
Uma revoada, um antigo endereço e a breve tentação de sentir saudade daquilo que foi muito melhor depois que acabou.
Hoje passei perto do apartamento em que morei durante certo período da vida. Há lugares que deixamos para trás, mas que insistem em permanecer na rota do supermercado.
Na volta, encontrei uma revoada de maritacas fazendo festa nas árvores da esquina. Haviam descoberto algumas frutinhas e comemoravam como quem acabava de receber uma herança. O som era alegre, vivo e um pouco mais alto do que a alegria precisava ser.
Quando nos mudamos para lá, tudo parecia um sonho.
As aves sobrevoavam a sacada, pousavam na fiação e anunciavam o começo e o fim dos dias. Tirávamos fotos quando se aproximavam. Nos primeiros tempos, chamávamos aquilo de canto.
Havia certa poesia em morar entre lojas, carros, prédios e criaturas coloridas.
Duas semanas mais tarde, já sentíamos saudade de dormir.
O alvorecer deixou de ser um fenômeno poético e passou a ser uma agressão sonora. Em pouco tempo, aquela convivência deixou de ser contemplativa e se tornou inconveniente.
Um mês depois, já não morávamos perto de aves lindas. Morávamos num lugar infestado de bichos.
A transformação de “pássaros encantadores” em “bicudas barulhentas” foi bastante rápida. A poesia durou menos do que o contrato de aluguel.
Logo descobrimos também o interesse delas pela fiação do ar-condicionado, uma vez que já não bastava acordar os moradores: era preciso ameaçar os eletrodomésticos.
O que antes cantava começava a produzir prejuízo.
Houve ainda o período em que acreditávamos ter um rato dentro do sofá. Durante alguns dias, convivemos com a possibilidade de um roedor ter escolhido nossa sala para morar.
O invasor, porém, não estava dentro de casa.
Era um pássaro que decidira construir um ninho num pequeno buraco do lado de fora da janela.
Quando descobrimos o verdadeiro responsável, a abertura já estava imensa. Ele não havia feito um ninho. Havia iniciado uma obra.
Naquela tarde, o alvoroço da esquina trouxe de volta as lembranças boas e, logo em seguida, todas as outras.
Foi bom rever a cena com a certeza de quem estava só de passagem. Claro, continuo achando bonitas essas aves, sobretudo quando pertencem à paisagem de outra pessoa.
Fui embora ouvindo a algazarra e agradecendo por elas não saberem onde moro agora.
Afinal, nem toda nostalgia deseja um retorno. Algumas pedem apenas que a gente continue caminhando.

