A colega, o grupo e o medo de confiar

Por Paulo Ricardo Zargolin

Quando ninguém confia em ninguém, alguém sempre acaba fazendo tudo sozinho. Às vezes, é a colega exausta. Às vezes, é a inteligência artificial. Em ambos os casos, o trabalho pode até ficar pronto; mas o grupo talvez nunca chegue a existir.

Há uma figura que todo mundo reconhece antes mesmo de terminar a frase: aquela pessoa que entra em um trabalho em grupo e, discretamente ou nem tanto, começa a fazer tudo sozinha. Ela escreve a introdução, reorganiza os slides, mexe na parte dos colegas, decide quem vai apresentar, corta sugestões, altera o tom, muda a ordem, ajusta a estética e, quando alguém tenta participar, responde com a serenidade autoritária de quem já resolveu o problema antes mesmo de o grupo existir.

Num vídeo de humor sobre essa personagem, a graça nasce justamente do exagero reconhecível. A colega centralizadora não apenas participa: ela ocupa. Não apenas contribui: ela substitui. Não apenas ajuda: ela sequestra o trabalho em nome da eficiência. O que era para ser uma construção coletiva vira uma apresentação individual com figurantes previamente distribuídos ao redor.

Mas a parte mais interessante talvez não esteja apenas no vídeo. Está nos comentários.

Por que algumas pessoas fazem tudo sozinhas no trabalho em grupo?

Muita gente não viu a personagem como vilã. Viu como sonho. “Eu gostaria de ter sempre uma colega assim”, dizem alguns, em diferentes palavras. Outros confessam que não teriam trabalho nenhum se encontrassem alguém desse tipo. Há quem defenda que trabalho em grupo é sempre uma experiência ruim, porque quanto maior o grupo, maior o estresse e menor a garantia de que alguém realmente fará alguma coisa. Há, ainda, quem diga que as pessoas deixam tudo para a última hora e, por isso, acaba sendo melhor resolver sozinho.

A cena, então, deixa de ser apenas uma piada sobre controle. Ela vira um pequeno estudo de caso sobre confiança.

A colega que faz tudo sozinha pode ser arrogante, invasiva, ansiosa, perfeccionista ou simplesmente acostumada a carregar o piano enquanto os outros aparecem apenas para a foto. O grupo, por sua vez, pode ser injusto, preguiçoso, desorganizado, omisso ou apenas malformado. Entre uma coisa e outra, nasce uma relação doente: alguém centraliza porque não confia; os demais se acomodam porque alguém centralizou; depois todos reclamam daquilo que ajudaram a produzir.

O que faz um trabalho em grupo funcionar de verdade?

Em bom português: um grupo não é um ajuntamento de pessoas com o mesmo nome na capa do trabalho. Grupo é pacto. É divisão de responsabilidades. É escuta. É conflito. É negociação. É a capacidade de reconhecer que ninguém precisa fazer tudo, mas todo mundo precisa responder por alguma coisa. Quando isso não acontece, o grupo vira uma pequena sociedade injusta: alguns trabalham, alguns opinam tarde demais, alguns somem, alguns assinam e alguns ainda se sentem no direito de reclamar da fonte usada no slide.

Por que grupos malformados produzem controle e acomodação?

A psicologia dos grupos ajuda a entender esse pequeno drama escolar, acadêmico e profissional. Todo grupo precisa atravessar uma fase de formação: quem somos, o que faremos, como vamos nos organizar, quem decide, quem executa, quem revisa, quem fala, quem escuta? Quando essas perguntas não são enfrentadas, elas não desaparecem. Elas apenas se resolvem pelo caminho mais torto. O mais ansioso assume. O mais calado obedece. O mais esperto desaparece. O mais crítico chega no final. O mais responsável se esgota.

Assim, todo grupo malformado fabrica seu próprio tirano funcional.

E talvez seja por isso que tanta gente olhe para a personagem centralizadora com gratidão secreta. Ela pode até ser inconveniente, mas entrega. Pode ser autoritária, mas resolve. Pode apagar a participação alheia, mas evita o fracasso. Ela é, ao mesmo tempo, sintoma e remédio ruim. Cura a dor imediata do trabalho não feito, mas confirma a doença coletiva: ninguém aprendeu a confiar, ninguém aprendeu a dividir, ninguém aprendeu a construir junto.

A inteligência artificial ajuda ou atrapalha o trabalho em grupo?

A atualização tecnológica desse caso torna tudo ainda mais interessante. Hoje, o grupo já não é formado apenas por pessoas. Em muitos processos de escrita, pesquisa, criação, edição e organização de ideias, há pelo menos um humano e uma máquina. Às vezes, a máquina é um editor de texto que corrige, sugere e reorganiza. Às vezes, é uma plataforma que monta slides, traduz, resume, calcula, diagrama. Às vezes, é uma inteligência artificial capaz de produzir, em poucos segundos, aquilo que antes exigiria horas de conversa entre colegas.

Nesse novo cenário, a pergunta muda de lugar: se antes o problema era confiar tudo à colega que queria fazer sozinha, agora também pode ser confiar tudo à máquina que parece fazer melhor.

A inteligência artificial pode entrar no grupo como ferramenta, parceira de pensamento, provocadora de caminhos, organizadora de possibilidades. Mas também pode virar a nova aluna centralizadora: aquela que faz a introdução, reorganiza os tópicos, decide o tom, cria os slides, melhora a estética, resume as leituras e entrega um trabalho com aparência de conclusão antes mesmo de o grupo ter vivido o processo de pensar. A diferença é que, nesse caso, talvez ninguém reclame. Pelo contrário: todos podem agradecer à máquina pelo alívio.

Quando a IA faz tudo, quem realmente aprende?

Só que há um risco silencioso aí. Quando a máquina faz tudo, o grupo não necessariamente se torna mais inteligente. Às vezes, apenas terceiriza sua dificuldade de existir. O trabalho sai. O arquivo fica bonito. A apresentação parece coesa. Mas a pergunta continua aberta: quem pensou? Quem discordou? Quem negociou? Quem aprendeu? Quem reconheceria as próprias ideias naquele resultado?

O problema, portanto, não é usar tecnologia. O problema é usar tecnologia para escapar da experiência humana que o trabalho coletivo deveria provocar. Porque o sentido de um grupo não está apenas no produto final. Está no atrito. Está na escuta. Está no momento em que uma ideia ruim melhora porque alguém a contestou. Está na descoberta de que o outro não pensa no mesmo ritmo, não escreve do mesmo jeito, não organiza o mundo pela mesma lógica — e ainda assim pode contribuir.

Como usar tecnologia sem abandonar o pensamento coletivo?

A máquina pode ajudar muito nesse percurso. Pode revisar, sugerir, comparar, organizar, testar caminhos. Mas ela não deveria substituir o pacto humano que dá sentido ao grupo. Quando isso acontece, não temos colaboração ampliada; temos apenas uma nova forma de abandono. Antes, alguns colegas abandonavam o trabalho nas costas de uma pessoa. Agora, corremos o risco de abandonar o pensamento nas mãos de uma ferramenta.

No fundo, a colega centralizadora e a inteligência artificial mal utilizada nos fazem a mesma pergunta: você quer mesmo participar ou só quer que algo funcione no seu lugar?

Talvez o trabalho em grupo continue sendo tão odiado porque ele revela, com certa crueldade, o que somos diante dos outros. Há quem queira mandar. Há quem queira fugir. Há quem queira assinar sem fazer. Há quem queira fazer tudo para não depender de ninguém. Há quem só consiga confiar quando controla. E há quem chame de eficiência aquilo que, muitas vezes, é apenas medo de dividir.

Por isso, a cena humorística funciona tão bem. Ela não fala apenas de escola, faculdade ou apresentação em slide. Ela fala de uma pedagogia inteira da convivência. Trabalhar em grupo é difícil porque confiar é difícil. E confiar não significa acreditar ingenuamente que todos farão sua parte. Significa construir condições para que a responsabilidade não seja nem abandono, nem tirania.

A colega que faz tudo sozinha pode até salvar o trabalho. A máquina também pode. Mas nenhuma das duas salva o grupo, quando o grupo já desistiu de aprender a existir.

O que um trabalho em grupo deveria avaliar?

No fim, talvez a grande lição seja simples: um trabalho coletivo não deveria ser medido apenas pela nota, pela beleza dos slides ou pela fluidez da apresentação. Ele também deveria ser medido pela qualidade do vínculo que conseguiu produzir. Porque quando ninguém confia em ninguém, alguém sempre acaba fazendo tudo sozinho — seja uma colega exausta, seja uma inteligência artificial silenciosa, seja qualquer substituto conveniente para a nossa dificuldade de pensar em conjunto.

Para continuar pensando no Acervo

Esta reflexão dialoga com estudos sobre processos grupais, aprendizagem cooperativa, autonomia intelectual e confiança em sistemas automatizados, especialmente quando o trabalho coletivo passa a incluir não apenas pessoas, mas também ferramentas digitais e inteligências artificiais.


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