Por: Paulo Ricardo Zargolin
Amanda despertou sem saber se ainda estava dormindo.
O ar lhe entrou curto, áspero, como se tivesse sido guardado ali por tempo demais. Tentou mover os braços. Não conseguiu. Os punhos ardiam presos para trás. As pernas, rígidas, mal respondiam. A boca, abafada por um pano, transformava o desespero em silêncio.
Havia cheiro de madeira.
Madeira antiga, pesada, impregnada de um verniz doce demais para aquele momento. O escuro não era ausência de luz — era presença de algo fechado. Algo que não devia ser aberto.
Ela tentou gritar.
O som morreu quente contra o tecido.
Parou.
Ouviu.
Passos.
Passos firmes no corredor, de quem não precisava tatear o caminho. Um andar seguro, quase paciente. Cada ruído do assoalho parecia mais alto do que deveria. Ou talvez fosse o coração dela, que batia como se quisesse fugir primeiro.
Os passos cessaram.
Silêncio.
Um silêncio que não aliviava — apenas esperava.
No escritório, às onze horas, o dia já tinha se desviado daquilo que prometera ser.
Luísa observava sem participar.
Pequenos grupos se formavam como se fossem inevitáveis. Pescoços inclinados, vozes baixas, olhares que se cruzavam com a urgência de quem precisa compartilhar algo antes que perca o sabor.
Amanda não aparecera.
A princípio, atraso. Depois, estranheza. Agora, assunto.
— O marido ligou — alguém disse, sem muita cerimônia. — Disse que não sabe onde ela está.
A frase circulou como café quente: rápida, necessária, repetida.
Luísa não respondeu.
Ficou olhando para a tela do computador como se estivesse lendo algo importante. Não estava. As palavras não fixavam. Escorriam.
Lucas não sabia do paradeiro da esposa.
Aquilo deveria soar grave. Alarmante.
Mas havia algo errado na forma como a notícia se acomodava dentro dela.
Como se não encontrasse lugar.
Ou como se já houvesse chegado tarde.
Amanda tentou se mover novamente.
O armário — agora ela sabia — não cedia. A madeira rangia baixo, quase ofendida. Havia pouco espaço. Pouco ar. Pouco tempo.
Ela fechou os olhos, mesmo sem ver nada.
Tentou lembrar.
Nada vinha inteiro. Apenas fragmentos.
O estacionamento.
O sorriso automático.
O elevador.
E um intervalo.
Um vazio onde deveria haver continuidade.
Luísa levantou-se para buscar água.
Precisava de um gesto simples, qualquer um, que justificasse o corpo em movimento. Ao passar pela recepção, sentiu os olhares. Não diretamente. Mas estavam ali. Sempre estão.
Encostou-se ao balcão por um segundo a mais do que o necessário.
Foi quando viu.
Algo mínimo.
Tão pequeno que poderia ter passado despercebido.
Uma pétala.
Vermelha, já sem brilho, caída próxima à base do balcão.
Luísa hesitou.
O cérebro tentou explicar rápido: decoração, alguém trouxe flores, acaso.
Mas o corpo não aceitou a explicação.
Ficou imóvel por um instante.
Tempo suficiente para lembrar — sem querer lembrar — de um gesto antigo, repetido, quase ritual.
Ela desviou o olhar.
Pegou a água.
Voltou.
Como se nada tivesse acontecido.
Dentro do armário, Amanda ouviu novamente.
Os passos voltaram.
Desta vez mais próximos.
Pararam exatamente diante dela.
Ela soube.
Não porque viu.
Mas porque o silêncio mudou.
Há silêncios que têm direção.
O ar pareceu encolher.
A madeira à sua frente recebeu um leve toque.
Quase um carinho.
Amanda tentou gritar outra vez.
O som não saiu.
Do lado de fora, alguém permaneceu ali por alguns segundos a mais do que o necessário.
Como se decidisse algo.
Ou como se já tivesse decidido.
No escritório, o dia seguia.
Mas não era mais o mesmo.
E, em algum ponto que ninguém soube identificar, a rotina tinha sido substituída por outra coisa.
Uma ausência.
Uma presença fora do lugar.
Ou um erro que ainda não tinha sido percebido.
E, enquanto Luísa tentava convencer a si mesma de que aquela pétala não significava nada,
Amanda, dobrada no escuro, percebeu que o pior ainda não tinha começado.
A semana que começou fora do calendário
Antes de acompanhar o desfecho, percorra os sete dias em que ausências, pétalas, telefonemas e segredos mudaram de lugar.
Entre 16 e 22 de agosto de 2026, o leitor acompanhará, capítulo a capítulo, o eletrizante final de Em uma crudelíssima semana.

