Por: Paulo Ricardo Zargolin
Em uma feíssima segunda-feira, a Alexa começou seu show de rotina.
Luísa queria cortar os fios com um dos pedaços de espelho sobre a mesinha de cabeceira.
O artefato que seu ex-namorado usava para fazer a barba fora espatifado na noite da briga.
Os estilhaços, ainda espalhados, refletiam sua alma igualmente despedaçada.
Então, ela levantou. Sem forças, sem sonhos, sem banho, sem drama.
Ordenou que aquele robô insuportável se calasse.
Se Alexa pudesse responder de forma autônoma, certamente perderia a paciência.
Mas ambas seguiam uma configuração, um programa, um script.
No vazio da solidão, encontravam-se programadas para responder às expectativas alheias.
Respondiam ao que era solicitado. Sem drama, sem sentimentos, sem oportunidades para expressar seus pensamentos.
Ao menos, os verdadeiros.
Chegou, nem sabe como, ao estacionamento do escritório.
Amanda saiu do carro e, enquanto sorria para o marido, acenava de soslaio à Luísa.
Aquela felicidade lambuzada de margarina fez com que seu lado mais obscuro dominasse os olhos.
Ainda assim, trocaram o “bom dia” da programação normal.
Luísa só queria ter trazido um pedaço bem cortante do espelho em sua bolsa.
Imaginou o sangue de Amanda enfeitando o elevador e, por um instante, sorriu.
Um sorriso que perdurou.
Mais precisamente até às dezoito horas e quinze daquele dia.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.

