MAGENTA! apresenta: #OJogo
Quarta parte — A última decisão
Capítulo 14
Três cadeiras.
A de Caio permanecia vazia.
Davi ainda mantinha a mão sobre a carta herdada.
— Eu não gostei de acertar.
Lia olhou para ele.
— Registra a data.
Davi quase sorriu. Quase.
Paulinho observava o novo Compartimento diante dele. A carta de Caio não havia simplesmente mudado de dono. Estava presa ao jogo de Davi, inclinada na mesma orientação em que fora revelada.
A mesa confirmava uma regra sem explicá-la: o acerto não apagava o eliminado. Transformava o que ele sabia em vantagem para quem o tirara dali.
QUEM ACERTA HERDA.
— Isso é injusto — disse Paulinho.
Lia respondeu:
— É eficiente.
— Piorou.
A rodada recomeçou.
Agora Davi sabia mais.
Sabia a carta de Caio. Sabia sua natureza. Sabia quais respostas dele haviam sido verdadeiras ou invertidas. E, com isso, várias anotações antigas ganharam legenda.
Ele foi ficando sério à medida que entendia.
— Ah.
Lia ergueu os olhos.
— O quê?
— Nada.
— Quando você diz “nada”, geralmente tem um desastre montando móvel.
Davi virou a folha para si.
— Descobri uma coisa.
— Sobre quem? — perguntou Paulinho.
Davi olhou para Lia.
Ela percebeu.
— Sobre mim.
Ele não respondeu.
Não precisava.
A linha seguinte surgiu entre Lia e Davi.
Ciano.
A vez dela.
Lia poderia perguntar.
Ou arriscar.
Davi recostou-se.
— Você sabe que eu sei alguma coisa sobre você.
— E você sabe que eu sei que você sabe.
— Isso ficou desagradavelmente adulto.
Paulinho interrompeu:
— Parem de transformar lógica em provocação.
Davi apontou para ele.
— Isso foi muito específico.
Lia olhou para sua folha.
Havia poucas possibilidades restantes.
Poucas não era uma.
Ela respirou.
— MAGENTA!
Davi ficou imóvel.
Paulinho sentiu o corpo inteiro gelar.
— Lia…
— Se eu perguntar, ele pergunta depois. E agora ele tem a carta do Caio.
Davi não negou.
Lia declarou.
Natureza.
Quatro quadrantes.
Um por um.
Davi ouviu sem interromper.
Quando ela terminou, o círculo no centro da mesa se fechou.
ACUSAÇÃO CORRETA.
Davi soltou uma risada curta, sem humor.
— Claro.
Sua cadeira começou a recuar.
— Espera — disse Paulinho.
Davi olhou para ele.
— Você ainda está tentando negociar com a mobília?
— Onde está o Caio?
Davi olhou para a sombra atrás de si.
— Se eu encontrar, pergunto.
A cadeira recuou mais.
Lia estava pálida.
— Desculpa.
Davi inclinou a cabeça.
— Você acertou. Não estraga.
Então apontou para a carta de Caio.
— E aproveita a herança. Ele reclamaria se fosse desperdiçada.
Davi desapareceu.
Duas cadeiras.
Paulinho.
Lia.
A carta de Davi se abriu.
A de Caio, herdada por ele, veio junto.
As duas deslizaram até Lia.
Ela não tocou em nenhuma.
— Isso é horrível.
Paulinho olhou para o lugar onde Davi estivera.
— Mas agora você sabe.
— Saber não melhora.
As cartas se encaixaram diante dela.
Uma ativa.
As outras sob sua posse.
A mesa reorganizou o espaço, retirando as cadeiras vazias até restarem apenas duas.
Frente a frente.
Paulinho e Lia.
Nenhum lado.
Nenhuma esquerda.
Nenhuma fuga pela geometria.
A caixa abriu completamente.
Dentro dela havia apenas uma frase.
A ÚLTIMA ACUSAÇÃO NÃO TERÁ HERDEIRO.
Paulinho sentiu a garganta secar.
Lia levantou os olhos.
— Então um de nós termina.
A mesa corrigiu.
UM DE VOCÊS PERMANECE.
Os dois olharam para a frase.
Paulinho lembrou do Arquivo.
Mesa 63.
Partida concluída.
Um jogador permaneceu.
E a pequena letra M.
Lia também lembrava.
— Não confunda permanecer com ficar — disse ela.
A luz sobre a mesa diminuiu.
Paulinho olhou para a única pessoa que restava diante dele.
Agora, finalmente, a frase parecia uma ameaça.
(continua)

