Por: Paulo Ricardo Zargolin
Quer gostar da dor?
Então goste.
Sem transformar em diagnóstico.
Sem converter em plano.
Sem fazer dela uma tarefa.
Só deixa ela existir um pouco aí nas pernas,
pesada, quente, absurda —
como se o corpo tivesse virado uma coisa antiga,
uma mobília viva,
uma criatura cansada lembrando que ainda ocupa espaço.
Tem dores que são quase um cobertor ruim:
incomodam, mas também encostam.
Essa dor parece dizer:
você está dentro de um corpo,
e esse corpo não é uma ideia.
Pode gostar um pouco dela.
Não como punição.
Não como projeto.
Só como sensação.
A dor horrível-deliciosa de estar encarnado.
O barulho do mundo descendo pelos músculos.
A existência, por alguns minutos,
sem argumento; só peso.
Talvez você também queira ler: Contra a própria vontade.
Continue pelas estantes do Logosgrafia:

