Algumas visões inadequadas da ciência

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Uma das distorções em relação a natureza da ciência que se pode considerar como a mais perigosa é a visão individualista e elitista da ciência, onde os conhecimentos científicos aparecem como obras de gênios isolados e seus resultados são capazes de confirmar ou refutar uma teoria. Aqui, para que não ocorram problemas, deve-se considerar que o trabalho de cada um é orientado pelas linhas de investigação estabelecidas, pelo trabalho de equipe, que é necessário um esforço para tornar a ciência acessível e mostrar seu caráter de construção humana.

Há também a concepção que enfatiza o papel neutro da observação e da experimentação, que seria pautada em uma visão empírico-indutivista e ateórica. Nessa abordagem, há uma deformação, por não se destacar a influência de ideias apriorísticas e se atribui à essência da experimentação a de ‘descoberta’ científica. Seria esta, portanto, uma imagem, ingênua da ciência, socialmente disseminada e aceita.

Há uma visão rígida da ciência (algorítmica, exata e infalível), em que se sugere um procedimento de regras definidas e mecânicas do método científico, destacando um tratamento quantitativo. Esta é uma imagem amplamente difundida entre os professores. Entretanto, é sabido que há uma grande variedade de métodos e é necessário considerar a inclusão da criatividade no processo de construção do conhecimento.

Tratando-se de uma concepção que o ensino de ciências reforça por omissão, temos a ciência aproblemática e ahistórica – portanto dogmática e fechada – em que os conhecimentos já elaborados são transmitidos, sem demonstrar os problemas que lhe deram origem, sua evolução e as dificuldades encontradas.

Há ainda a compreensão exclusivamente analítica, em que prevalece a visão fragmentada da ciência. Este tipo de distorção aparece principalmente entre professores e livros didáticos. É necessário considerar os processos de  unificação como uma característica  fundamental da evolução dos conhecimentos científicos na educação científica, como por exemplo, no caso da biologia, o evolucionismo.

Há a distorção onde o conhecimento científico é apresentado de forma simplista, em uma concepção acumulativa de crescimento linear da ciência. Nesta concepção, o ensino reforça a visão linear, uma vez que não mostra como os conhecimentos foram construídos. Para que isso não ocorra é necessário considerar os confrontos e os processos de mudança ocorridos na História da Ciência nos processos de ensino.

E, por fim, a visão socialmente neutra da ciência, esquecendo-se as complexas relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Está é uma deformação, pois sabemos quão importante se faz compreender o caráter social do desenvolvimento científico, influenciado pelos problemas e circunstância do momento histórico. Do mesmo modo, a ação dos cientistas tem uma forte influencia sobre o meio físico e social em que se insere.

OBRAS CONSULTADAS

OLEQUES, L. C. et al. Reflexões acerca das diferentes visões sobre a natureza da ciência e crenças de alunos de um curso de Ciências Biológicas. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, v. 12, n.1, p. 110-125, 2013. Disponível aqui. Acesso em: 14 abr. 2014.

PÉREZ, D. G. et al. Para uma imagem não deformada do  trabalho científico. Ciência & Educação, v.7, n.2, p.125-153, 2001. Disponível aqui. Acesso em 13 abr. 2014.

PÉREZ, D. G. et al. Visiones deformadas de la ciencia transmitidas por la enseñanza. Enseñanza de las Ciencias, v. 20, n. 3, p. 477-488, 2002. Disponível aqui. Acesso em: 14 abr. 2014.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo