Por: Paulo Ricardo Zargolin
Pensando no contexto da 1ª Revolução Industrial, temos que, na passagem do século XVIII para o século XIX, a Europa estava abalada por revoluções importantes, como, por exemplo, a Revolução Francesa, sendo a principal, e as demais que foram ocorrendo em um “efeito cascata”.
Segundo Alaniz (2013), a ideia de que a França exportou sua revolução ou que Napoleão, posteriormente, impôs a Revolução Francesa a uma parte considerável da Europa é um tanto preconceituosa, porque implica em dizer que os outros povos não tinham motivo para reclamação e que foram obrigados a se tornarem revolucionários. O que não seria verdade, porque houve uma série de demandas bem claras que são a passagem da Europa para um início de modernidade.
Para a referida autora, muito embora a linha do tempo diga que nós entramos na Modernidade a partir do Renascimento, há muita coisa na Europa que estava sendo repensada, como questões fundiárias, de mão de obra, religiosas, e, principalmente, as tributárias – haja vista que as monarquias viviam dos tributos.
Então, muito do que a Revolução Francesa discute e revindica e, de certa forma, chega a conquistar – ainda que fosse desmontado na retomada dos Bourbons – ecoa pela Europa. E a Revolução Industrial, tal como se estuda nas escolas, é um fenômeno britânico.
É interessante pensar como a Inglaterra se impôs aos outros países que compõem o Reino Unido, em uma dinâmica de exploração que partiu da coroa. E, nesses interesses de expansão, a Grã-Bretanha criou um grande mercado, que incluía Portugal. E, para suprir as necessidades desse mercado, fez-se necessária a Revolução Industrial, isto é, uma mudança no modelo tecnológico.
Para Alaniz (2013), nós já tivemos mais duas revoluções, desde a primeira: uma, no fim do século XIX, quando se criou a linha de montagem e a segmentação do trabalho. E, recentemente, tivemos a revolução tecnológica da informática, que envolveu o modo como os meios de comunicação e a informatização do trabalho mudaram os modelos de produção e os moldes entre capital e trabalho, em termos marxistas.
E, nessa linha de pensamento sobre a Revolução Industrial, é importante citar Marx (1988), autor que analisou os impactos dessa revolução e a construção do molde entre o capital e o trabalho e como isso impactou a Europa após se fixar na Grã-Bretanha.
Na 1ª Revolução Industrial, temos o nascimento da fábrica. Antes de a fábrica existir como um modelo pronto e acabado de exploração do trabalho, as pessoas viviam num sistema de manufatura. Não existiam operários, mas sim artesãos. E o artesão trabalhava em casa com suas próprias ferramentas, dominando seu tempo do modo como lhe parecesse melhor em relação aos seus próprios fins – não em relação aos fins de quem encomendou o trabalho. E era muito comum que o tempo fosse dividido entre a produção manufatureira e a lavoura. E isso proporcionava certo equilíbrio.
E o controle do tempo, segundo Alaniz (2013), é uma das chaves para compreender todo esse processo. Assim, quando surgiu a energia a vapor e a máquina e, consequentemente, criou-se a ideia da fábrica, a mão de obra era necessária. A única maneira de ter mão de obra rápida, barata e disponível, foi desalojar o artesão das terras comunais, tirando sua relativa estabilidade e jogando essa multidão de desempregados e despossuídos na orla das cidades, que estavam tornando-se industriais.
Tratou-se de um processo terrível, começa-se a utilizar as terras comunais para outros fins, em uma grande acumulação primitiva, resultado do momento em que os latifundiários da época percebem o potencial da indústria têxtil para a Grã-Bretanha e começam a criar ovelhas para ter lã. E os terratenentes cercavam, impunemente, as terras comunais e tomavam posse delas. Assim, os pobres e trabalhadores rurais eram obrigados a sair de seus vilarejos e rumar para os grandes centros. Nessa época, ocorre um inchaço nas cidades britânicas.
E, ao chegarem nesses centros, havia dois grandes pontos de trabalho: fábricas e minas de carvão. Ambos são terríveis, com jornadas de 16 horas, com a maior parte do trabalho desempenhada por crianças e mulheres, sem controle por parte das autoridades e com aberrações de todos os tipos. Houve também a construção das vilas operárias, que eram locais onde se alocavam os trabalhadores a fim de melhor dominá-los. Havia a loja da fábrica/da mina que vendiam os alimentos a crédito – muito mais caro do que no mercado – mas com o trabalhador sendo obrigado a comprar ali para que sua compra possa ser descontada do seu salário posteriormente. As casas que os patrões forneciam também eram descontadas do salário.
Nesse período, surgiram os luditas, que identificavam na máquina um dos maiores fatores de exploração, porque, enquanto o artesão controlava o seu tempo, a máquina controla o tempo do operário. Se o operário não trabalhasse no ritmo da máquina, ele teria os dedos amputados, perda de membros ou até mesmo morrer. E a máquina, embora não tire o trabalho do operário como se chegou a pensar, passa a ser o foco do capital. No entanto, a máquina não reduz a exploração nem oferece conforto ao ser humano.
A máquina permite, simplesmente, que mais pessoas possam consumir. Mas, para que mais pessoas possam consumir, mais pessoas precisam ser exploradas. Cria-se assim uma diferença entre quem produz e quem consome. E esse é um dos tantos aspectos cruéis das Revoluções Industriais.
REFERÊNCIAS
ALANIZ, A. G. C. Cantinho da História 20: Revolução Industrial. Vídeo. 31 min. aprox.
CONTI, C. L. A.; RISCAL, S. A.; SANTOS, F. R. dos. Organização Escolar: da Administração Tradicional à Gestão Democrática. – São Carlos : EdUFSCar, 2012. 105 p. (Coleção UAB-UFSCar).
MARX, K. O capital. Coleção Os economistas. São Paulo: Nova Cultural, 1988.

