Volta à Lua em dez dias

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Dizem que, certa vez, os homens mais sábios da Terra se reuniram para resolver os problemas do mundo.

Havia fome, havia sede, havia ruas que terminavam antes de chegar a lugar algum.

Havia crianças aprendendo a esperar e adultos desaprendendo a sonhar.

Depois de longas discussões, concluíram:

— Precisamos dar uma volta na Lua.

Não para ficar.

Não ainda.

Era apenas uma visita técnica.

Dez dias seriam suficientes.

Construíram então uma máquina magnífica — tão precisa que sabia respirar no vazio e conversar com o silêncio.

Dentro dela, levaram quatro representantes da humanidade, escolhidos por sua excelência, preparo e capacidade de suportar o infinito sem reclamar.

— Vamos observar — disseram.

— Testar caminhos. Medir distâncias. Preparar o futuro.

E partiram.

Enquanto isso, na Terra, a vida continuava com sua teimosia habitual.

Os que tinham pouco seguiram tendo pouco, mas agora com a informação de que, tecnicamente, a humanidade avançava.

Os que nada tinham passaram a ter algo novo: a possibilidade de acompanhar, em tempo real, o progresso que não lhes cabia.

Havia transmissões.

Mostravam gráficos, trajetórias, cálculos precisos.

Explicavam como o corpo humano reagia ao espaço profundo.

Como a nave resistia ao calor da volta.

Como tudo estava sendo cuidadosamente preparado para algo maior.

— Um dia voltaremos para ficar — garantiam.

Na terceira noite da viagem, alguém perguntou, em voz baixa:

— E aqui?

Mas a pergunta não foi transmitida.

Ao décimo dia, a máquina retornou.

Atravessou o céu como uma promessa bem executada e pousou com a elegância dos grandes feitos que não erram.

Houve aplausos.

Discursos.

Palavras como marco, futuro e humanidade foram usadas com precisão milimétrica.

E, de fato, algo havia sido conquistado.

Agora se sabia, com mais certeza do que antes, que era possível ir até a Lua sem precisar resolver o caminho até o fim da rua.

No relatório final, escreveram:

“Missão concluída com sucesso. Condições favoráveis para exploração futura.”

E ninguém ousou perguntar para quem.

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