Maracangalha #10: O peso dos papéis

Por: Paulo Ricardo Zargolin

No dia seguinte, a manhã desceu sobre a casa como quem não quer ficar. A luz invadiu os cômodos com delicadeza calculada, esgueirando-se pelas frestas das janelas abertas, quase que pedindo licença antes de entrar. Havia um cheiro indefinido no ar — algo entre incenso vencido, café de ontem e lavanda triste.

Cristina já estava acordada. Desde cedo. Desde sempre. Sentada à mesa, vestia um avental que conhecia bem os vincos da rotina. Os olhos, duros como porcelana de parede, fitavam o nada com dignidade.

A mesa, como sempre, estava posta. Nada era excessivo. Nada era menos do que devia ser. Três xícaras, três pires, três pedaços de pão, três silêncios.

Laura chegou com os cabelos soltos, o que era quase um gesto de insubordinação. Trazia no rosto uma brancura discreta, como quem dormiu mais do que devia, mas sonhou menos do que queria. Sentou-se. A cadeira chiou. A colher tocou o copo com precisão. Nenhuma palavra.

— Vai ao ensaio hoje? — perguntou Cristina, sem tirar os olhos do pano que dobrava pela quarta ou quinta vez.

— Não sei.

A resposta era curta, mas vinha carregada. Era o tipo de resposta que não admite réplica sem desvio de rota.

Ísis apareceu por último, mas com o mesmo pulso. Trazia consigo uma pasta azul, os cabelos ainda úmidos e uma disposição irônica de quem não teme a manhã. Sentou-se sem cerimônia, pois parecia entender que há casas onde o estranho se acomoda mais rápido que o próprio dono.

— A prefeitura não fede, mas também não cheira. E tem salas que fingem ter gente — disse, ao sentar.

— E gente que finge ter sala — retrucou Cristina, mas sem dureza.

O café passou como podia passar: sem pressa, sem travo. Pão mastigado em silêncio. Olhares que se cruzavam apenas para não se evitarem. E quando tudo pareceu consumado, Laura falou:

— Quer ver uma coisa?

Ísis não perguntou o quê. Apenas assentiu.

As duas caminharam até o corredor. O chão era limpo demais, como quem guarda segredos nas juntas. No fim, encostado à parede, um baú escuro. Pequeno. Mas com ares de túmulo. Sobre ele, um espelho embaçado. Não embaçado de poeira, mas de passado. Espelho que não reflete rostos — apenas saudades mal arrumadas.

— Era da minha mãe — disse Laura. A frase saiu sem emoção, entregando uma chave sem saber o que há trancado.

Ela se ajoelhou. O baú rangeu. Dentro, panos dobrados, fitas, broches, uma agenda com folhas arrancadas, um terço sem cruz, uma fotografia de feira em preto e branco. E no meio disso, uma caixinha de veludo azul. Ao abrir, uma concha. Pequena, branca. Inteira.

— Ela dizia que era da praia que nunca conheceu. Uma mulher que bordava mar no linho e lavava roupa com olhos virados para o horizonte.

Ísis pegou a concha como quem toca uma relíquia. Girou entre os dedos. Encostou no ouvido — não para ouvir o mar, mas o silêncio da mulher que a guardou.

— Uma vez, minha mãe disse que todo mundo tem uma concha — murmurou. — Tem gente que guarda som. Outros, culpa.

A caixa voltou ao baú. Mas a memória não.

Havia também uma carta, dobrada três vezes. O papel amarelado. A letra, firme. A data, anterior ao casamento. Laura a viu. Não tocou. Apenas olhou.

— Eu não leio. Já sei o que está escrito — disse, sem orgulho.

— E por que guarda?

— Porque mesmo o que já se sabe pode precisar ser lido um dia. Quando a gente esquecer como doeu.

A tampa do baú ficou aberta. Por alguns segundos. Depois, com a mesma lentidão com que as manhãs chegam, foi fechada. Sem ruído. Sem cerimônia.

As duas ficaram em pé, uma ao lado da outra, como se ali, naquele canto abafado da casa, tivessem assinado um pacto sem nome.

No caminho de volta, cruzaram com Cristina. Ela não perguntou. Tampouco fingiu que não viu. Passou com um pano na mão e um vinco no cenho. À sua maneira, também velava.

Antes de voltarem ao que cada uma chama de afazer, Ísis parou no corredor e olhou para o espelho. Pela primeira vez, ele devolveu um vulto. Era ela. Mas embaçada. Como se dissesse: “Ainda não.”

Na volta à cozinha, a mesa já estava meio vazia, mas os vestígios do café ainda marcavam presença: farelos no guardanapo, copos úmidos, uma colher esquecida ao lado da manteigueira. Cristina lavava a louça com gestos seguros, como quem acredita que manter a casa limpa impede que a alma se suje.

Ísis, encostada no batente, observou por alguns segundos em silêncio, depois se aproximou.

— Posso ajudar? — ofereceu, com um sorriso simples, mas sincero. — É o mínimo, depois de tudo. Estou ocupando espaço e silêncio aqui…

Cristina virou-se só um pouco, enxugando as mãos no pano de prato.

— Imagina, menina. Aqui você é nossa convidada — respondeu, com a ternura firme de quem acredita no valor da hospitalidade. — E casa que acolhe não cobra aluguel de afeto.

— Então me deixa fazer companhia, ao menos — disse Ísis, puxando uma cadeira com discrição.

O barulho da cadeira foi engolido pelo som da água batendo no prato. Elas ficaram ali: uma lavando, a outra sentada, as duas preenchidas por um tipo de intimidade que não precisa de origem. Havia algo na presença silenciosa que não pesava.

Laura entrou na cozinha já arrumada. Vestia um vestido azul-marinho, discreto, e prendia o cabelo com o grampo da mãe.

— Eu vou ao ensaio.

Cristina arqueou as sobrancelhas, surpresa. Mas não comentou. Apenas limpou a xícara com mais cuidado que o habitual.

— Assim aproveito pra acompanhar a prima postiça até a prefeitura — continuou Laura, com uma leveza quase ensaiada. — Nosso caminho é parecido. Depois, cada uma segue para seu altar.

— Altar? — murmurou Ísis, rindo. — Um é feito de madeira e preces, o outro de concreto e carimbos. Mas entendo o ponto.

Elas saíram juntas alguns minutos depois. A rua ainda cheirava a sereno, e os primeiros passos foram acompanhados por latidos espaçados e portas se abrindo lentamente. Caminhavam sem pressa, sabendo que cada passo é um fio de conversa.

— Seu pai… — começou Ísis, após um tempo. — Ele não mora mais com vocês?

Laura mordeu o lábio, pensou, respondeu:

— Mora. No papel, na lembrança, nos discursos… Mas, na prática, ele aparece pouco. É quase uma visita.

— Mas é possível conversar com ele?

— Não. Conversar, não. Ouvir, talvez. Questionar, jamais. Ele decide. A gente decora.

O silêncio seguinte não foi desconfortável — foi lúcido. Cada uma, à sua maneira, entendeu o que aquela resposta carregava. Era mais do que sobre Agenor. Era sobre a cidade. Sobre o medo de abrir gavetas fechadas por décadas.

Elas seguiram até a bifurcação do caminho. Laura apontou para a direita:

— Aqui eu viro. A igreja está adiante. A prefeitura, também.

— Estranho… — comentou Ísis, com ironia seca. — Como se todo mundo rezasse no mesmo lugar, só que com intenções diferentes.

Sorriram, cúmplices de uma crítica que não precisou ser aprofundada. Cada uma seguiu. E, pela primeira vez naquela manhã, o sol pareceu sair das nuvens sem pedir desculpa.


Retome o nono capítulo, aqui.
Acompanhe as aventuras de Lia, aqui.
Volte ao início, aqui.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo