Por Paulo Ricardo Zargolin
Dizem que crescer é perder a magia das coisas.
Discordo.
Crescer é descobrir que até uma música da Xuxa pode sobreviver a uma auditoria filosófica.
Porque, convenhamos: passamos décadas cantando aquele refrão como se fosse um contrato de sucesso garantido. Mas bastou um adulto inconveniente prestar atenção para surgir uma dúvida:
Ela prometia mesmo alguma coisa?
Antes que escondam meus LPs, calma.
Isto é uma homenagem.
Apertem os cintos.
Nosso último voo começa justamente onde quase ninguém teve coragem de mexer: na letra de Lua de Cristal.
“Tudo pode ser.”
Pode.
Não “vai ser”.
A música começa oferecendo uma possibilidade e nós já entendemos como garantia.
“Se quiser, será.”
Quem precisa querer?
Eu?
A Xuxa?
O universo?
E se eu quiser muito, mas meu desafeto quiser mais ainda que dê errado?
“O sonho sempre vem pra quem sonhar.”
E quem tem insônia?
Recebe por Sedex?
“Tudo pode ser, só basta acreditar.”
Pode de novo.
A Xuxa não se compromete em momento algum. Nós é que fomos emocionados demais.
E então vem a cláusula final:
“Tudo que tiver que ser, será.”
Ou seja: se acontecer, era para acontecer.
Se não acontecer, também estava explicado.
Ninguém foi enganado.
Nós é que passamos décadas ouvindo só a parte otimista do contrato.
🚀 Este é apenas o primeiro embarque de O último voo da nave. Nas próximas paradas, revisitaremos personagens, programas, brinquedos e outras lembranças que continuam orbitando a memória de quem cresceu nos anos 80 e 90.
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