Logosgraficamente

Lia no país da Logosgrafia

Capítulo 5

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Lia acordou tarde.

Não tarde como quem perde a hora da escola, do café ou da bronca. Tarde como quem volta devagar de um lugar muito fundo, desses em que o sono não serve apenas para descansar, mas para costurar por dentro alguma coisa que quase se rasgou.

A luz entrava pela janela estreita da suíte de hóspedes com menos cerimônia do que antes. Ainda era uma luz do Reino de Zagos, portanto não chegava a ser alegre. Mas já não parecia pedir autorização para existir. Espalhava-se pelo quarto com certa timidez dourada, tocando a colcha, a bacia de porcelana, a flor lilás sobre a mesa e o frasco vazio das pílulas logosgráficas.

Lia sentou-se na cama.

O frasco estava ali.

Vazio.

Ela o pegou com cuidado. Na noite anterior, tomara a última pílula, como o Dr. Coruja havia recomendado. Sete pílulas. Sete pequenas promessas verdes descendo pela garganta como sementes de voz. Agora, não havia mais nenhuma. Só o vidro, um restinho de brilho no fundo e aquele silêncio estranho das coisas que cumpriram sua função.

O tratamento teria acabado?

Lia abriu a boca, primeiro com medo, depois com curiosidade.

— Bom dia — sussurrou.

A voz saiu.

Baixinha, mas saiu. Inteira. Sem tropeçar. Sem se esconder atrás da garganta.

Ela sorriu.

Depois tentou outra palavra:

— ZAGO.

A palavra ficou no ar por um segundo, não como antes, no palco de Hugo Monteiro, quando as palavras pareciam escapar da boca dos adultos e abrir frestas no mundo. Agora, era diferente. A palavra não fugiu. Permaneceu nela. Tinha peso, gosto, vontade.

Lia levantou-se depressa.

Se a voz estava de volta, então talvez pudesse jogar. E, se pudesse jogar, talvez a Rainha já estivesse preparando outro torneio, daqueles que começavam com cartas, passavam por insultos elegantes, tropeçavam em alguma ZAGUETE absurda e terminavam com o conselheiro fingindo que havia compreendido tudo desde o início.

Ela quase riu.

Quase.

Porque, no meio do riso, veio uma lembrança.

Não uma lembrança bonita, dessas que chegam perfumadas. Veio uma lembrança com susto por dentro.

Sua família.

Lia ficou parada no meio do quarto.

Quanto tempo havia se passado? No Reino de Zagos, os dias pareciam obedecer a uma lógica própria, como se o sol fosse funcionário público de um castelo antigo e cumprisse expediente conforme decretos que ninguém mais lia. Mas, no mundo dela, na prainha da cidade, perto do palco improvisado, do rio fingindo ser mar, do cartaz torto e da voz de Hugo, o que teriam percebido?

Emília estaria perguntando.

Claro que estaria.

Perguntaria se Lia tinha sido raptada por uma frase, se a minhoca de chapéu era parente de alguém importante, se portais tinham maçanetas, se rainhas com cartas na coroa pagavam imposto, se desaparecer atrás de um palco era permitido em eventos culturais e, principalmente, por que ninguém a havia chamado para ir junto.

Alice, provavelmente, estaria fingindo impaciência.

Diria que Lia devia estar envolvida em alguma traquinagem infantil, que criança some por drama, por fantasia ou por falta de supervisão adequada. Cruzaria os braços. Reviraria os olhos. Talvez dissesse que procurar Lia seria perda de tempo, porque Lia sempre voltava quando cansava da própria esquisitice.

Mas talvez, bem no fundo, Alice estivesse com medo.

E Sofia…

Lia respirou mais devagar.

Sofia era diferente.

Sofia sabia ouvir o que não fazia barulho. Sabia quando uma pergunta era pequena demais para o mistério que carregava. Talvez não dissesse nada de imediato. Talvez observasse o palco, o cartaz, o lugar exato por onde Lia havia passado. Talvez percebesse que a filha não tinha apenas se perdido.

Talvez suspeitasse, com aquela sabedoria quieta das mães que já sonharam mais do que confessam, que Lia estivesse presa em algum lugar onde os sonhos são reais.

O pensamento apertou o peito da menina.

Ela tocou a garganta.

A voz voltara.

Mas voltar a falar não era o mesmo que saber voltar para casa.

Nesse instante, a porta se abriu.

Lia virou-se, esperando encontrar os dois guardas cinzentos, com suas ordens burocráticas, suas lanças entediadas e aquela capacidade extraordinária de transformar qualquer recado simples em ameaça administrativa.

Mas não eram os guardas.

Era a Rainha de Zagos.

Sozinha.

E diferente.

Não trazia o grande manto escuro da sala do trono, nem a coroa monumental feita de letras e cartas. Usava uma roupa menos imponente, embora ainda fosse absolutamente incapaz de parecer simples. O vestido era escuro, sim, mas mais leve. A gola continuava dramática, porque certas pessoas não abandonam a teatralidade nem para atravessar um corredor. A coroa, menor, tinha menos cartas e mais silêncio. Nos olhos, havia a mesma inteligência afiada. Mas o rosto parecia menos preparado para a guerra.

— Até que enfim acordou, coloridinha — disse ela.

Lia fez uma reverência desajeitada.

— Bom dia, Majestade.

A Rainha ergueu uma sobrancelha.

— A voz voltou.

— Voltou.

— Hum.

Foi tudo o que disse.

Mas o “hum” da Rainha não era igual ao “hum” do Dr. Coruja. O do doutor significava diagnóstico. O da Rainha significava alívio disfarçado de avaliação estratégica.

Ela entrou no quarto sem pedir licença, naturalmente, pois rainhas consideram portas apenas sugestões arquitetônicas.

— Apronte-se.

— Para jogar?

A Rainha cruzou os braços.

— Para um passeio.

Lia piscou.

— Um passeio?

— Sim. Essa atividade suspeita na qual pessoas deslocam seus corpos de um lugar para outro sem necessariamente declarar guerra no trajeto.

— Pensei que fôssemos jogar ZAGO.

A Rainha olhou para ela por um segundo.

Depois gargalhou.

Não foi uma risadinha. Não foi aquele riso curto e enferrujado da sexta manhã de jogo. Foi uma gargalhada inteira, perigosa, quase bonita, que atravessou o quarto e fez a flor lilás estremecer no vaso.

— Coloridinha… ZAGO vai além de cartas! Você vai ver.

Lia a encarou.

Aquilo poderia soar como ameaça.

Mas não soou.

Talvez porque a Rainha estivesse sorrindo de verdade. Ou quase. Com ela, era difícil ter certeza. A ternura, naquela soberana, nunca vinha sem espinhos. Era uma doçura armada, uma bondade com guarda-costas, uma forma agressiva de cuidar.

— Leve um casaco — ordenou. — E não demore. Eu não sou paciente.

— Não parece mesmo.

A Rainha virou-se devagar.

Lia levou a mão à boca, tarde demais.

Mas, em vez de puni-la, a soberana sorriu de lado.

— Melhorou. A voz voltou com insolência.

Pouco depois, Lia estava dentro da carruagem real.

A carruagem era preta, alta, trabalhada em detalhes dourados e pequenas cartas entalhadas nas laterais. As rodas rangiam como se reclamassem de ainda precisar servir à monarquia. Do lado de fora, dois cavalos cinzentos puxavam o veículo com a dignidade triste de quem nasceu para aparecer em retrato antigo.

A Rainha sentou-se de frente para Lia.

Não havia guardas dentro. Isso, por si só, parecia um acontecimento.

A carruagem atravessou os portões do castelo.

Lia aproximou-se da janelinha.

O Reino de Zagos se espalhava diante dela, mas já não era o mesmo reino do dia em que chegara. Ou talvez fosse. Talvez o que tivesse mudado fosse a maneira de olhar.

As casas continuavam gastas. As ruas ainda tinham poeira. As árvores não tinham a exuberância do mundo dela. Mas havia pequenos sinais de cor onde antes só havia desistência. Uma porta tinha um risco azul perto da maçaneta. Um telhado mostrava manchas avermelhadas entre as telhas. Um menino corria com uma fita amarela amarrada ao pulso. Uma senhora sacudia um pano que, embora ainda fosse quase cinza, parecia estar se lembrando do verde.

Lia observava tudo com atenção.

A Rainha percebeu, porque rainhas percebem principalmente aquilo que fingem não perceber.

— Está vendo, Lia de si mesma?

Lia afastou o rosto da janela, um pouco envergonhada.

— Perdoe-me, Majestade, mas eu podia jurar que tudo isso era cinza.

A Rainha não respondeu.

O silêncio dela, dessa vez, não era irritação. Era cálculo. Ou memória. Talvez as duas coisas fossem parentes naquele reino.

Ela bateu duas vezes com os dedos na parede da carruagem.

O cocheiro parou.

— Desça — ordenou a Rainha.

Lia desceu.

Estavam sobre uma ponte de pedra antiga, larga o bastante para duas carruagens e estreita o bastante para qualquer pessoa sentir que atravessava algo importante. Embaixo, corria um rio escuro, lento, sem brilho. Não era como o rio da prainha, que fingia ser mar. Aquele não fingia nada. Parecia cansado demais para mentir.

Do outro lado da ponte havia um pomar.

Lia se aproximou do parapeito.

As árvores se estendiam em fileiras irregulares, como se alguém tivesse tentado organizar a natureza e a natureza tivesse obedecido só para não criar conflito. Os troncos eram escuros. As folhas, acinzentadas. As frutas pendiam dos galhos em diferentes formatos: redondas, alongadas, pequenas, retorcidas, lisas, enrugadas. Todas pareciam cinzas à primeira vista. Mas, olhando melhor, Lia percebeu que cada uma guardava um brilho discreto, quase secreto. Um tom diferente pulsava por baixo da casca, como se a cor estivesse presa do lado de dentro.

A Rainha apontou para o pomar.

— Defina o que vê, coloridinha.

Lia não perguntou o que aquilo significava.

No Reino de Zagos, perguntas demais às vezes atrasavam a resposta.

Ela olhou de novo.

Não viu apenas árvores. Não viu apenas frutas. Viu sabores tentando nascer. Viu cores escondidas em cascas prudentes. Viu dúvidas maduras, penduradas nos galhos, esperando alguém capaz de nomeá-las sem arrancá-las cedo demais.

Então respondeu sem pestanejar:

— Um sarau de sabores de dúvidas.

A Rainha ficou imóvel.

O ar mudou.

Primeiro, foi uma fruta pequena, quase esquecida num galho baixo. Ela tremeu. Depois outra. Depois uma terceira, mais alta, soltou um brilho amarelo tão fino que parecia um fio de música.

Lia prendeu a respiração.

As árvores começaram a sublimar cores.

Não era uma explosão. Explosões desperdiçam mistério. Era uma elevação lenta, delicada, como se cada fruta respirasse pela primeira vez depois de um longo castigo. Das cascas cinzentas subiam névoas verdes, vermelhas, douradas, roxas, azuis, alaranjadas. As cores não pintavam o pomar por fora. Pareciam nascer de dentro das coisas, revelando aquilo que sempre estivera ali, mas não encontrara ainda a palavra certa para se mostrar.

O pomar inteiro se transformou.

As folhas ganharam tons diferentes. O rio abaixo da ponte recebeu reflexos de cor. A pedra antiga pareceu menos velha. Até o céu, que naquele reino costumava carregar sua monotonia como um dever cívico, abriu pequenas frestas luminosas entre as nuvens.

Lia sentiu os olhos arderem.

— Eu fiz isso?

A Rainha olhou para o pomar, depois para Lia.

— Você definiu.

— Mas eu só falei.

— Exatamente.

Lia não entendeu de imediato.

A Rainha aproximou-se do parapeito. Sem o trono, sem o salão, sem os guardas, parecia menos enorme. Ainda era Rainha, claro. Algumas pessoas carregam o trono dentro da coluna. Mas ali, diante do pomar recém-colorido, havia nela qualquer coisa menos rígida.

— Cartas são apenas um modo de jogar ZAGO — disse. — O mais fácil. O mais portátil. O mais vendável, se este reino algum dia aprender comércio sem transformar tudo em decreto. Mas ZAGO não nasceu nas cartas. Nasceu do ato de definir o mundo quando o mundo já esqueceu como se apresenta.

Lia olhou para as frutas.

— Então… quando eu disse “sarau de sabores de dúvidas”…

— Você não acertou uma resposta. Você abriu uma possibilidade.

A menina ficou em silêncio.

Era diferente de jogar com cartas.

Na mesa, havia uma palavra secreta escondida. No pomar, a palavra secreta parecia estar no próprio mundo. Era como se cada coisa esperasse uma definição capaz de libertar sua cor.

— Isso é logosgráfico? — perguntou Lia.

A Rainha demorou a responder.

— É logosgraficamente perigoso.

Lia sorriu.

— A senhora usa “perigoso” para tudo que gosta?

— Uso “perigoso” para tudo que pode mudar alguma coisa.

Foi então que Lia viu movimento no parapeito da ponte.

Uma criatura comprida, verde e solene avançava sobre a pedra com a dignidade de quem jamais rastejara na vida, embora obviamente rastejasse. Usava o mesmo chapeuzinho papal que Lia havia visto no mundo dela, atrás do palco. Mas agora parecia mais nobre, mais antigo, mais consciente da própria importância.

Lia abriu um sorriso.

— Olha! A minhoca ponti… ponti…

— Pontífice — completou a Rainha. — E não diga como se estivesse apontando uma lagarta de estimação.

A criatura parou diante delas, ergueu a cabeça e inclinou-se com solenidade.

— Dom Logos — disse a Rainha. — Nosso pontífice.

Lia arregalou os olhos.

— Dom Logos?

A minhoca — ou melhor, Dom Logos — pareceu aprovar a correção.

— Foi ele quem você viu em seu mundo, certo? — perguntou a Rainha.

— Sim. Ele entrou atrás do palco e falou que o portal podia perder a paciência.

Dom Logos pigarreou.

Era estranho ver uma minhoca pigarrear, mas Lia já havia aprendido que algumas estranhezas não pedem autorização.

— Portais, minha querida, têm temperamento. Especialmente os que ligam mundos literários a cidades que ainda fingem não acreditar em literatura.

A Rainha cruzou os braços.

— Você a trouxe.

— Eu indiquei uma passagem — corrigiu Dom Logos. — Trazer é verbo forte demais para quem apenas atravessa bastidores.

— Você sempre foi excelente em diminuir sua culpa com elegância.

— E Vossa Majestade sempre foi extraordinária em ampliar a dos outros por tradição administrativa.

Lia olhou de um para o outro.

Havia ali uma intimidade antiga, feita de brigas repetidas e respeito disfarçado. A Rainha e Dom Logos pareciam se conhecer há muito tempo. Talvez antes do cinza. Talvez antes das cartas. Talvez antes de o Reino de Zagos esquecer que um reino podia ser mais do que obediência.

Dom Logos voltou-se para Lia.

— Perdoe-me, Majestade — disse ele, olhando para a Rainha, embora falasse sobre Lia. — Mas já estava na hora de termos mais um retrato para nossa galeria.

A Rainha estreitou os olhos.

Lia sentiu um frio na barriga.

— Eu?

Dom Logos inclinou a cabeça.

— Lia foi a escolhida.

O pomar continuava brilhando atrás dele.

A Rainha não disse nada.

Mas sua expressão mudou. Não era surpresa. Não era raiva. Era aquela coisa mais difícil, que nas pessoas orgulhosas parece quase dor: reconhecimento.

— Ela é uma criança — disse a Rainha.

— Algumas crianças ainda não aprenderam a empobrecer o mundo com definições pobres.

Lia olhou para as próprias mãos.

Havia nelas um reflexo verde, vindo das frutas, do rio, talvez de dentro dela mesma.

— Eu não entendo — disse.

Dom Logos aproximou-se mais um pouco.

— Entenderá logosgraficamente.

— Isso quer dizer o quê?

A Rainha respondeu antes dele:

— Quer dizer que você entenderá fazendo.

Dom Logos sorriu, se é que minhocas pontífices sorriem. Naquele caso, parecia que sim.

Lia olhou novamente para o pomar.

As frutas coloridas balançavam de leve, como se cada uma guardasse uma pista. O rio refletia tons que não possuía minutos antes. A ponte, antes fria, parecia ter se tornado passagem de verdade. Ao longe, o castelo de Zagos ainda se erguia escuro, torto, cheio de ruínas e orgulho. Mas agora havia cor nos caminhos que levavam até ele.

E Lia compreendeu, sem compreender completamente, que talvez o tratamento não tivesse acabado porque as pílulas terminaram.

Talvez o tratamento tivesse apenas mudado de forma.

Agora, a cura não estava mais dentro do frasco.

Estava no modo de olhar.

No modo de nomear.

No modo de atravessar o mundo sem reduzi-lo.

A Rainha voltou para a carruagem.

— Venha, coloridinha.

— Para onde vamos agora?

A soberana olhou por cima do ombro.

Dessa vez, o sorriso era quase perigoso de tão verdadeiro. Mas não houve resposta.

Lia respirou fundo.

Atrás dela, Dom Logos permanecia sobre o parapeito, solene, verde e satisfeito, como quem acabara de mover uma peça importante num tabuleiro invisível.

A menina entrou na carruagem.

A porta se fechou.

E, enquanto o veículo seguia pela estrada recém-tingida de possibilidades, Lia percebeu que ZAGO não era apenas um jogo de cartas.

Era uma forma de o mundo perguntar.


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De modo logosgráfico; maneira de perceber, nomear, criar ou interpretar algo a partir da linguagem simbólica, revelando sentidos ocultos, relações inesperadas e possibilidades ainda não visíveis. Agir logosgraficamente é olhar para o mundo como quem escuta uma palavra antes de ela terminar.

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Arte promocional de ZAGO: Palavras Secretas mostrando Lia segurando uma pílula logosgráfica diante da Rainha de Zagos e do Dr. Coruja em um castelo sombrio.
No Reino de Zagos, palavras podem mudar destinos — especialmente quando começam a recuperar cor.
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