No lugar certo, na hora errada

Por: Alexandro Gruber

Três… Dois… Um… A contagem regressiva que no dia 12 de Agosto marcou o fim das Olimpíadas de Londres 2012, também foi uma contagem preparatória para o turbilhão de comentários que se seguiriam após a cerimônia de encerramento. Afinal, como todos sabemos, a Grã-Bretanha passa agora o bastão para o nosso país, neste período de grandes eventos esportivos do qual seremos sede. E como diriam nossos comentaristas esportivos: “Agora o mundo inteiro volta seus olhos para o Brasil.” Mas a pergunta é: O que realmente irão ver?

Os responsáveis pela Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016 se preocupam em apresentar grandes complexos esportivos e comodidade para os turistas, totalizando nos dois eventos um gasto de cerca de 50 bilhões de reais aproximadamente (o que deve chegar até a mais, pelo que tudo indica). Grande parte do povo brasileiro afirma que esse dinheiro deveria ser investido para melhorar serviços de utilidade publica como a saúde e educação. Mas outras pessoas rebatem que o Brasil merece sediar eventos desse porte e que isso representa um grande passo para o país que ascende chegar a ser uma das grandes potencias mundiais, além da maior visibilidade que terá. Então quem estaria certo afinal?

As duas afirmações podem estar corretas, tendo como única coisa que as separe “o tempo”. Sim, exatamente o tempo. Pois acho incrível como as pessoas gostam de falar, mas não pensam no que falam. Claro que nossa nação precisa investir em muita coisa, e que os gastos resultantes das obras sejam exorbitantes, mas poderíamos conciliar os dois se nossos governantes tivessem um senso maior de organização e responsabilidade com o seu povo.

Países como China e Grã-Bretanha, últimas sedes Olímpicas, tiveram os mesmos gastos com esses eventos, senão maiores. O que acontece na verdade é que seus governos “tinham” dinheiro para gastar. Figurando entre as potencias mais ricas do mundo, com índices de educação elevados, e sistemas de saúde modernos e estruturados, puderam trazer a seus respectivos povos o que mereciam: um espetáculo de diversão e entretenimento.

O povo brasileiro não merece menos que eles, mas “precisa” de outras coisas muito mais. Nosso país com todas as suas dimensões continentais, diversidade cultural e belezas naturais, é o lugar certo para grandes espetáculos; o problema é que eles vêm em hora muito errada. É como tentar passar cobertura num bolo sem antes assá-lo, pode até ficar bonito por fora, mas quem for prová-lo e ver a parte de dentro não vai gostar do resultado.

É necessário que antes se invista no que realmente estamos precisando – um investimento maior na educação, melhores hospitais, manutenção das estradas, combate a violência, enfim em todos os nossos problemas que seriam demais para serem citados – antes de querermos aparecer como uma grande nação, precisamos trabalhar para tal. Um pai que ganha um salário mínimo, tem mulher, filhos e uma casa para manter não vai sair comprando um carro zero e roupas de marca só para aparecer, quando aquilo que realmente é necessário esta faltando. E assim devia pensar o nosso governo.

Mas nem por isso as pessoas precisam sair por aí criticando nossos atletas (que na sua grande maioria só estão ganhando o seu pão de cada dia e colhendo os frutos de seu trabalho). Porque, afinal, torcer não é errado; errado é ver as injustiças da nossa sociedade e ficar calado perante elas. Tem muitos por aí que afirmam: “Eu não assisto essa porcaria que não me serve pra nada e só usa do meu dinheiro.” A questão é: Não assiste porque tem consciência dos fatos ou simplesmente porque não gostam? Afinal são esses mesmos que criticam o esporte, mas não perdem um capítulo da novela das oito ou dos reality shows da televisão.

O povo muitas vezes é ignorante. O esporte, sim, quebra preconceitos e une nações (que o diga Pelé, que já parou até uma guerra civil no Congo Belga) e portanto merece sim nosso investimento, desde que não sejam deixados de lado outros setores fundamentais do nosso sistema público. Não podemos mais nos deixar ser iludidos por nossa televisão, que traz ao povo apenas o que ele quer ver, que é a competitividade, a vida dos outros e a promiscuidade.

Está na hora de enxergarmos a realidade. Outro dia vi no facebook uma foto de uma mulher africana seminua, com seu corpo esquelético pela falta de comida, enterrando um bebe pequeno tão igual a ela, com um frase: “Pare para pensar”. Digo que já passou da hora de paramos para pensar e, sim, “mexa-se e aja agora”, por que isso sim é um problema e uma coisa para se ver.

Claro que isso não quer dizer que agora vamos deixar de ver TV, doar todo nosso dinheiro e pregarmos de cidade em cidade como Jesus Cristo. Mas instituições de caridade ou em prol de outras causas beneficentes estão abertas para todos que quiserem contribuir. Façamos a nossa parte ao invés de criticarmos o esporte ou esperamos atitudes de nossos governantes. Claro que se olharmos em volta e quisermos ajudar os que caíram pelo caminho a se levantar, teremos que voltar para trás na nossa caminhada. Pode nos atrasar, sim, mas isso não significa que não podemos voltar a caminhar e chegarmos juntos a um mesmo lugar, em um mundo mais justo para todos.

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One response to “No lugar certo, na hora errada”

  1. Avatar de Paulo Ricardo

    Alexandro, você faz reflexões formidáveis. No meu vídeo de reestreia, em 1/1/2013, eu falo sobre o Brasil como um país que trata a política como piada e o futebol como coisa séria e que isso era desesperançoso. Lógico que o futebol tem a sua seriedade, sim: você bem demonstra os valores culturais, mencionado o feito de Pelé. A reflexão que eu propus dias atrás relacionava-se à gestão pública, pois gasta-se muito dinheiro com o esporte, enquanto outras áreas são deixadas de lado. Você também diz algo parecido. O problema, pelo que percebo, não é gastar com futebol, mas sim, fazê-lo em detrimento de outras áreas. Umas não são mais importantes que as outras, são apenas diferentes e mereceriam um investimento mais igualitário.

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