É curioso o que fazemos com a nossa infância depois que crescemos. Guardamos algumas fotografias, perdemos outras, esquecemos o nome de gente que parecia indispensável e, quando alguém coloca uma determinada música para tocar, descobrimos que sabemos até a hora de levantar o braço. Para lembrar o que fomos comprar no mercado, precisamos de uma lista. Para acompanhar Xuxa, basta que nos deem a oportunidade.
E há quem prefira que não deem. Afinal, uma pessoa adulta tem uma reputação a zelar.
Talvez seja por isso que eu ache tão interessante o pequeno constrangimento que antecede certas alegrias. A música começa, a pessoa reconhece, olha para os lados e tenta avaliar se o ambiente permite que ela saiba aquilo. Se os demais também souberem, está tudo resolvido. Podemos ser crianças por alguns minutos, desde que haja testemunhas fazendo a mesma coisa. Depois, cada um recolhe sua dignidade e volta para a mesa.
Ilariê tem alguma coisa a ver com isso.
A própria palavra já nos dispensa de uma série de preocupações. Podemos cantá-la sem precisar empregá-la numa reunião, explicar sua utilidade ou comprovar que aprendemos alguma coisa com ela. E, convenhamos, há um prazer bastante razoável em abrir a boca sem ter de defender uma opinião. Especialmente agora, quando parece que toda manifestação humana precisa vir acompanhada de posicionamento, justificativa e disposição para brigar nos comentários.
A criança, quando encontra uma brincadeira que lhe interessa, costuma ter outras prioridades. Quer participar. Quer repetir. Quer fazer de novo justamente aquilo que o adulto já considera suficientemente feito. E uma canção acompanhada de gestos oferece essa possibilidade quase indecente: saber o que vem depois e, ainda assim, gostar de chegar lá.
Quem olha de fora pode enxergar apenas repetição. Quem está brincando tem mais o que fazer.
Foi por caminhos assim que Xuxa atravessou a televisão e entrou na experiência de tanta gente. Havia a apresentadora, as músicas, as roupas, os movimentos e aquele universo em que uma nave podia aparecer sem que ninguém exigisse maiores esclarecimentos sobre a engenharia. A fantasia já estava em funcionamento quando o adulto se lembrava de perguntar como aquilo seria possível.
A televisão oferecia o espetáculo. Dentro de casa, cada criança fazia o que podia com ele.
Esse “o que podia” me interessa. Porque falar de infância coletiva pode dar a impressão de que todos tivemos a mesma infância, com a mesma sala, os mesmos brinquedos e as mesmas pessoas por perto. Não tivemos. Uma música conhecida por muita gente atravessa vidas bastante diferentes. O que ela encontra em cada uma dessas vidas é que impede a lembrança de sair inteiramente igual à de fábrica.
E fábrica havia, evidentemente. Seria uma ingenuidade olhar para aquele universo e esquecer os discos, os produtos, a publicidade e o dinheiro. A indústria do entretenimento tinha muito interesse nos baixinhos e, por extensão, na carteira de quem os acompanhava. O afeto também vende. Vende muito! Basta observar quanto estamos dispostos a pagar, depois de adultos, por um objeto que nos devolva uma pequena sensação de antigamente.
Mas a criança fazia seus próprios negócios com aquilo. Aproveitava uma música, inventava uma apresentação, repetia um gesto. Nem tudo o que acontecia depois de desligar a televisão cabia no planejamento de quem havia produzido o programa. A imaginação tinha suas atividades particulares.
O problema começa quando crescemos e nos sentimos obrigados a tratar com desdém tudo o que um dia nos encantou. Como se o conhecimento adquirido exigisse uma demonstração pública de superioridade diante da criança que fomos. Descobrimos a expressão “cultura de massa” e já queremos cancelar a festa.
Ora, podemos compreender os interesses envolvidos e continuar gostando da música. Podemos rever o que havia de questionável, reconhecer os excessos e admitir que fomos felizes em algum lugar no meio daquilo tudo. A capacidade de analisar uma experiência deveria ampliar a nossa compreensão sobre ela. Há quem a utilize apenas para ficar mais desagradável.
Também não pretendo transformar o passado num lugar onde todas as crianças eram felizes e os adultos sabiam o que estavam fazendo. A memória é muito habilidosa na decoração dos ambientes que já não podemos visitar. Retira um incômodo daqui, melhora uma iluminação dali e, quando percebemos, estamos com saudade de uma época na qual talvez não quiséssemos passar novamente uma semana inteira.
Ainda assim, alguma coisa permanece. E merece ser olhada sem essa necessidade de absolver ou condenar a infância.
Ao começar este episódio de ‘Último voo da nave’, penso no quanto uma figura da televisão pode se misturar à história de alguém. Aos poucos, já estamos falando da casa, da escola, das pessoas que estavam conosco, das coisas que queríamos ser. Xuxa continua na tela, mas a conversa foi parar muito longe do estúdio.
É por esses lugares que quero passar. Há um alfabeto esperando na parede, um disco para tocar inteiro e um videocassete cuja disponibilidade precisaremos negociar. Por enquanto, fiquemos com a música que chama o corpo para a conversa.
Se você souber acompanhar, acompanhe. Não vou exigir explicações.
Eu também tenho uma reputação a zelar. Mas ela que espere a música acabar.

