Nem toda vivência produz conhecimento confiável.
A formação acadêmica tem valor porque oferece método, repertório, critérios de análise, linguagem técnica, possibilidade de revisão e compromisso com uma tradição de investigação. Quando levada a sério, ela não serve para enfeitar currículo, mas para organizar o pensamento e reduzir os riscos do achismo.
Mas a experiência pragmática também tem sua grandeza.
Quem observa crianças durante anos, acompanha famílias, lida com conflitos reais, erra, ajusta rotas e percebe padrões no chão da vida não está apenas “opinando”. Está acumulando um saber situado. Um saber sensível. Um saber concreto. Um saber que nasce do contato direto com a realidade e que, muitas vezes, antecipa aquilo que a teoria ainda demorará a formular.
John Dewey já nos ajuda a tensionar essa cena. Para ele, a experiência não é simples acúmulo de acontecimentos. Ela se torna formativa quando passa por reflexão. Viver muito não basta. É preciso pensar sobre o vivido. Observar muito não basta. É preciso reorganizar a observação em perguntas, hipóteses, relações e consequências.
É aí que a prática se eleva.
Não quando se opõe ao método.
Mas quando aceita ser interrogada por ele.
Karl Popper também ronda essa discussão. A ciência não se fortalece porque afirma verdades definitivas, mas porque se permite testar, refutar, corrigir e revisar. Sua força não está em nunca errar. Está em criar procedimentos para não transformar o erro em dogma.
Observar muitas vezes uma mesma situação pode indicar um padrão.
Mas padrão não é automaticamente verdade universal.
É preciso perguntar: em quais contextos? Com quais crianças? Com quais famílias? Em que condições sociais? Com quais limites? Que outras explicações seriam possíveis? O que acontece quando a técnica não funciona? Quem foi beneficiado? Quem ficou silenciado?
Essas perguntas não diminuem a experiência.
Ao contrário.
Protegem sua seriedade.
E aqui está o ponto inquietante.
A prática não precisa se fantasiar de ciência para ter valor.
E a ciência não precisa desprezar o pragmatismo para continuar sendo rigorosa.
O problema é quando a academia transforma o diploma em licença exclusiva para pensar. Aí ela vira condomínio epistemológico: cheio de senhas, crachás, bancas e portarias simbólicas. Ganha formalidade, mas perde escuta.
Do outro lado, a prática erra quando confunde recorrência com verdade absoluta. Quando diz “eu vi acontecer muitas vezes” como se isso encerrasse a discussão. Quando transforma intuição em sentença. Quando chama de ciência aquilo que talvez seja apenas percepção repetida.
A primeira pode virar soberba institucional.
A segunda, intuição autoritária.
Michel Foucault nos lembra que saber e poder caminham juntos. Quem define o que conta como conhecimento também define quem pode falar, quem deve calar, quem será ouvido e quem será tratado como improviso. Por isso, a crítica ao monopólio acadêmico não é irrelevante. Há, sim, formas institucionais de exclusão simbólica.
Mas também há outro risco.
Transformar toda crítica ao método em libertação.
Nem toda recusa da academia é coragem.
Às vezes, é apenas medo de ser confrontado.
E conhecimento, quando presta, precisa suportar confronto.
Na educação, essa tensão aparece o tempo todo. Há educadores com anos de sala que percebem nuances que nenhum manual antecipa. Mas também há práticas antigas, repetidas por décadas, que continuam sendo ruins apenas porque foram naturalizadas. Há pesquisadores brilhantes que organizam conceitos indispensáveis. Mas também há textos acadêmicos que jamais encostaram no cheiro real de uma turma em dia de chuva, conflito e recreio mal resolvido.
A prática oferece chão.
O método oferece freio.
O chão impede que o pensamento vire abstração decorada.
O freio impede que a experiência vire certeza atropeladora.
Esse talvez seja o equilíbrio mais difícil.
Porque exige humildade dos dois lados.
Do lado acadêmico, humildade para reconhecer que a vida não pede autorização ao currículo para acontecer.
Do lado prático, humildade para admitir que a experiência pessoal, por mais rica que seja, não esgota a complexidade do mundo.
Mentes inquietas não escolhem entre diploma e experiência como se estivessem diante de uma guerra santa.
Elas perguntam melhor.
O que foi observado?
Como foi observado?
Em que contexto?
Com quais evidências?
Com quais limites?
O que a teoria ajuda a enxergar?
O que a prática obriga a corrigir?
Porque a tensão mais produtiva não está em escolher entre universidade e experiência. Está em compreender que uma pode qualificar a outra.
A universidade, quando escuta o mundo, amplia a prática.
A prática, quando aceita o método, amadurece o conhecimento.
No fundo, o perigo não está no diploma.
Também não está na prática.
O perigo está no absolutismo.
Quando a ciência perde a escuta, vira autoridade vazia.
Quando a experiência perde a autocrítica, vira religião de si mesma.
E conhecimento, quando presta, não deveria servir para fabricar devotos.
Deveria servir para ampliar a lucidez.




