Eu no mundo com os outros

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A reflexão sobre si mesmo é uma das atividades mais complexas de se realizar. Principalmente, quando o objetivo é registrar a subjetividade que nos circunda ao longo da formação pessoal e profissional.

Os seres humanos têm sido foco de estudo científico há mais de um século. Tal exploração é um empreendimento sempre em evolução e, por isso, é de suma importância, porém, refletir sobre o desenvolvimento biopsicossocial intrínseco a todos os indivíduos para que, assim, seja possível pensar sobre as características individuais que assentam nosso lugar no mundo.

Há uma ideia estigmatizada de que o ser humano nasce já dotado das qualidades que, no decorrer de sua vida, irão ou não se manifestar. Na Filosofia encontraremos, em diversas correntes, ideias semelhantes a esta.

Braga, Gabassa e Mello (2010, p. 13), ao contrário, dizem que, ao atuar no mundo carregamos aquilo que aprendemos em nossas vidas, de modo particular, com as pessoas que nos cercam, com particularidades permeadas pelas generalidades da realidade na qual estamos inseridos.

Nesse contexto, é sabido que há vários fatores que estabelecem nosso lugar no mundo: as características biofísicas, os aspectos psicológicos e cognitivos e, principalmente, as relações sociais.

Bleger, em seu livro Psicologia da conduta, sistematiza pelo menos três mitos filosóficos, que influenciaram as ciências humanas em geral e a Psicologia em particular, e que apresentam a ideia de que o homem nasce pronto.

Mas o homem é um produto histórico, que não pode ser estudado como ser isolado, que se torna humano em função de ser social, e é concebido como ser concreto, porque tornamo-nos o conjunto de nossas relações sociais.

Braga, Gabassa e Mello (2010), explicam que “é a partir da própria particularidade que cada pessoa constitui-se humano genérico, universal”. As autoras acrescentam ainda que é “fundamental reconhecer-se a si mesmo e a própria história para compreender-se e compreender as outras pessoas também como sujeitos e portadores de suas próprias histórias”.

E o mundo da ciência, da arte, dos instrumentos, da tecnologia, dos conceitos e ideias. Para se apropriar desse mundo, o homem desenvolve atividades que reproduzem os traços essenciais da atividade acumulada e cristalizada nesses produtos da cultura.

Piéron (apud. LEONTIEV, 1978, p. 238) resume o pensamento discutido aqui em uma frase bastante interessante: “A criança, no momento do nascimento, não passa de um candidato à humanidade, mas não a pode alcançar no isolamento: deve aprender a ser um homem na relação com os outros homens”.

Assim, ainda que coloquemos os objetos da cultura humana na gaiola de um animal, isso não torna possível a manifestação das propriedades específicas que estes objetos têm para o homem. O animal não se apropria desses objetos e das aptidões cristalizadas neles. Pode manuseá-los, mas eles não passarão de elementos do meio natural. O homem, ao contrário, aprenderá com os outros indivíduos a utilizá-los, extraindo do objeto aptidões motoras.

Além disso, se considerarmos a hipótese de uma catástrofe no planeta que eliminasse todos os adultos e preservasse as crianças pequenas. A história seria interrompida, como afirma Leontiev (1978, p. 272).

Os tesouros da cultura continuariam a existir fisicamente, mas não existiria ninguém capaz de revelar às novas gerações o seu uso. As máquinas deixariam de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as obras de arte perderiam a sua função estética. A história da humanidade teria de recomeçar.

Nesse sentido, entende-e que na relação com o mundo e com os outros, pode fazer novas escolhas, pode escolher mudar em si próprio o que não lhe agrada, e, para isso, é preciso se autorreconhecer.

REFERÊNCIAS

BOCK, Ana Mercês Bahia. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13.ed. São Paulo, SP: Saraiva, 2001. 368p.

BRAGA, Fabiana Marini; GABASSA, Vanessa; MELLO, Roseli Rodrigues de. Aprendizagem dialógica: ações e reflexões de uma prática educativa de êxito para todos(as).

LEONTIEV, Alexis. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Horizonte, 1978.

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo