Começou como uma brincadeira de um deputado federal.
Numa sessão meio vazia, dessas em que a democracia parecia funcionando por insistência do microfone, alguém disse:
— Se todo poder emana do povo, alguém precisa assinar o recibo.
Riram. Filmaram. Cortaram o vídeo. Jogaram nas redes.
No outro dia, a frase já estava em card, camiseta, roda de podcast e discurso de vereador. Chamaram a ideia de moderna, simples, participativa. Três palavras que, quando aparecem juntas, costumam fazer a realidade pedir um advogado.
O nome veio bonito: Assinante do Povo.
Passou pela Câmara, pelo Senado e pela Presidência em tempo recorde. A velocidade espantou alguns, mas não muitos. No Brasil, a pressa do poder sempre encontra um jeito de se apresentar como urgência do povo.
A lei não criava cargo, diziam. Não criava emprego. Não criava mandato. Criava apenas uma função cívica de endosso popular. Era uma dessas expressões que parecem limpas justamente porque ninguém sabe direito onde pôr a mão para verificar a sujeira.
Cada município deveria indicar um morador para assinar, em nome do povo, determinados atos do Executivo. Não podia ser político. Não podia ter cargo de confiança. Não podia ser parente de autoridade. Não podia estar metido em confusão.
Também não podia ser desconhecido demais, porque aí ninguém botava fé.
Nem conhecido demais, porque aí o povo começava a lembrar de coisas.
O candidato ideal era uma criatura rara: alguém visto o bastante para parecer legítimo e sozinho o bastante para não atrapalhar.
Foi assim que lembraram de José Luis, em Maracangalha do Sul.
Ele era desses homens que muita gente conhece sem saber muito bem de onde. Já tinha participado de conselho, ajudado em quermesse, reclamado de buraco na rua, levado documento em protocolo, feito pergunta em reunião e saído antes do café.
Não era importante.
Mas também não era invisível.
Tinha a existência pública dos homens que assinam lista de presença e leem o que está em letras miúdas.
Chamaram.
— José Luis, o senhor foi indicado.
— Para quê?
— Para Assinante do Povo.
Ele riu.
Do outro lado, ninguém riu.
No dia seguinte, foi à Prefeitura.
De longe, avistou o prefeito Agenor atravessando o corredor com a pressa tranquila de quem nunca parece estar atrasado para as próprias decisões.
Havia mesa arrumada, café em garrafa térmica, uma pasta azul, três homens sérios e uma caneta no centro.
Caneta bonita.
Bonita até demais para uma função que se dizia simbólica.
Explicaram tudo com palavra comprida.
José Luis entendeu metade.
Da outra metade, desconfiou.
— Então eu assino depois que vocês decidem?
Um dos homens ajeitou os óculos.
— O senhor endossa o ato, representando a participação cidadã.
— Mas eu chego antes ou depois da decisão?
— O ato já vem instruído.
— Então é depois.
Houve um pequeno silêncio.
Não de dúvida.
De ajuste.
— O senhor participa do processo de validação social.
— Validação é quando a gente concorda ou quando a gente só aparece?
O homem tossiu.
A caneta continuava no centro da mesa, com aquela paciência dos objetos que sabem mais do que parecem.
— Caso discorde de algum ponto — explicou outro —, o senhor pode registrar ressalva.
— E a ressalva muda alguma coisa?
— Fica registrada.
— Então muda o papel, não muda a coisa.
Ninguém gostou muito.
Mas era verdade.
E verdade simples, quando entra numa sala cheia de termos técnicos, costuma fazer estrago.
≈ ≈ ≈ ≈
Em Maracangalha, até o mar parece saber que certas coisas vêm e vão.
Ata, mandato, promessa, solenidade.
A maré, pelo menos, nunca fingiu que era consulta pública.
Deram o documento.
O texto dizia que a medida era necessária, urgente, transparente e de interesse coletivo.
José Luis sempre desconfiava de papel que elogiava a própria intenção. Quem tem tanta certeza da bondade do que faz geralmente não se incomoda em perguntar para quem vai sentir o efeito.
— O povo foi ouvido? — perguntou.
— Houve ampla divulgação.
— Divulgação é ouvir?
Os homens se olharam.
— Houve oportunidade de manifestação.
— Que horas?
— Às quatorze horas.
— Então só ouviram quem podia estar aqui às duas da tarde.
A frase caiu na mesa como moeda em prato vazio.
José Luis não falava bonito. Falava de um jeito difícil de enfeitar depois.
Conhecia fila, repartição, reunião marcada em horário ruim e documento que só parece simples para quem escreveu. Sabia que muita porta pública se dizia aberta, mas escolhia uma hora em que quase ninguém podia entrar.
O homem do terno tentou recuperar a cerimônia.
— O importante é que o povo esteja representado.
José Luis olhou em volta.
— O povo todo não cabe nessa sala.
— Justamente por isso o senhor está aqui.
— Se não cabe, a sala devia ser maior.
Dessa vez, ninguém sorriu.
Uma cadeira não vira praça só porque alguém escreveu participação na ata.
Pegou a caneta.
O homem do terno respirou aliviado.
José Luis assinou.
Mas, embaixo, escreveu:
“Assino que estive aqui. Não assino que o povo foi ouvido.”
A sala ficou quieta.
— Essa observação pode gerar interpretação equivocada — disse um deles.
— Então expliquem direito.
Fizeram a foto mesmo assim.
Horas depois, a Prefeitura publicou:
“Município empossa Assinante do Povo e amplia participação social.”
Na imagem, José Luis aparecia sério, segurando a caneta.
Parecia menos empossado do que atento.
Muita gente curtiu.
Muita gente brigou.
Teve quem perguntasse se ganhava salário.
Poucos leram a observação.
Mas ela estava lá. Pequena, escrita à mão, no canto do documento.
Uma frase sem palanque, sem microfone e sem assessoria.
Não impediu a máquina de funcionar.
Mas, naquele dia, pelo menos, para conseguir usar o nome do povo, a máquina sofreu uma pequena avaria.
Esta história aconteceu em Maracangalha do Sul.
Ou talvez não.
≈ ≈ ≈ ≈
Quem já passou algum tempo por lá sabe que essa diferença nem sempre é tão importante.
Conheça Maracangalha, a série que deu origem a estas crônicas.
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