O desenvolvimento docente a partir da dialogicidade

Por : Paulo Ricardo Zargolin

Refletindo sobre mudanças na sociedade no contexto atual e a relação dessas transformações com a escola, o papel das utopias e as teorias dialógicas é possível que cheguemos a algumas conclusões, mas, antes, contudo, é necessário que esta reflexão esteja imersa no universo empírico de quem reflete. E é isso que se observa no discorrer de Braga, Gabassa e Mello (2010) e o que pretendo conseguir também em meus escritos.

É interessante também que o elo entre as práticas de ensino e o pensar dialógico esteja fixado pelas mãos do educador, e que suas ações desenvolvam-se em um espiral. Espiral, sim, para que não corramos o risco de cair em um círculo vicioso. É necessário que as mudanças sejam levadas em consideração. Analogamente, poderemos enxergar o desenvolvimento da ação docente tal como Piaget descreve as fases do desenvolvimento, em uma visão interacionista e, portanto, dialética.

Quanto às utopias observadas durante esse processo, fico com o pensamento de Braga, Gabassa e Mello (2010):

Essas teorias permitem-nos um trabalho mais humano e bonito na sala de aula, com mais possibilidade de sonhos e utopias, mas permitem-nos também um trabalho mais sério e rigoroso, comprometido com a igualdade social e educativa que se quer construir.

Faz-se necessário que nossas teses, antíteses e sínteses sejam compostas por nós a partir de uma dúplice quase que parnasiana: com as pernas da experiência e com os braços da imaginação; porque a primeira permite o aprendizado das técnicas, dando sustentação, e a segunda cria soluções e nos prepara para alçar voos.

Nesse sentido, o educador também se posicionará no papel de educando, que está em constante movimento. Em outro contexto, Freire (1992) aproxima-se de minha fala, mas o que quero destacar é justamente a flexibilidade projetiva de o docente assumir-se como ser em constante movimento, adaptável às mudanças de qualquer natureza, assumindo-se como educando e…

…assumir-se como educando significa reconhecer-se como sujeito que é capaz de conhecer e que quer conhecer em relação com outro sujeito igualmente capaz de conhecer (…). Ensinar e aprender são assim momentos de um processo maior — o de conhecer, que implica reconhecer. No fundo, o que eu quero dizer é o que o educando se torna realmente educando quando e à medida que conhece, ou vai conhecendo os conteúdos, os objetos cognoscíveis… (FREIRE, 1992, p. 48).

Como elementos novos para nossa reflexão, deve-se considerar também as mudanças sociais, que, para Braga, Gabassa e Mello (2010), algumas teorias vêm se dedicando a analisar, sobretudo, a influência da informação, que tem imprimido em todos os âmbitos de vida a partir de um processo que está progressivamente se produzindo.

De acordo com Delors (1996), desde sempre, as sociedades foram abaladas por conflitos suscetíveis de, nos casos extremos, pôr em perigo a sua coesão. Hoje, contudo, não se pode deixar de dar importância a um conjunto de fenômenos que, na maior parte dos países do mundo, surgem como outros tantos índices de uma crise aguda das relações sociais.

Nesse processo, descrito por Braga, Gabassa e Mello (2010), há ainda o chamado giro dialógico, que potencializa a necessidade de diálogo das ações e das relações, tendo-o como principal eixo de tomada de decisão.

Assim, explicar a realidade e apontar orientações para sua melhoria, levando-se em conta a dinamicidade das sociedades, como indicam as referidas autoras, depende de fatores importantes a serem considerados nas formas de agir e de se relacionar, como o diálogo, a reflexão, o entendimento e a cooperação.

REFERÊNCIAS

BRAGA, Fabiana Marini; GABASSA, Vanessa; MELLO, Roseli Rodrigues de. Aprendizagem dialógica: ações e reflexões de uma prática educativa de êxito para todos(as). São Carlos: EdUFSCar, 2010.

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir, relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. 4. ed. São Paulo: Editora Cortez, 1996. Disponível aqui. Acesso em: 09 ago. 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. p. 47-49.

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