Por: Paulo Ricardo Zargolin
Não sei onde foi parar a carta.
Talvez tenha desaparecido numa mudança de casa, numa gaveta esvaziada ou entre papéis que, naquele momento, pareciam menos importantes do que realmente eram.
O curioso é que ela continua acontecendo.
No fim de 2000, quando eu cursava a 5ª série e havia sido representante de sala, recebi uma carta da diretora da escola. Ela me desejava sucesso nos estudos e, entre algumas reflexões, citava um trecho de Como uma onda, de Lulu Santos.
Não me lembro de todas as palavras. Ficou a ideia de que a vida mudava, embora eu fosse menino demais para compreender até onde aquela afirmação poderia me levar.
O papel se perdeu.
Em 2013, recuperei sua lembrança no texto Tudo muda o tempo todo no mundo . Eu ainda cursava Pedagogia. Já havia dado algumas aulas, mas não exercia formalmente a profissão. Escrevi que aquela canção continuava me fazendo pensar nos desvios e gracejos do tempo e do destino.
Talvez treze anos me parecessem distância suficiente para compreender alguma coisa.
Não eram.
Eu ainda estava dentro da curva.
O estudante de Pedagogia já não era o menino da carta, mas também não sabia que se tornaria professor, pedagogo e diretor de escola, nem que um dia atuaria na formação de educadores em uma Secretaria de Educação.
Hoje, o que me espanta não é tudo ter mudado.
É aquilo ter permanecido.
Não a carta, que já não posso tocar ou reler, mas o gesto de uma diretora que escreveu para um aluno, desejou-lhe sucesso e lhe emprestou uma canção para falar sobre o tempo.
Anos depois, aquele aluno conheceria por dentro o lugar de onde as palavras haviam partido.
Em 2000, a carta encontrou um menino.
Em 2013, encontrou um estudante de Pedagogia.
Hoje, encontra alguém que já ocupou uma sala de direção.
Em cada momento, uma pessoa diferente usando o mesmo nome.
Talvez seja essa a mudança como permanência : não conservar as coisas exatamente como foram, mas permitir que continuem agindo em nós depois de desaparecerem.
Não sei onde foi parar a carta.
Mas ela ainda não terminou de chegar.




