Por Paulo Ricardo Zargolin
Naquela tarde, o céu foi medir nuvens de inverno.
Havia chegado ao observatório das estações com a esperança simples de encontrar alguma camada que lhe desse abrigo. O frio já se anunciava nos cantos do calendário, e era preciso preparar alguma forma de permanência: um manto, uma dobra, uma sombra mais espessa sobre os dias.
Mas nem toda nuvem aceita qualquer céu.
Uma encurtava o horizonte.
Outra pesava onde não devia.
Outra parecia feita para uma vastidão mais disciplinada, dessas que cabem sem protesto nas molduras do mundo.
Diante do espelho terrestre, o céu sentiu-se vasto de um modo pouco nobre. Não era imensidão de poema, nem grandeza de mapa antigo. Era apenas excesso: essa palavra sem música que às vezes encosta na superfície das coisas e muda a temperatura da tarde.
Foi quando uma cor apareceu.
Não veio sozinha, é verdade. Nenhuma cor vem. Toda cor precisa de alguma superfície para revelar sua intenção. Mas o céu, naquele instante, não olhou para a superfície.
Olhou para o acordo.
Era um tom entre o dia e a noite. Nem vermelho, nem roxo. Uma espécie de poente recolhido, quase vinho, quase sombra, quase despedida. Um desses tons que parecem hesitar antes de escolher a qual parte do mundo pertencem.
E, ali, escolheu.
Assentou-se com uma facilidade quase ofensiva.
Não fez alarde.
Não pediu licença.
Não anunciou milagre.
Apenas encontrou repouso onde o céu, minutos antes, não encontrara.
Por um instante, a harmonia deixou de ser discreta.
Então a cor foi recusada.
Disseram que não. Que talvez não fosse bem aquilo. Que outro tom, quem sabe, outro caminho, outra camada. O céu ouviu em silêncio, com a surpresa antiga de quem vê o mundo desperdiçar, sem cerimônia, aquilo que nele parecia impossível.
Há injustiças pequenas que não chegam aos tribunais do universo.
Uma nuvem que não serve.
Um espelho que insiste.
Um tom que pousa melhor em outro lugar.
Uma beleza qualquer que passa sem saber que passou.
Depois, a tarde retomou seu funcionamento comum.
As nuvens voltaram aos seus suportes.
O espelho continuou inteiro.
O inverno permaneceu à espera.
A cor, recusada, saiu de cena sem pedir registro nos arquivos do firmamento.
Mas o céu levou consigo uma nota mínima, quase ilegível:
nem tudo que ilumina permanece;
nem tudo que cabe escolhe ficar;
nem toda cor sabe o que revela quando pousa.
Naquela tarde, o céu não encontrou suas nuvens.
Encontrou apenas um tom que não era seu.
E talvez por isso tenha brilhado tanto.
Outras leituras logosgráficas:
A esquina depois das onze — sobre aquilo que parece inexistente apenas porque ainda não foi encontrado no momento certo.
O centro do universo também balança — uma crônica sobre corpos celestes, deslocamentos e a descoberta de que até aquilo que ilumina pode ser afetado.
A joia nas mãos — sobre valor, reconhecimento e aquilo que pode passar por nós sem que compreendamos inteiramente o que carregávamos.




