Por: Paulo Ricardo Zargolin
Antes de migrar para o Logosgrafia, a imaginação já falava ao microfone.
Em 1º de agosto de 2021, foi ao ar o sétimo episódio do Paulo Falante, penúltimo daquela temporada inicial em que eu ainda aprendia, entre uma gravação e outra, que pensar em voz alta também era uma forma de organizar o mundo por dentro. O episódio se chamava “Criando o sete” — título brincalhão, quase travesso, mas já carregado de uma intuição que, cinco anos depois, me parece muito mais séria do que parecia na época: criar não é um enfeite da existência. Imaginar não é o luxo de quem resolveu a vida. Sonhar, quando não se converte em fuga irresponsável, pode ser uma das maneiras mais humanas de permanecer inteiro diante de uma realidade que insiste em nos repartir.
O programa começava com uma frase que, hoje, soa quase como uma semente do Logosgrafia: “O pensamento humano é fonte de criação infinita, produtora de sonhos e realizações.” Naquele momento, talvez eu ainda não soubesse o tamanho dessa frase. Ela parecia apenas uma abertura bonita, um desses pensamentos falados que eu gostava de espalhar pelo episódio para criar atmosfera, dar ritmo, fazer da palavra uma espécie de vinheta. Mas havia ali uma declaração de princípio. Antes de haver site reorganizado, estantes, séries, crônicas, jogos verbais, maçãs verdes, personagens, revisitas e universos em construção, já havia essa confiança quase teimosa na potência criadora do pensamento. Eu ainda não chamava isso de logosgrafar com a consciência que tenho agora, mas já estava, sem perceber, logosgrafando.
Logo depois, vinha “Imagine”, na voz de Paulo Ricardo, meu xará, como se a escolha musical não fosse apenas uma coincidência afetiva, mas uma provocação de espelho. O episódio falava de imaginação, mas não da imaginação como quem pede ao ouvinte que feche os olhos e negue o mundo. Ao contrário: havia ali uma tensão importante. Eu dizia que, antes de aquele áudio chegar aos ouvidos de alguém, ele passava por edição, gravação, roteirização e, sobretudo, por um processo imaginativo. Hoje, essa frase me parece uma das mais honestas do episódio. Toda criação tem bastidor. Toda inspiração, por mais luminosa que pareça, passa por trabalho, tentativa, erro, corte, ajuste, edição. A imaginação não é o contrário da técnica. Muitas vezes, é a técnica tentando não perder a alma.
Em seguida, eu mesmo me interrompia. Chamava o “Paulo do passado” para a conversa e perguntava, com certo incômodo social: para que as pessoas possam realmente se inspirar, não seria preciso que tivessem antes algumas necessidades básicas satisfeitas? A entrada de Maslow no episódio funcionava como um freio contra qualquer romantização excessiva da criatividade. Era como se o programa dissesse: sim, inspirar-se é ser contornado por uma luz multicolorida; mas essa luz não paira sobre corpos abstratos. Ela atravessa gente que tem fome, cansaço, aluguel, cidade decadente, vínculos frágeis, medo do futuro, boleto atrasado, solidão insistente e, às vezes, uma dificuldade imensa de acreditar que o amanhã tem algo melhor a oferecer.
Cinco anos depois, eu não corrigiria aquele raciocínio. Apenas o aprofundaria. A pirâmide de necessidades ajuda a compreender muita coisa, mas também pode nos enganar se for lida como escada rígida demais. Porque há gente que cria sem segurança. Há gente que sonha sem estabilidade. Há gente que compõe, escreve, costura, canta, reza, pinta, inventa e educa mesmo quando a vida não lhe concedeu as condições ideais. Isso não significa que devamos romantizar a precariedade. Pelo contrário. Significa que o ser humano, quando privado do necessário, muitas vezes precisa da imaginação não como luxo, mas como recurso de sobrevivência simbólica. Imaginar não substitui o pão. Mas talvez impeça que a falta de pão seja a última palavra sobre a vida.
É nesse ponto que o episódio de 2021 encontra uma de suas imagens mais bonitas: os “toques invisíveis” de Julie e os Fantasmas. Naquela época, eu falava de uma espiritualidade que não estava necessariamente ligada à religião. Hoje, eu gosto ainda mais dessa formulação. Porque existe uma dimensão da experiência humana que não cabe inteiramente no cálculo, no diagnóstico, na planilha, na teoria, no currículo, no algoritmo ou na métrica. Há vozes que nos atravessam sem que saibamos dizer de onde vêm. Há músicas que chegam na hora certa. Há frases que pareciam bobas e, anos depois, se revelam mapas. Há lembranças que acendem corredores internos. Há presenças que continuam nos orientando mesmo depois de terem desaparecido da rotina. Chamar isso de espiritualidade, sem aprisionar a palavra numa cartilha religiosa, era uma ousadia delicada daquele Paulo de 2021.
E havia, sobretudo, cultura pop. Sempre ela. Sempre esse modo aparentemente simples — e, por isso mesmo, tão subestimado — de pensar coisas profundas a partir de músicas, filmes, desenhos, novelas, personagens e memórias compartilhadas. Julie e os Fantasmas entrava no episódio não como enfeite juvenil, mas como dispositivo de escuta. A canção falava de direção, de vida, de não desistir, de ouvir uma voz no coração. Em outro contexto, isso poderia soar apenas como frase motivacional. Mas, dentro do episódio, a música ganhava outra camada: a de uma juventude que tenta dizer, com os recursos que tem, que ninguém atravessa o mundo apenas com razão instrumental. Às vezes, a inteligência precisa cantar para não endurecer.
Depois, o programa dava um salto para Animatrix: Segundo Renascer. E esse salto é mais coerente do que parece. Se Julie representava os toques invisíveis da inspiração, Animatrix introduzia a advertência: estamos todos conectados, mas nem toda conexão salva. Em 2021, eu falava das ondas do rádio, da TV, dos satélites, do cabeamento da internet. Hoje, essa frase parece ainda mais atual, porque a conexão se tornou quase uma atmosfera obrigatória. Vivemos dentro de notificações, plataformas, inteligências artificiais, feeds, telas, sistemas, dados e máquinas que prometem ampliar o mundo, mas também podem reduzi-lo a uma Matrix de estímulos permanentes. A imaginação, nesse cenário, tanto pode ser libertadora quanto capturada. Pode criar uma obra, mas também pode virar ansiedade, comparação, vício de desempenho, fantasia de controle ou produção compulsiva sem presença.
Por isso, revisitar esse episódio agora, em 2026, tem um efeito curioso. Naquele programa, eu perguntava como imaginar um mundo melhor. Hoje, talvez a pergunta seja outra: como preservar a imaginação quando o próprio mundo tenta terceirizá-la? Como continuar criando sem virar apenas um operador de ferramentas? Como usar máquinas, redes, referências e arquivos sem entregar a elas a nossa última centelha autoral? O episódio não respondia a isso diretamente, claro. Mas já preparava o terreno. Quando eu falava que todo áudio passava por edição, gravação, roteirização e imaginação, já estava dizendo, sem saber, que tecnologia nenhuma substitui o gesto humano de escolher uma forma para aquilo que deseja comunicar.
A entrada de Sidarta Ribeiro, com a ideia de que as áreas cerebrais envolvidas na imaginação, no devaneio e no sonho se cruzam com a memória e com a simulação do futuro, oferecia ao episódio uma chave preciosa. Cinco anos depois, essa chave abre a própria coluna. O que é revisitar o Paulo Falante, afinal, senão usar o passado como matéria de imaginação? Eu escuto o que fui, reconheço o que permaneceu, estranho o que mudou, acolho o que ainda estava verde e reorganizo tudo isso no presente. O passado, quando não vira museu nem tribunal, pode se tornar laboratório. A memória não serve apenas para confirmar quem fomos; serve também para ensaiar quem ainda podemos ser.
Talvez por isso “Criando o sete” seja um episódio tão revelador. Ele parece leve, mas guarda uma arquitetura inteira: pensamento autoral, música brasileira, cultura infantojuvenil, psicologia, espiritualidade, ficção científica, neurociência e uma tentativa sincera de dizer ao ouvinte que, mesmo em rota de decadência, ainda é possível imaginar, criar e desejar coisas boas. Hoje, eu teria mais cuidado com algumas formulações. Talvez evitasse certa pressa em reconciliar sofrimento e esperança. Talvez dissesse com mais nitidez que nem todo mundo consegue imaginar quando está em dor extrema, e que exigir esperança de quem está esmagado também pode ser uma violência. Mas eu não retiraria do episódio sua aposta fundamental. Porque ela continua de pé.
Imaginar também é uma necessidade. Não aparece na base da pirâmide, não vem embrulhada como cesta básica, não paga o boleto, não substitui política pública, não cura sozinha as feridas do mundo. Mas sem imaginação, a vida se torna apenas manutenção. Sem imaginação, a cidade decadente vira destino. Sem imaginação, o sofrimento vira identidade fixa. Sem imaginação, a tecnologia vira prisão. Sem imaginação, a memória vira arquivo morto. Sem imaginação, até a sobrevivência perde horizonte.
Cinco anos depois, eu olho para aquele Paulo que dizia estar inspirado e não sinto vontade de corrigi-lo com arrogância. Sinto vontade de lhe responder com ternura: continue. Essa luz multicolorida que você via talvez fosse mais importante do que parecia. Ela ainda não iluminava tudo, é verdade. Ainda havia sombras que você não sabia nomear. Ainda havia estruturas que você apenas intuía. Ainda havia uma Logosgrafia inteira tentando nascer da sua voz. Mas você estava certo em desconfiar que o pensamento humano cria mundos. E estava ainda mais certo em perceber que, mesmo quando o mundo parece estreito, alguma coisa em nós precisa continuar dizendo: imagine.
Abaixo, deixo incorporado o episódio original de “Criando o sete”, para quem quiser escutar esse Paulo de 2021 tentando fazer da imaginação uma ponte entre necessidade, sonho, cultura pop e sobrevivência.
Talvez a melhor escuta, agora, seja esta: não ouvir o passado como rascunho imperfeito do presente, mas como uma voz que ainda toca, invisivelmente, a direção.

