Por: Paulo Ricardo Zargolin
A partir do viral que transformou o “beijinho no ombro” em “ósculo no acrômio”, uma reflexão sobre linguagem, adequação comunicativa e a inteligência de saber quando a palavra precisa vir de fraque, de chinelo ou simplesmente rasgada.
Uma amiga, Doutora em Educação, me confessou, entre o riso e o cansaço, que, ao chamar a atenção de uma pessoa, precisou falar “o português rasgado”.
Não o português das bancas.
Não o português dos pareceres.
Não o português das citações em fonte 11, espaçamento 1,5 e referências ao final.
Aquele que não pede licença à solenidade para existir. Aquele que entra pela porta da frente quando a janela da delicadeza já emperrou. Aquele que, às vezes, precisa trocar o “convém reconsiderar sua postura” por um “meu bem, não é assim que funciona”.
Porque há um momento da vida em que toda pessoa letrada, escolarizada, diplomada, pós-graduada, carimbada, validada e assinada digitalmente descobre uma verdade muito simples: não basta saber falar bonito. É preciso saber falar de modo que o outro entenda.
Foi aí que me lembrei de um viral recente: uma versão erudita do famoso beijinho que Valesca Popozuda deu no ombro das inimigas em meados de 2014.
Sim, nós vivemos o bastante para ver o beijinho virar ósculo e o ombro virar acrômio.
E talvez isso diga mais sobre linguagem do que muitos manuais.
A brincadeira é simples, mas não é pequena. Pega-se uma canção popular, direta, feita para o refrão, para a provocação, para a frase de efeito, e troca-se sua roupa. Onde havia molejo, entra vocabulário solene. Onde havia deboche, aparece uma espécie de ata medieval do barraco. Onde havia gesto corporal, surge relatório anatômico da afronta.
O resultado é engraçado porque está errado.
Não errado gramaticalmente.
Errado na cena.
Errado no encaixe.
Errado de propósito.
A linguagem parece ter colocado smoking para ir ao churrasco. Parece ter chegado de beca a uma festa com cachorro-quente no guardanapo. Parece ter levado uma tese para explicar um gesto que todo mundo já entendia sem precisar de nota de rodapé.
É daí que vem a graça.
Mas é daí que vem também a lição.
Falar bem não é falar difícil. Falar bem é saber quando a palavra precisa vestir terno, quando pode ir de chinelo, quando deve entrar descalça e quando precisa apenas chegar sem fazer cerimônia.
A escola, a academia, a gestão pública, a vida profissional e até as relações familiares ainda confundem, muitas vezes, domínio da linguagem com enfeite verbal. Há quem transforme uma orientação simples em labirinto. Há quem fale com crianças como se estivesse defendendo tese. Há quem fale com famílias como se estivesse redigindo portaria. Há quem fale com trabalhadores cansados como se estivesse apresentando comunicação em congresso.
Depois reclama que ninguém entendeu.
Mas talvez o problema não esteja na inteligência de quem ouve. Talvez esteja na vaidade de quem fala.
A adequação comunicativa é uma das formas mais bonitas de inteligência. Ela exige leitura do ambiente, do interlocutor, da idade, do momento, da dor, da pressa, da cultura e da necessidade.
Não se fala do mesmo modo com uma criança pequena, com uma professora experiente, com uma mãe aflita, com um adolescente irritado, com uma equipe técnica, com um juiz ou com alguém que acabou de atravessar um dia difícil.
A língua pode ser a mesma.
A cena, não.
Talvez por isso a confissão da minha amiga tenha me parecido tão pedagógica. Uma Doutora em Educação precisou falar o português rasgado não porque desaprendeu o português acadêmico, mas porque entendeu a situação. Ela não empobreceu a língua. Ajustou a chave. Desceu do púlpito. Tirou o salto da frase. Escolheu a palavra que chegava.
Isso não é falta de repertório.
É repertório em ação.
Porque só escolhe bem quem tem mais de uma possibilidade. Quem só sabe falar difícil não é sofisticado; é limitado por cima. Quem só sabe falar de modo bruto não é autêntico; é limitado por baixo. A verdadeira competência comunicativa está em transitar.
A releitura viral, com todo seu exagero, nos lembra disso. Ri da erudição quando ela esquece que a fala também tem chão. Ri da palavra que, de tão ornamentada, perde o caminho até o ouvido do outro.
E veja que maravilha: a internet, esse grande recreio com curto-circuito, às vezes produz uma aula inteira sem quadro, sem chamada e sem plano de ensino.
Com ajuda de inteligência artificial, montagem, voz, edição, humor e memória pop, uma música de 2014 reaparece fantasiada de latim de botequim. O meme circula porque muita gente reconhece a matriz popular. Ri porque lembra. Ri porque compara. Ri porque percebe o absurdo.
É Nostalgrafia também.
Quem estava por aqui naquele período talvez se lembre do país cantando refrões como quem colecionava bordões. Era outro Brasil e, ao mesmo tempo, era o mesmo: internet fervendo, música grudando, memes nascendo, frases se espalhando por festas, escolas, programas de televisão e conversas de corredor.
Agora, o passado retorna em traje de gala lexical.
Volta remixado. Volta editado. Volta com legenda, filtro, voz sintética, comentário e ironia. Volta como se dissesse: “Vocês riram disso uma vez. Agora riam de novo, mas com diploma.”
Só que, debaixo da brincadeira, há uma pergunta séria.
Ser simples não é ser raso.
A simplicidade verdadeira dá trabalho. Exige precisão, humildade e coragem. É muito mais fácil esconder uma ideia fraca atrás de palavras difíceis do que fazer uma ideia boa caminhar com as próprias pernas.
Por isso a brincadeira é coisa séria também.
Um meme pode ser só um meme. Mas também pode ser uma fresta. Pode lembrar que língua não é vitrine de vaidade; é ponte. E ponte não foi feita para exibir o engenheiro. Foi feita para permitir a travessia.
A palavra certa não é sempre a mais bonita.
A palavra certa é a que cumpre sua missão.
Às vezes, vem de fraque.
Às vezes, vem de chinelo.
Às vezes, vem com diploma.
Às vezes, vem rasgada.
O importante é que venha na medida do encontro.
Porque falar é sempre encontrar alguém. E, se a palavra não encontra, ela pode até ser correta, rara, culta, elegante, erudita e digna de aplauso.
Mas não comunicou.
Então, aos beijoqueiros da língua, aos eruditos do meme, aos doutores que sabem descer do pedestal, aos professores que traduzem sem humilhar, aos cronistas que riem pensando e aos falantes que ainda acreditam na ponte:
Um ósculo, sim. Mas só se o contexto permitir.
Bônus: relembre o funk original, abaixo.




