O texto de 2012 e a prova de 2026

Por Paulo Ricardo Zargolin

Feito em laboratório

Há poucos dias, reli um texto que publiquei no Logosgrafia em 1º de junho de 2012.

Na época, eu escrevia sobre informática na educação. Inteligências artificiais capazes de produzir textos inteiros em segundos ainda pertenciam muito mais ao imaginário da ficção científica do que às salas de aula.

ChatGPT não existia.

Claude não existia.

Gemini não existia.

Mesmo assim, o texto defendia uma ideia bastante simples: as tecnologias são ferramentas. Podem ampliar possibilidades, facilitar caminhos, aproximar pessoas e enriquecer experiências. Mas continuam sendo ferramentas na construção do conhecimento.

Em Ferramentas na construção do conhecimento, escrevi que:

“A informática e a internet auxiliam e integram […] um processo de construção.”

Fechei aquela página com a tranquilidade de quem revisita um pensamento antigo.

Pouco depois, outra leitura caiu sobre a mesa.

Um professor universitário norte-americano resolveu inserir uma instrução invisível no enunciado de uma prova sobre a Revolução Industrial. Escrita em branco sobre fundo branco, ela passaria despercebida pelos estudantes que simplesmente lessem a atividade. Mas acompanharia aqueles que copiassem o enunciado inteiro para uma inteligência artificial.

A experiência produziu um resultado curioso.

Entre respostas sobre máquinas a vapor, industrialização e transformações econômicas, começaram a surgir frases completamente desconexas envolvendo Madagascar, bicicletas roxas e tetos.

A notícia rapidamente ganhou um roteiro conhecido.

Uns elogiaram a criatividade do professor.

Outros criticaram a armadilha.

Outros aproveitaram para anunciar, mais uma vez, o fim da educação, da autoria ou da inteligência humana.

Enquanto acompanhava esse desfile de interpretações, continuei pensando no texto de 2012.

Não porque ele previsse o surgimento da inteligência artificial.

Seria um exagero dizer isso.

Mas porque, inesperadamente, ele parecia conversar com aquele episódio.

Os dois documentos estavam separados por quatorze anos.

Separados por tecnologias completamente diferentes.

Separados por um mundo que mudou mais depressa do que qualquer um de nós imaginava.

Mesmo assim, ambos pareciam girar em torno da mesma questão.

Não me chamou atenção o fato de estudantes utilizarem inteligência artificial.

Ferramentas sempre foram utilizadas para aprender, pesquisar, escrever e resolver problemas. Em 2012, eu já defendia exatamente isso.

O que me chamou atenção foi outra coisa.

Eles aparentemente não leram aquilo que entregaram.

Não revisaram.

Não estranharam frases que nenhuma pessoa escreveria deliberadamente em uma redação sobre a Revolução Industrial.

Não houve sequer a curiosidade de verificar o resultado produzido em seu próprio nome.

Talvez esse seja o detalhe mais importante do caso.

A armadilha do professor não revelou apenas o uso de inteligência artificial.

Ela revelou a ausência do leitor.

Durante muito tempo, discutimos se as tecnologias poderiam participar da construção do conhecimento.

Hoje talvez precisemos acrescentar outra pergunta.

O que acontece quando a ferramenta deixa de participar da construção e passa a ocupar o lugar daquele que deveria construir?

Não creio que o episódio de 2026 desminta o texto de 2012.

Pelo contrário.

Talvez ele o complete.

Ferramentas continuam sendo ferramentas.

Mesmo quando escrevem.

Mesmo quando organizam ideias.

Mesmo quando produzem um texto elegante em poucos segundos.

A questão nunca esteve na capacidade da ferramenta.

Sempre esteve na disposição humana de permanecer dentro do processo.

Entre o texto de 2012 e a prova de 2026, muita coisa mudou.

Os programas mudaram.

As interfaces mudaram.

As velocidades mudaram.

Mas uma pergunta parece ter resistido ao tempo.

Em que momento deixamos de construir conhecimento para apenas administrar respostas?

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