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Por: Paulo Ricardo Zargolin
Os catecismos jesuíticos do século XVI, de acordo com Ferreira Jr. (2010, p. 21), constituíram-se num instrumento de duplo significado: de um lado, possibilitavam o aprendizado das primeiras letras tanto no português quanto no tupi, isto é, transformaram-se em “cartilhas” que eram utilizadas como material didático do processo pedagógico desenvolvido no âmbito das casas de bê-á-bá, embriões dos futuros colégios da Companhia de Jesus e, do outro, veiculavam a concepção de mundo da chamada “civilização ocidental cristã” por meio da violência simbólica contra os elementos estruturais da cultura ameríndia.
A educação colonial, para o referido autor (2010), constituiu-se na gênese da relação que se estabeleceu entre elitismo e exclusão no âmbito da educação brasileira. Assim, a independência política obtida em relação à metrópole portuguesa não alterou essa característica que se arrastou pelos “500 anos” de existência da formação societária brasileira. O Império (1822-1889) manteve a lógica educacional elitista e excludente na medida em que manteve, por exemplo, o regime de trabalho fundado na escravidão.
Ferreira Jr. (2010, p. 20), diz que após constatarem a resistência que os adultos esboçavam em relação à ação missionária, os padres da Companhia de Jesus inverteram a prática da evangelização e voltaram a atenção para as crianças. Para o autor, nessa nova estratégia missionária, as crianças indígenas eram tidas como portadoras de um duplo potencial: primeiro, elas ainda não estavam totalmente “contaminadas” pelos elementos culturais qualificados como pecados pelos jesuítas e, segundo, poderiam, após a incorporação da doutrina cristã, combater os costumes culturais praticados pelos próprios pais.
Os jesuítas gramaticaram a língua tupi por meio dos trabalhos de Juan Azpilcueta Navarro e José de Anchieta. E depois compuseram um catecismo bilíngue, português e tupi, na forma de perguntas e respostas que acentuavam negativamente os hábitos indígenas considerados pecaminosos, e positivamente os valores cristãos ratificados pelo Concílio de Trento (1545-1563).
As consequências das posições assumidas por Nóbrega e apoiadas por Laynes fizeram com que os colégios jesuíticos do Brasil Colonial fossem diferentes daqueles existentes na Europa, pois, ao contrário destes, os colégios jesuíticos coloniais incorporaram também as escolas das primeiras letras. (FERREIRA JR, 2010, p. 23).
Os jesuítas, portanto, não cumpriram os preceitos constitucionais regulamentados pela própria Companhia de Jesus, no Brasil, que estabelecia que os seus colégios tivessem apenas o ensino secundário. O que implica em dizer que o processo de criação dos colégios no Brasil Colonial, mantidos materialmente pelas fazendas de agropecuária (gado e cana-de-açúcar), efetivou-se concomitantemente à própria elaboração do método jesuítico de ensino e aprendizagem.
Ferreira Jr. (2010, p. 24), nos fala brilhantemente sobre o famoso método jesuítico, evidenciando que este levou aproximadamente 50 anos para ser discutido e aprovado, isto é, teve início com a primeira experiência pedagógica dos jesuítas no colégio de Messina (Itália), em 1548, e só foi concluído em 1599.
Essa concepção de ensino e aprendizagem, ainda de acordo com Ferreira Jr. (2010), processava-se por meio da memorização, isto é, da aprendizagem mnemônica. O método em questão era apropriado para o ensino das chamadas artes liberais (ciências humanas modernas), mas não para a história natural (ciências da natureza), pois o ensino de física, por exemplo, depende da experimentação (pesquisa empírica).
Sinteticamente, podemos dizer que os colégios jesuíticos foram considerados os melhores do mundo de então (séculos XVI, XVII e XVIII) no processo de formação de intelectuais (quadros dirigentes da sociedade) com sólida base nas ciências humanas. Entretanto, a física nos colégios da Companhia de Jesus ainda era ensinada como conteúdo da filosofia tomista. (FERREIRA JR., 2010, p. 25). A física não gozava de estatuto científico próprio no interior dos colégios jesuíticos, era um apêndice da filosofia escolástica. Isso mostrava uma contradição na medida em que, a partir do século XIII, o mundo medieval começava a passar por profundas transformações em decorrência do aparecimento da burguesia mercantil, que exigia os conhecimentos da história natural fundamentados no empirismo.
REFERÊNCIA
FERREIRA Jr., A. História da Educação Brasileira: da Colônia ao século XX. São Carlos : EdUFSCar, 2010, p. 17-47.

