Tudo que se aprende na escola

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A partir do trabalho de Oliveira e Mizukami (2001), observa-se que é intrínseco ao professor o papel de aprender a identificar, compreender e articular diferentes olhares, questionando suas próprias concepções e buscando sempre perceber para além daquilo que se sabe. Estes são importantes pontos de partida para uma melhor compreensão da realidade, que é complexa, multidimensional e, por vezes, até incerta e ambígua.

Tal pensamento remete às palavras de Pataro e Moruzzi (2009, p. 19),quando dizem que “todas as vezes em que nos deparamos com algo novo, procuramos compreendê-lo, compará-lo e significá-lo a partir de outras coisas que já conhecemos, que nos são importantes e que fazem sentido em um determinado momento”.

Oliveira e Mizukami (2001) registram ainda tal multiculturalismo, apontando que, de fato, numa mesma sociedade, nem todos compartilham os mesmos valores e modos de vida, assim sendo, cabe sempre um olhar sobre a diversidade de gênero, de origem étnica ou geográfica, de línguas diferentes e opções religiosas das mais diversas.

Assim sendo, o ponto de partida para a reflexão de todos nós que, de alguma forma, estamos envolvidos com a Educação, segundo as referidas autoras (2001), deve ser costurado pelos problemas universais dos meninos e meninas na escola e suas soluções humanas, contextualizadas e culturais. A partir dessa relação “nos humanizamos desenvolvendo ações individuais e coletivas, como membros de diferentes grupos” (p.25), acrescentam.

Oliveira e Mizukami (2001, p. 24), detalham tal humanidade conquistada nos bancos da escola, esclarecendo que

Tornamo-nos humanos nas brincadeiras, no jogo de futebol na quadra. Da mesma forma que atingimos certa parcela de humanidade ao participar dos rituais de cópia, correção de exercícios no caderno, na lousa. E ninguém duvida de que nos tornamos participantes da humanidade quando nos assenhoramos da capacidade de ler, de escrever, de fazer contas para resolver os problemas matemáticos. Assim, como enfatizam os alunos, aprendemos a História de São Carlos, do Brasil, a Geografia, os rios, planaltos, conhecimentos que nos situam na cultura, no espaço e no tempo.

Observa-se, também que, além do que é subsidiado, acompanhado e monitorado por políticas públicas e o oferecimento de critérios de referência para o trabalho escolar, os indicadores levantados por meio de avaliações em larga escala apontam o poder público, através de diferentes órgãos, considera como desejável que os alunos aprendam e que a escola ensine. E qual conteúdo deve ser ensinado?

Ao citarem Pires, Fernandes & Formosinho (1998), Oliveira e Mizukami (2001) dizem que a certificação escolar no mundo do trabalho contém implicitamente o reconhecimento de que a escola “forma” os seus alunos, e de que essa “formação” é, pelo menos potencialmente, utilizável como capacidade para a atividade ocupacional. As autoras fazem, a partir daí, um paralelo com a cultura escolar, deixando marcas para que reflitamos sobre a concepção e execução do projeto político pedagógico que norteará o trabalho em cada unidade escolar.

Conclui-se que o contato com a realidade escolar pode nos auxiliar no processo de ressignificação de nosso olhar sobre a escola, entendendo que, com isso, é possível a conscientização e questionamento de muitas de nossas crenças, valores, concepções, medos e expectativas, uma vez que a percepção adequa-se às experiências do sujeito percebedor.

REFERÊNCIAS

OLIVEIRA, R. M. M. A. de; MIZUKAMI, M. da G. N. Na escola se aprende de tudo. (2001). Disponível para alunos da UFSCar. Acesso em 14 ago. 2015.

PÁTARO, C.S. de Oliveira; MORUZZI, A. Braga. O Olhar sobre a escola. In: PÁTARO, C.S. de Oliveira (Org.). Prática de ensino 3: a escola como espaço de análise e pesquisa. EdUFSCar : São Carlos, 2009. p. 11-31.

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