Por Paulo Ricardo Zargolin
Houve um tempo em que a autoridade vinha em forma de jaleco branco, sorriso imóvel e escova de dentes girando em câmera lenta.
“Nove entre dez especialistas recomendam.”
E pronto.
A humanidade podia seguir tranquila para a gôndola do supermercado, espiritualmente amparada por aquela maioria esmagadora de dentistas, médicos, cientistas, nutricionistas ou criaturas genéricas chamadas apenas de “especialistas”. Ninguém sabia seus nomes. Ninguém via seus currículos. Ninguém perguntava onde estava o estudo. Bastava saber que eram nove. Nove é muita gente. Nove convence.
Mas eu sempre tive pena do décimo.
Quem era ele?
O especialista renegado. O herege da escova. O dissidente do creme dental. O rebelde estatístico que, diante da pergunta decisiva, ousou dizer:
— Olha, eu recomendaria outro.
Ou talvez nem isso. Talvez só tenha pedido para ler a composição antes. Talvez tenha dito “depende”. Talvez tenha cometido o pecado capital de qualquer comercial: introduzir complexidade onde só cabia uma frase de impacto.
O décimo especialista era um problema. Não cabia no slogan. Não sorria no enquadramento. Não ajudava a vender. Era aquele 10% incômodo lembrando que consenso absoluto talvez seja coisa de propaganda, não de conhecimento.
Durante muito tempo, essa fórmula funcionou como falácia de autoridade bem penteada. Se a maioria dos especialistas recomenda, quem sou eu para discordar? Eu, mero cidadão sem jaleco, sem laboratório, sem gráfico colorido e sem diploma pendurado atrás da cadeira?
Só que o mundo deu tantas voltas que hoje a pergunta se inverteu.
Ainda existem nove especialistas concordando sobre alguma coisa?
Dependendo do assunto, cada especialista parece carregar uma pequena república dentro da cabeça. Um diz que pode. Outro diz que não pode. Um garante que faz bem. Outro jura que faz mal. Um apresenta evidências. Outro apresenta evidências contra as evidências. Um escreve artigo. Outro grava vídeo indignado explicando por que o colega está desatualizado, vendido, precipitado ou simplesmente errado.
E nós, pobres não especialistas, ficamos no meio do tiroteio, segurando a escova, a bula, o boleto, o voto e a dúvida.
A especialidade, que deveria iluminar, às vezes parece virar disputa de território. Não basta conhecer. É preciso vencer. Não basta explicar. É preciso ocupar a versão oficial da explicação. Há egos com bibliografia. Vaidades com nota de rodapé. Guerras de currículo travadas em nome da prudência, da ciência, da técnica, da moral, da inovação, da tradição ou de qualquer palavra suficientemente bonita para esconder uma queda de braço.
E o cidadão comum?
Esse continua comum.
É ele quem precisa decidir se toma ou não toma, compra ou não compra, acredita ou desconfia, espera ou corre, assina ou cancela, matricula ou tira, segue ou denuncia. É ele quem paga o preço de uma orientação mal explicada, de uma certeza fabricada, de uma dúvida explorada ou de um consenso vendido em embalagem econômica.
Talvez o problema nunca tenha sido existir divergência entre especialistas. Divergir é parte do pensamento honesto. O problema é quando a divergência vira espetáculo para confundir quem precisava de orientação clara. Ou quando o consenso vira propaganda para calar quem ainda tinha uma pergunta legítima.
Entre os nove que recomendavam e o décimo que discordava, talvez estivesse escondida uma lição: autoridade não dispensa pensamento. Maioria não substitui argumento. Especialidade não deveria ser pedestal, mas serviço.
Hoje, quando ouço alguém dizer que “os especialistas afirmam”, sinto falta de saber quais. Quando dizem que “a ciência já provou”, quero saber como, quando, em que condições e com quais limites. E quando anunciam que “não há dúvidas”, desconfio um pouco mais. Não porque eu saiba mais. Justamente porque sei menos. Quem sabe menos precisa de honestidade, não de teatro.
No fundo, talvez aquele décimo especialista não fosse o vilão da história. Talvez fosse apenas o sujeito inconveniente que lembrava aos outros nove que nenhuma escova, nenhuma tese, nenhum remédio, nenhuma política pública, nenhuma teoria e nenhuma verdade de prateleira deveria ser vendida como se pensar fosse opcional.
Um a cada dez especialistas talvez ainda discorde.
E, sinceramente, começo a achar que é bom que discorde.
O problema é quando os dez falam ao mesmo tempo, cada um com um microfone, e deixam o cidadão com a boca cheia de espuma, olhando para o espelho, sem saber se escova os dentes, se troca de creme dental ou se processa a propaganda.
No fim das contas, talvez o décimo especialista nunca tenha sido o problema. O problema começa quando o cidadão desiste de fazer a décima pergunta.
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