Por Paulo Ricardo Zargolin
Houve um tempo em que a bandeira brasileira ficava no mastro. Depois foi para a janela, da janela para a camiseta, da camiseta para o carro, do carro para a fotografia de perfil. E então aconteceu o inevitável: foi parar no grupo da família.
Ali encontrou um ambiente bastante propício. O tio que manda vídeo antes das sete da manhã, a prima que desistiu de responder, o cunhado que descobriu uma informação gravíssima que aparentemente escapou a todas as redações, universidades e instituições do país, mas chegou intacta ao celular dele, e a avó que só queria saber se o almoço de domingo continua de pé.
— Gente, esse grupo não era para combinar o almoço?
Era.
O Brasil também tinha outros assuntos.
Quando amar o país passou a exigir comprovante
O problema não é alguém colocar a bandeira brasileira na fotografia de perfil. Seria bastante estranho se brasileiros fossem proibidos de usar um símbolo do Brasil. A questão interessante começa quando esse símbolo deixa de informar apenas uma nacionalidade e passa a carregar também uma posição política.
A bandeira então já não diz somente “sou brasileiro”. Em determinados contextos, pode começar a comunicar “sou deste lado”. Cores, hinos, camisetas, slogans e imagens acumulam significados conforme são repetidamente utilizados por movimentos, governos, candidatos e grupos sociais. O símbolo nacional continua pertencendo ao país inteiro, mas passa a funcionar também como linguagem política.
E linguagem não serve apenas para dizer quem somos. Também pode sugerir quem não somos.
Foi assim que, em certos discursos, o patriotismo ganhou algo parecido com um serviço de proteção ao crédito. Existe quase um SPC da pátria: criticou determinado governo, score baixo; não colocou bandeirinha, cadastro em análise; votou no adversário, situação suspeita; disse que o Brasil possui problemas, talvez seja necessário apresentar novamente a certidão de nascimento.
A brincadeira esconde uma confusão importante: país, governo, partido e candidato não são a mesma coisa. Um governo administra temporariamente o Estado. Um partido disputa poder. Um candidato apresenta um projeto. O país permanece depois que todos eles passam.
A pátria deveria ser maior que a eleição.
Quem autorizou você a amar o Brasil?
Ninguém.
E essa é uma excelente notícia.
Não existe prova de proficiência em patriotismo. Uma pessoa pode amar o Brasil e apoiar o governo; pode amar o Brasil e fazer oposição a ele; pode considerar um presidente excelente, medíocre ou desastroso sem que isso altere sua nacionalidade. Pode vestir verde e amarelo ou não possuir uma única camiseta nessas cores. Pode saber o hino inteiro ou esquecer justamente aquela parte que quase todo mundo canta com convicção e pouca certeza.
Nada disso estabelece uma hierarquia de brasileiros.
Aliás, alguém pode cobrir o corpo inteiro com as cores nacionais e continuar sendo um cretino. Tecidos têm limitações morais importantes.
O problema começa quando preferência política é transformada em teste de pertencimento. “Discordo de você” é uma frase perfeitamente democrática. “Você não ama o Brasil” já desloca a discussão para outro terreno. A divergência deixa de ser sobre qual projeto parece melhor para o país e passa a tocar uma pergunta muito mais incômoda: quem merece ser reconhecido como parte dele?
A inconveniência maravilhosa da democracia
Democracias possuem um defeito terrível para quem gostaria de vencer todas as discussões: o outro continua existindo. Pior ainda, continua votando. E, numa demonstração particularmente ofensiva da ordem constitucional, o sujeito que escolher exatamente o contrário de você continuará brasileiro na manhã seguinte.
É assim mesmo.
Democracia não foi inventada para reunir pessoas que concordam. Para isso bastaria um grupo de WhatsApp muito bem administrado. Ela existe justamente porque milhões de pessoas diferentes precisam compartilhar instituições, direitos, deveres e um território sem resolver previamente todas as divergências que possuem.
Isso torna o patriotismo democrático menos confortável do que certas imagens de campanha fazem parecer. Amar um país plural exige aceitar que ele também pertence a pessoas cuja visão de mundo você considera profundamente equivocada. O eleitor que perde não perde a nacionalidade. A oposição não deixa de fazer parte da sociedade. Uma vitória eleitoral entrega governo, não escritura do território.
A bandeira precisa caber sobre todos eles.
Em outro estudo de caso, o Logosgrafia já observou como a polarização pode transformar crença e identidade em uma espécie de torcida, na qual o pertencimento ao grupo começa a importar mais do que o exame do argumento. É o movimento explorado em Quando Deus vira torcida organizada: Moisés, Rousseau e a guilhotina de bolso . Aqui, o objeto muda. O mecanismo, nem tanto.
O problema do cobertor verde e amarelo
Talvez seja útil imaginar a bandeira como um enorme cobertor. Deveria cobrir uma coletividade inteira. Mas um grupo puxa de um lado e anuncia que o Brasil é seu; outro puxa de volta e responde que o verdadeiro Brasil está do outro lado. Depois de algum tempo, o símbolo criado para representar milhões começa a parecer uma toalhinha reservada para a própria mesa.
Essa transformação não acontece porque uma bandeira possui ideologia própria. Pano não vota. Ela acontece porque símbolos acumulam significado social. Quando uma cor, uma camisa ou uma imagem aparece repetidamente associada aos mesmos movimentos, discursos e lideranças, as pessoas aprendem a interpretá-la dentro daquele contexto.
Por isso, alguém pode olhar para a bandeira brasileira e enxergar ao mesmo tempo o país e uma posição política específica. Uma leitura não apaga necessariamente a outra, mas a sobreposição cria disputa. E é justamente essa disputa que torna os símbolos nacionais tão valiosos em períodos de polarização: quem consegue associar sua causa à ideia de pátria não está apenas dizendo “defendo este projeto”, mas tentando sugerir algo muito maior — “isto é o Brasil”.
A pátria agora aparece digitando…
As redes sociais tornaram essa disputa cotidiana. Antigamente, talvez alguém descobrisse em quem o tio votaria numa conversa perto da eleição. Hoje, a informação pode chegar antes do café.
Vem o “bom dia”.
Vem a bandeira.
Vem a mensagem em caixa alta.
Vem o vídeo que ninguém sabe de onde saiu.
E, quase inevitavelmente:
REPASSE ANTES QUE APAGUEM.
Naturalmente, ninguém apagou. Mas a mensagem já foi encaminhada para dezenove pessoas.
Por trás da caricatura existe uma mudança real. As redes transformaram identidade política em sinalização permanente. Fotografia de perfil, moldura, bandeira, frase de biografia, camiseta e conteúdo compartilhado ajudam a anunciar pertencimentos antes que uma conversa sequer comece.
Não é necessário escrever um manifesto. Às vezes, basta uma imagem.
A bandeira, então, pode deixar de responder apenas “de onde você é?” e começar a responder também “de que lado você está?”.
E então chegou o grupo da família
É por isso que o grupo familiar funciona tão bem como miniatura política do país. Ali convivem pessoas que compartilham sobrenome, fotografias antigas, aniversários, almoços, histórias e algum constrangimento acumulado ao longo das décadas. De repente, são obrigadas a lidar com uma descoberta devastadora: o primo pensa diferente.
Talvez sempre tenha pensado. Só não havia Wi-Fi suficiente para que todos soubessem.
A política deixa de ser uma discussão abstrata entre candidatos na televisão e passa a sentar à mesa. O pai vota num, a filha noutro. O irmão compartilha uma notícia, a irmã envia uma checagem, o tio se irrita, a tia pede paz, alguém sai do grupo, alguém adiciona de volta e a avó pergunta pela terceira vez quem vai levar a sobremesa.
É engraçado porque é pequeno. E é importante porque não é apenas pequeno.
A polarização política ganha outra dimensão quando a divergência deixa de organizar somente preferências eleitorais e passa a interferir em confiança, afetos e pertencimento. O adversário político já não está apenas no palanque. Pode estar sentado do outro lado da mesa — e ainda pedir para você passar a farofa.
Há uma dificuldade adicional quando as pessoas deixam de compartilhar não apenas opiniões, mas também critérios mínimos para decidir o que consideram verdadeiro. O Logosgrafia discutiu esse problema em Três sóis e um abismo epistêmico : sem algum terreno comum para fatos, fontes e argumentos, a conversa pública tende a se transformar em monólogos paralelos.
7 de Setembro de 2026
Em 2026, o Dia da Independência ocupa uma posição especialmente interessante no calendário brasileiro. O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro. Em 7 de setembro, portanto, faltarão apenas 27 dias para a votação.
A data cívica e a campanha eleitoral estarão praticamente encostadas.
Isso não significa que toda bandeira exibida no feriado será propaganda eleitoral nem que toda celebração da Independência terá significado partidário. Significa apenas que símbolos nacionais circularão em um país em plena disputa pelo poder, e símbolos nunca circulam num vazio: são fotografados, compartilhados, legendados, discursados e interpretados.
O 7 de Setembro relembra a Independência do Brasil, mas, num ano eleitoral, também oferece uma oportunidade para observar uma disputa contemporânea menos evidente: quem está tentando definir o significado de “Brasil”?
Essa pergunta talvez diga mais sobre a política do que a quantidade de bandeiras numa avenida.
Patriotismo não é propriedade privada
Nenhum campo político possui escritura da bandeira. Nenhum candidato é proprietário do hino. Nenhum partido recebeu as chaves do país. E nenhum cidadão precisa concordar com outro para renovar sua licença de brasileiro.
Isso não torna irrelevante a disputa pelos símbolos. Pelo contrário: justamente porque símbolos nacionais deveriam representar uma coletividade ampla, importa observar quando começam a ser reconhecidos como sinais de apenas uma parte dela.
Uma democracia precisa suportar uma frase simples e, em tempos polarizados, surpreendentemente difícil:
o Brasil também pertence a quem discorda de mim.
Isso exige mais do que tolerar a existência do adversário. Exige reconhecer que ele continua tendo direitos, voz, voto e legitimidade para disputar o futuro comum. Ganhar uma eleição não transforma os derrotados em hóspedes. Perder uma eleição não torna ninguém estrangeiro.
Talvez esse seja um dos limites mais importantes entre patriotismo e facção: o patriotismo pode desejar vencer uma disputa política; a facção precisa convencer a si mesma de que só ela representa o país.
Quem ama mais?
No grupo da família, a discussão continua. Um manda a bandeira, outro responde com um candidato, um terceiro encaminha um vídeo e alguém escreve que está cansado de política. Logo surge a explicação de que “não é política, é o futuro do Brasil”, frase que costuma anunciar mais quarenta mensagens.
Até que alguém pergunta:
— Afinal, quem vai levar o arroz?
Silêncio.
Estão ocupados demais decidindo quem ama mais o país.
Talvez exista alguma coisa profundamente brasileira nessa cena. A bandeira está no perfil, o hino está no vídeo, a eleição está chegando e a pátria virou argumento.
Enquanto isso, o almoço continua precisando de arroz.
Um país talvez comece a encolher justamente quando seus cidadãos passam a gastar mais tempo decidindo quem merece pertencer a ele do que tentando descobrir como continuar vivendo juntos.

