Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há um território onde todos os caminhos se tocam, mas ninguém se encontra de fato. É o espaço sutil entre um olhar e outro, um intervalo em que a vida se reescreve em silêncio. Ali, não há certezas. Apenas percepções que se encostam e, ao se encostarem, mudam de cor.
Somos feitos disso: de versões que nos protegem, de memórias que nos recontam, de narrativas que sustentam nossa continuidade. Cada lembrança que guardamos é uma tentativa de ordenar o invisível, de dar nome ao indizível que nos atravessa.
Os olhares cruzam-se como faróis longínquos: iluminam por um instante, depois seguem cada um para um lado. Mas é nesse lampejo que a realidade se inventa. Um gesto mal interpretado, uma palavra dita por medo, um silêncio confundido com desdém… e pronto! O mundo já é outro!
Não há verdade imutável, apenas perspectivas pulsando em direções contrárias, tentando encontrar abrigo dentro da própria lógica. Há quem veja no passado uma injustiça, e há quem veja um aprendizado. Há quem olhe para o mesmo acontecimento e enxergue culpa, enquanto outro enxerga salvação.
A diferença entre ambos é apenas o ângulo da lembrança. Porque a memória não é testemunha fiel, é artista. E, como todo artista, recria o que sente falta, distorce o que doeu, ilumina o que deseja preservar.
Entre as narrativas humanas há um vaivém silencioso, um tráfego de sentidos. Uns param diante da dor, outros aceleram rumo à indiferença. Há quem busque coerência, e há quem prefira a beleza. E é desse movimento, dessas luzes que acendem e apagam dentro de nós, que o tempo se sustenta.
Quando os olhares se cruzam, mesmo sem se reconhecerem, produzem uma centelha de existência compartilhada. É o instante em que o “eu” se percebe como parte de um todo, e o outro, mesmo distante, se torna espelho. Talvez seja isso que chamamos de humanidade: a consciência de que nossas histórias, por mais divergentes que sejam, orbitam o mesmo mistério.
No fim, ninguém tem a última palavra sobre nada. O que temos são fragmentos, versões, lampejos, pontos que desviam os olhares, mas também os revelam. E talvez seja justamente nesse desvio, nesse breve intervalo entre o que se viu e o que se compreendeu, que cada um constrói sua própria lembrança e a chama de verdade.

