Este texto faz parte do arquivo histórico do Logosgrafia. Para conhecer a fase atual do projeto, visite também: O CONCEITO, ESTANTES, Crônicas Zargolinianas, Em bom português e Acervo.
GONDRA, José G. A sementeira do por vir: higiene e infância no século XIX. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.26, n.1, p.99-117, jan./jun. 2000.
A sementeira do porvir: higiene e infância no século XIX
ZARGOLIN, Paulo Ricardo; SANTOS, Meire Adriane R. F. dos; CONCEIÇÃO, Pedro L. de A.
Gondra (2000) busca apresentar uma análise e reflexão sobre a produção da ideia da infância no Brasil. Segundo o autor, religião, ciência, progresso, indústria, comércio e civilização são alguns dos signos que têm participado da configuração e construção desse conceito no contexto brasileiro.
Diante da complexidade da questão e da proliferação dos discursos sobre a infância, o autor procura examinar um deles, buscando encontrar as representações estabelecidas expressivamente no século XIX, Incidindo na combinatória entre regenerar e civilizar.
Com a perspectiva de analisar as representações que a respeito da infância foram produzidas, Gondra (2000) trabalhou com parte da produção da FMRJ, sobretudo com as teses defendidas pelos alunos ao final do curso para a obtenção do título de doutor.
Além disto, vimos que o autor faz incursões nas atas do I Congresso Brasileiro de Proteção à Infância e no conjunto das teses da I Conferência Nacional de Educação, buscando indicar a permanência da infância na ordem do discurso médico, a ênfase na necessidade de sua higienização e outros deslocamentos das representações.
Como exemplo disto, podemos citar a tese do Dr. Gonçalves (1855, apud GONDRA, 2000, p. 103) explorava o tema dos enjeitados e, a par das duas doutrinas opostas sobre este tema, não oscilando em associar-se àquela que conjuga o espírito cristão como o espírito da ciência médica.
Como afirmado pelo próprio Dr. Gonçalves (apud GONDRA, 2000, p. 105), encontrava-se em profunda sintonia com os preceitos da fé cristã. No 1º Congresso de Proteção à Infância (1922), “esse tema manteve-se presente, ampliando-se, contudo, o leque dos argumentos em favor da higienização da infância”.
O referido autor destaca ainda que a manutenção da infância em discurso ocorre, portanto, com a agregação de novos elementos: “ao lado da economia, a defesa da sociedade, mais do que a defesa das individualidades das crianças, é eleita como razão para a proteção da infância” (GONDRA, 2000, p. 106).
Vimos que, na I Conferência Nacional de Educação (1927), a infância permanece em discurso, o que, segundo Gondra (2000), pode ser evidenciado na quantidade de teses em que esse tema é tratado, central ou lateralmente.
No que se refere aos colégios, “destino de uma infância mais afortunada”, como define Gondra (2000, p. 108), “Dr. Coutinho (1857), para alterar o quadro de insensibilidade e impunidade que percebia, exortava as autoridades para que se procedesse à adoção dos preceitos higiênicos”.
Dr. Guimarães, em 1858, de acordo com o autor, retoma a defesa da higiene alavancando-a à condição de “Ciência da Infância”, produzindo uma representação que a transforma em molde dos modos familiares, particulares e estatais de educar e formar o bom homem social. Vimos também que a dissertação do Dr. Armonde fortalece a crença do poder da higiene.
Devemos destacar a higiene no discurso professoral trazida por Gondra (2000, p. 111):
O discurso da higiene, no entanto, não se constituía em uma particularidade dos concluintes do curso de medicina. Também era legitimado junto ao corpo docente da faculdade. O médico-professor Carlos Rodrigues Vasconcellos, ao concorrer ao cargo de Lente de Higiene da FMRJ, foi obrigado (…) a escrever e defender uma tese sobre esse tema, intitulada “Hygiene Escolar”. Essa tese, contudo, distingue-se das demais pelo fato de pretender abordar um único ponto, a higiene escolar, e encontrar-se materialmente estruturada de modo distinto (grifos nossos).
Vimos também que, como sua principal reclamação, o Dr. Vasconcellos, em sua tese de 1888, de acordo com Gondra (2000), refere-se ao desprezo pelas regras de higiene escolar, o que terminava por orientar as demais reclamações que apresenta em seu discurso.
Gondra (2000) destaca, então, para efeito de conclusão da análise do esforço dos médicos em produzir consenso em torno do corpo doutrinário da higiene, a “insistência e uma repetição presentes, seja nas teses que apresentam um recorte mais específico pelo tema da educação física, seja nas demais”.
Cabe-nos concluir então que a higienização escolar “desdobra-se também na partilha de conceitos referentes à produção de um corpo educado, de faculdades intelectuais higienizadas e do patrocínio e estímulo à “ginástica da vontade”. Ou seja, falamos sobre “a definição da própria moral do homem, que deveria presidir as práticas escolares”. Gondra (2000), acrescenta ainda que, no interior desse complexo e descontínuo arcabouço discursivo, “a ideia de infância e de educação escolar são constituídos simultânea, solidária e mutuamente dependentes”.

