A educação na Idade Média e ‘O nome da Rosa’

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A Idade Média é tida muitas vezes como o período das “trevas”, apesar de três primeiros campos de conhecimento terem se constituído em faculdades neste período – artes liberais, medicina e jurisprudência. As corporações de ofício também aparecem na mesma época.

Para que possamos entender O nome da Rosa, é necessário que tenhamos lido o nosso material de apoio tão bem elaborado por Bittar. Por essa leitura, adquirimos subsídios para a compreensão da releitura da obra de Umberto Eco. Bittar explica que os mestres livres vão surgindo a partir do século XIII. Eles são os “protagonistas da nova escola” do terceiro estado, a burguesia, que se torna crescente com o surgimento de mercadores e artesãos, tendo as cidades como centros de vida.

Adso de Melk começa a contar sua história, relembrando o ano de 1327. Ano no qual vivera experiências maravilhosas e terríveis. Pela teoria, sabemos que os mestres livres tinham um ofício ocasional e ligado à profissão, mas, algum tempo depois, invadiram o campo tradicionalmente reservado aos clérigos.

Nosso protagonista tinha um mestre. Seu nome era William de Baskersville. A chegada em um mosteiro ao norte da Itália fora assombrada por crimes cuja autoria era creditada ao “demônio”. O mestre procurava mostrar ao aprendiz que deveria haver uma razão lógica para tudo aquilo.

Ainda que a Igreja não aceitasse que pessoas comuns tivessem acesso ao significado de seus dogmas nem questionassem e fossem contra os mesmos, o mosteiro continuava sendo um centro de conhecimento, afinal, como nos recorda Bittar: “a transição da Antiguidade para a Idade Média se deu com a implantação do sistema feudal de produção e com a consolidação do cristianismo como uma nova visão de mundo” (2009, p. 25).

O retrato das relações sociais entre as diferentes classes: o poderio da igreja e a manipulação, psicológica, econômica e política são excelentes elementos expostos no filme e que tão bem caracterizam a sociedade e a cultura da época. “O feudalismo e a cultura cristã operaram uma distinção no antigo binômio representado pelo “dizer” e o “fazer”, herdado da Antiguidade”. (BITTAR, 2009, p.27).

É interessante saber também que “o ‘dizer’, no contexto medieval cristão era exercido pelo clero, que detinha o saber; já o governo era prerrogativa dos nobres”. E “o ‘fazer’ das classes dominantes considerará a guerra como importante meio político de domínio, fazendo surgir uma educação cavaleiresca destinada a esse fim. (Idem).

Como, na visão cristã, a cultura, sabedoria e conhecimento deveriam ser privilégio de apenas algumas pessoas, e por essa razão, poderiam ser manipulados em função de interesses que não objetivavam a descoberta da verdade, o ensino da gramática passou a ter caráter instrumental, não mais com a finalidade de propiciar cultura geral ao educando, como no passado que vimos com Quinyiliano, e sim era necessário para conhecer as letras exclusivamente para ler as Sagradas Escrituras.

Contudo, como é possível observar no filme, a Igreja Católica, tal qual o que foi feito pelos romanos na conquista da Grécia, destruiu grande parte do legado cultural, simplesmente pelo incômodo que tais discussões causavam à fé católica, bem como, para a conservação dos seus privilégios e condições social, econômica e política.

Voltando ao enredo, podemos destacar o clima sob o qual se realizou uma convenção entre os representantes máximos das ordens religiosas e do clero secular, com o objetivo expulsar os franciscanos da Instituição, uma vez que, acusações de heresia eram constantemente destinadas a eles, à época.

Tudo isso foi feito para definir o poder da Igreja sobre o povo. Na perspectiva ética, a obra traz importantes conceitos à tona, como o conceito de pessoa, de liberdade, de responsabilidade, de altruísmo, de autonomia, de solidariedade.

Importantes temáticas éticas e políticas,como a da autonomia moral, do acesso à educação, da dignidade humana, da liberdade religiosa, da democratização das decisões políticas, da verdade e transparência democrática, da tolerância e igualdade também são importantes apontamentos trazidos pela releitura da obra de Eco.

Em O nome da Rosa é possível observar não apenas a relação pedagógica entre o mestre e o aprendiz, mas a importância dada ao aprendizado filosófico, baseado em questões e respostas lógicas, observáveis, passíveis de experimentação, de comprovação. Creio que o aprendizado de Adso foi construído com esse foco, apesar do modelo que vigorava à época e, portanto, alforriado de qualquer resquício místico e dogmático.


REFERÊNCIA

BITTAR, Marisa. História da educação : da antiguidade à época contemporânea — São Carlos : EdUFSCar, 2009. – p. 25-29.

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Uma resposta para “A educação na Idade Média e ‘O nome da Rosa’”

  1. […] a mesma tensão que atravessa A educação na Idade Média e “O nome da Rosa” e reaparece em O nome da rosa: o livro, o filme e o labirinto da verdade. Na obra de Umberto Eco, […]

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