Cartas de cabeceira

Por: Matheus Salustiano da Silva

Ele era jovem, tinha tudo para ser um grande alguém na vida. Namorava uma garota muito linda, de causar inveja nas outras mulheres. Estavam juntos há dois anos. Eram e se intitulavam o casal perfeito. O que não sabiam era a surpresa que o destino preparava.

Dentro de alguns meses, a relação mudou. A garota estava grávida. “Não posso ser pai, não agora”.”Lamentações a essa altura não dá mais, aceite que teremos que criar nosso filho”. Nervoso, o jovem saiu e disse nunca mais querer saber da garota e da criança que estava para nascer. Muito tempo se passou, virou homem formado em medicina. Seus relacionamentos não duravam mais como antigamente. O mesmo medo de cometer os mesmos erros do passado. Chegando em casa, pegou as correspondências e as colocou na mesa. Leu uma por uma. “Contas, contas e mais contas”. Percebeu que naquele monte havia uma carta diferente. Não era cobrança, nem cartões de banco. Era um envelope diferente, escrito: “Abra quando estiver preparado!”. Sem pensar duas vezes, abriu imediatamente.

Sei que agora está formado. Realmente você provou que conseguiria! Talvez não se lembre de algumas coisas do passado. Ao abandonar seu filho, você não sabe o quanto perdeu com isso. Ele queria muito que você estivesse em todos os momentos. Vamos lá: Primeiro de agosto de 1987, ele aprendeu a andar, com apenas 10 meses. Vinte e seis de março de 1988, disse sua primeira palavra: papai. Já corre pela casa inteira. Doze de maio de 1988, entrou na sua primeira escolinha. Cinco de janeiro de 1989, perguntou por você. Sem saber o que dizer, disse que você estava muito ocupado no trabalho. A mentira funcionou, mas não surgiu efeito nas outras vezes. Trinta de setembro de 1999, aniversário de doze anos. Sua presença fez muita falta para nosso filho. Enquanto todos os seus amigos saíam com seus pais, ele apenas comemorava o dia das mães. Nosso filho é lindo. O olhar é igualzinho o seu, a voz também está ficando parecida. Dezoito de junho de 2001, decide te procurar. Tive que trancá-lo dentro de casa. Agrediu-me, foi horrível. Sei que para você é algo difícil aceitá-lo, mas seria bom se tentasse. Mostrei uma foto sua. Um sorriso enorme se formou no rosto dele. Tenho seu endereço e ele já decorou. Escrevi isso para desabafar. Não te entregarei essa carta, pois sei que ela não fará nenhuma diferença. Preciso escondê-la bem. Nosso filho descobriu onde guardo as outras cartas. Sei que logo ele descobrirá o novo esconderijo.

Quando terminou de ler, levantou-se e foi para a janela. Ficou uns cinco minutos olhando para a rua, depois se sentou. Lembrou-se que quem colocou as cartas na sua caixa de correio não foi o carteiro. Foi um jovem que aparentava ter quatorze anos. Junto com aquelas cartas, colocou uma que estava guardada em seu bolso, com um envelope diferente.

Para o autor:

O que melhor descreve um escritor do que suas sábias palavras? Nessa nova geração os escritores estão entrando em extinção. Acabou a qualidade nos textos ou o jovem de hoje não se interessa mais por esse brilhante ofício? Como jovem, sei que minha geração é preguiçosa. Precisamos mudar. Que essas palavras não fiquem guardadas em um baú trancado a sete chaves. Vamos abri-lo se for preciso. Sim, todos podem escrever!

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