Cinco anos depois: ser fã de quem está perto

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Em 8 de agosto de 2021, foi ao ar o oitavo e último episódio da primeira temporada do Paulo Falante. O título era “Ídolos, fãs e comutação”, uma expressão curiosa, meio técnica, meio afetiva, como se o programa já soubesse que admirar alguém nunca é apenas olhar para cima. Há sempre algum deslocamento acontecendo: o brilho do outro atravessa a gente, acende uma lembrança, muda uma chave interna, reorganiza uma coragem, desperta uma fantasia, devolve alguma vontade de existir de outro modo. Talvez por isso o episódio tenha começado em clima de saideira, com Sandy & Junior embalando a despedida daquela temporada, mas não tenha ficado apenas no território da nostalgia. O tema parecia ser idolatria. No fundo, era convivência.

Naquele episódio, eu dizia que faríamos um tributo não somente aos ídolos, como o título poderia sugerir, mas a todas as pessoas. Cinco anos depois, essa frase me parece mais bonita do que eu talvez conseguisse perceber na época. Porque ela tira a admiração do palco e a devolve à vida comum. Admirar não é apenas berrar por alguém em um estádio, comprar ingresso, decorar música, defender artista na internet ou reconhecer um nome famoso. Admirar também é perceber quem, perto de nós, nos ajuda a atravessar uma fase difícil sem transformar essa ajuda em espetáculo. Às vezes, o ídolo não está no cartaz. Está na colega que segurou a rotina durante a pandemia. Está no amigo que acreditou em uma brincadeira antes que ela parecesse projeto. Está em quem empresta coragem sem saber que emprestou.

Mas o episódio também começava com uma advertência. Eu falava do deslumbre, dessa necessidade quase infantil — e, às vezes, socialmente perigosa — de amar incondicionalmente alguém só porque essa pessoa se tornou popular, famosa, carismática ou populista. Hoje, essa distinção ficou ainda mais urgente. Há uma diferença imensa entre admirar e se ajoelhar. A admiração amplia a vida quando reconhece potência no outro sem amputar o próprio pensamento. A idolatria cega, ao contrário, estreita o mundo: entrega a consciência na chapelaria do show e depois esquece de buscar. O fã saudável se inspira. O devoto do brilho terceiriza o juízo.

É curioso que Sandy & Junior tenham sido a porta de entrada para essa conversa. Para muita gente da minha geração, eles não foram apenas uma dupla musical. Foram cenário de infância, coreografia de televisão, pasta escolar, programa de domingo, revista, fantasia de aniversário, imitação doméstica, trilha de crescimento. E, no episódio, a Vivi entrava justamente por esse caminho. Ela contava que se vestia como a Sandy, dançava como ela, via sua adolescência representada pelas músicas e carregava o sonho de assistir a um show da dupla. Quando o encerramento veio, em 2007, pareceu que o sonho tinha acabado. Quando a turnê de retorno apareceu, em 2019, o sonho voltou a ter data, fila, ingresso e corpo. Há sonhos que parecem bobos apenas para quem nunca teve um pedaço da infância devolvido por algumas horas.

Cinco anos depois, eu não leio esse depoimento como relato de fã apenas. Leio como cena de reparação afetiva. Vivi não estava somente assistindo a Sandy & Junior. Estava encontrando uma versão de si mesma que ficou guardada esperando o refrão certo para sair. Talvez todo reencontro com um ídolo de infância tenha um pouco disso: a gente não volta ao passado, mas convida uma parte antiga da gente para assistir ao presente de pé. Não é nostalgia vazia quando uma lembrança nos devolve alguma inteireza. O problema começa quando queremos morar nessa lembrança e exigir que o mundo continue obedecendo à nossa infância.

A virada mais bonita do episódio vinha logo depois. Eu escutava a história da Vivi como fã de Sandy & Junior e, em seguida, dizia que também era fã dela, da Gabi e da Elisa pelo entrosamento no trabalho em 2020, em meio à pandemia de Covid-19. Essa passagem talvez seja o coração do episódio. Em um ano de medo, improviso, tela, incerteza, reinvenção e esgotamento, houve pessoas sustentando a missão de ensinar da melhor maneira possível. E aquilo também merecia admiração. Talvez merecesse até mais, porque não havia holofote. Havia trabalho. Havia aula. Havia adaptação. Havia tentativa de não deixar a vida educativa desmoronar enquanto o mundo parecia fora do lugar.

Hoje, gosto muito dessa intuição do Paulo de 2021. Ele ainda falava com leveza, brincava, fazia vinheta, chamava música, citava amigos, mas já compreendia que a admiração precisava ser redistribuída. A cultura pop nos treina para reconhecer brilho; a vida adulta exige outra competência: reconhecer sustento. Nem todo mundo que nos salva aparece em pôster. Algumas pessoas apenas tornam a segunda-feira menos áspera, reorganizam uma sala, seguram uma tarefa, escutam um desabafo, ajudam a atravessar um período impossível. São presenças sem fã-clube, mas não sem grandeza.

Depois vinha Bruno, apresentado como fã do próprio programa e convidado a falar sobre IZA. Essa camada também amadurece muito bem. Bruno não descrevia apenas uma cantora de voz potente. Ele falava de uma artista que chegou com discurso, presença, organicidade e capacidade de fazer alguém acreditar no próprio potencial. A frase atribuída a Nina Simone, retomada por ele, sobre artistas refletirem seu tempo, dava ao episódio uma densidade que escapava do mero gosto musical. Ser fã, nesse caso, não era apenas gostar de uma voz. Era reconhecer em uma artista uma forma de presença histórica. Algumas pessoas cantam bem. Outras, além de cantar, parecem autorizar que certas existências se escutem com mais dignidade.

Essa é uma diferença fundamental. Há artistas que entretêm. Há artistas que acompanham. Há artistas que enfeitam uma época. Há artistas que a traduzem. E há artistas que fazem tudo isso ao mesmo tempo. Quando Bruno falava da IZA, falava de influência positiva, de representatividade, de discurso e de potência. Em 2021, talvez esse depoimento entrasse como mais uma participação afetiva no episódio. Em 2026, eu o leio como uma pequena aula sobre mediação simbólica. O ídolo não é apenas o objeto da admiração. Ele pode ser uma superfície de reconhecimento. Às vezes, a gente admira alguém porque, ao olhar para essa pessoa, encontra uma versão possível de si mesmo que o mundo ainda não tinha apresentado com nitidez.

Mas é preciso cuidado. O mesmo mecanismo que inspira pode capturar. A mesma energia que nos faz crescer pode nos infantilizar se não houver pensamento. Por isso, o episódio acertava ao falar em comutação. Comutar é trocar, alternar, deslocar um circuito, mudar uma ligação. Na vida afetiva, talvez seja isso que fazemos quando admiramos alguém: pegamos algo que vemos no artista, no amigo, na professora, na colega, no amor ou no personagem e tentamos acender em nós alguma correspondência. A admiração saudável não termina no altar do outro. Ela volta para a vida como movimento.

A participação de Ana Maria e Louro, com o pensamento falado do dia, ganhava uma camada que talvez nem todos os ouvintes soubessem naquele momento. A frase sobre a vida ser uma eterna troca de figurinhas não era apenas uma citação bonita pescada da internet. Era um pensamento meu, escrito em 2015 numa troca de e-mail, publicado depois, quase displicentemente, na minha coleção pessoal do Pensador, até fazer uma curva improvável e aparecer no antigo site da Ana Maria Braga, dentro do g1. Eu descobri isso fazendo aquilo que a internet chama de egosurfing: pesquisar o próprio nome e encontrar rastros inesperados de si mesmo espalhados pela rede (e, aqui, eu chamo de Zargolin por aí).

Cinco anos depois, essa história parece mais logosgráfica do que nunca. Uma frase saiu de uma correspondência, virou postagem, encontrou a televisão, voltou como voz no podcast e agora retorna outra vez, nesta revisita, como figurinha rara de um álbum que nunca termina. Em 2021, talvez eu tenha usado aquela participação como uma surpresa divertida, uma piscadela pública, uma forma de brincar com o absurdo delicado de ouvir uma frase minha na voz de Ana Maria Braga. Em 2026, a cena ganha outro peso. Não era apenas vaidade de autor encontrado por acaso no próprio rastro digital. Era a confirmação de que as palavras, quando escapam da gaveta, às vezes fazem percursos que nem o escritor conseguiria planejar.

E talvez seja exatamente esse o sentido da imagem. Ninguém completa o próprio álbum sozinho. A gente precisa circular. Precisa oferecer, receber, repetir, substituir, abrir mão de algumas duplicadas. O egoísmo atrapalha a coleção porque transforma figurinha em posse, quando a lógica do álbum é encontro. Uma figurinha guardada demais não completa ninguém. Uma palavra retida demais não encontra destino. Talvez o contrário da idolatria não seja indiferença. Talvez seja troca.

Por isso, a frase se encaixava tão bem naquele episódio final. O Paulo Falante terminava sua primeira temporada agradecendo a quem ouviu, participou, brincou junto, emprestou voz, música, memória, admiração e presença. O programa dizia “valeu por essa troca” como quem encerra um ciclo, mas também como quem, sem perceber, deixava uma chave para o futuro. A primeira temporada inteira foi isso: uma tentativa de completar um álbum impossível com figurinhas oferecidas pela cultura popular, pelos amigos, pelos ouvintes, pelas dores sociais, pelas perguntas e pelas pequenas epifanias de uma voz em formação.

O episódio terminava com Titãs, como quem sabe que não há jeito fácil de dizer algo difícil. E havia algo difícil naquele encerramento: uma brincadeira que tinha começado com vontade, referências, músicas e pensamentos falados chegava ao fim de seu primeiro ciclo. Hoje, olhando para trás, percebo que aquele final não era apenas despedida. Era uma pequena cerimônia de gratidão. Entre voz e escuta. Entre pop e pensamento. Entre amigos, artistas, ouvintes e uma pessoa tentando entender o que podia fazer com a própria fala.

Cinco anos depois, eu não voltaria a esse episódio para rir do entusiasmo daquele Paulo. Eu apenas lhe diria que ele estava certo em desconfiar do deslumbre e certo também em não desistir da admiração. O mundo não precisa de menos admiração. Precisa de admiração mais lúcida, mais distribuída, menos ajoelhada diante do poder e mais atenta às pessoas que tornam a vida possível nos bastidores. Precisamos parar de pirar por qualquer brilho, mas também precisamos parar de economizar reconhecimento com quem nos atravessa com bondade, inteligência, presença, trabalho e coragem.

Ser fã de quem está perto talvez seja uma forma de justiça afetiva. Não aquela justiça grandiosa, escrita em pedra, proclamada em tribunal. Uma justiça menor, cotidiana, quase doméstica, mas profundamente necessária. Dizer “sou seu fã” para alguém que nos ajudou a sobreviver a um ano difícil é devolver ao mundo uma parte da ternura que ele insiste em confiscar. Reconhecer o brilho de um amigo antes que ele vire ausência. Celebrar uma colega antes que o trabalho apague seu rosto. Admirar um artista sem abandonar a própria cabeça. Gostar de uma voz sem entregar a ela todo o nosso pensamento. Completar o álbum, enfim, não pela posse das figurinhas, mas pela coragem de trocar.

Curiosamente, esse pensamento ainda não encerrou sua circulação. Ele deve voltar no primeiro episódio da segunda temporada do Paulo Falante, prevista para estrear em 21 de junho de 2026, exclusivamente pelo Kwai. Como se a frase, escrita em 2015, precisasse atravessar e-mail, Pensador, Globo, podcast, revisita e vídeo curto para provar sua própria tese: a vida é mesmo uma troca de figurinhas, e algumas delas só revelam seu valor quando reaparecem anos depois, em outra mão, em outra voz, em outro álbum.

Abaixo, deixo incorporado o episódio original de “Ídolos, fãs e comutação”, para quem quiser escutar a saideira da primeira temporada do Paulo Falante.

Talvez a melhor escuta, agora, seja esta: nem todo ídolo precisa estar longe, nem todo fã precisa estar ajoelhado, nem toda admiração precisa virar culto. Às vezes, a forma mais bonita de admirar alguém é permitir que o brilho do outro nos ensine a enxergar melhor quem caminha ao nosso lado.


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