A Guiana não sumiu

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A Guiana não sumiu. Ela foi tratada como sempre foi.
O vídeo, do Porta dos Fundos, só teve a delicadeza de acelerar o processo.
No esquete, um presidente descobre que um país inteiro evaporou e reage como quem perdeu um cupom de desconto. Não há luto, não há espanto, não há sequer curiosidade geográfica. Há um leve incômodo, desses que se resolve com café e assessor.
“Guiana… isso fica onde mesmo?”
E pronto.
Ali está a geopolítica em seu estado mais puro, sem maquiagem, sem fórum internacional, sem PowerPoint: o mundo dividido entre o que interessa e o que pode esperar.
A Guiana sempre pôde esperar.
Em 2026, a diplomacia aprendeu a sorrir enquanto ignora. Criou palavras bonitas para coisas feias. “Parceria estratégica”, “zona de interesse”, “estabilidade regional”. Tudo muito elegante. Tudo muito vazio.
É o tipo de linguagem que permite que um país exista sem jamais ser considerado.
Existir, aliás, é um detalhe superestimado.
O vídeo canta isso. Literalmente.
E o riso vem fácil, porque a música faz o favor de dizer em voz alta o que normalmente é dito em relatórios confidenciais: países sem utilidade clara são, na melhor das hipóteses, decorativos.
Na pior, descartáveis.
Quando outros países começam a sumir, o tom muda. Não por consciência. Por cálculo.
A ausência deixa de ser filosófica e passa a ser logística.
Quem produz?
Quem compra?
Quem sustenta essa fantasia de centralidade?
O mundo, de repente, percebe que precisava daquilo que desprezava.
É um momento bonito. Dura pouco.
Porque logo sobra Tuvalu.
E aí acontece o milagre geopolítico: o irrelevante vira imprescindível. O minúsculo ganha voz. O ignorado vira pauta. Não por justiça, claro. Por falta de opção.
Respeito emergencial.
Desses que desaparecem assim que o problema passa.
O presidente, então, tem uma ideia brilhante: reconstruir o mundo à sua imagem. Dar nomes familiares às ausências. Criar um mapa mais confortável.
Uma Ouro Preto em território conveniente.
Uma cultura sem gente.
Um planeta sem alteridade.
É o colonialismo sem viagem.
Mais prático. Mais limpo. Mais honesto, de certa forma.
E então, como num passe de mágica, tudo volta.
A Guiana reaparece.
Os outros países reaparecem.
O mundo se recompõe.
E nada muda.
Essa é a parte mais precisa do vídeo. Não o absurdo, mas o retorno. Porque o problema nunca foi o desaparecimento. O problema é a indiferença que antecede e sucede qualquer desaparecimento.
A Guiana não sumiu.
Ela apenas deixou de ser ignorada por alguns minutos.
Depois, voltou ao seu lugar natural:
o de existir sem ser percebida.
E isso, convenhamos, é muito mais estável do que desaparecer.

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