Por: Paulo Ricardo Zargolin
Há alguns anos, ouvi alguém no YouTube falar sobre inteligência artificial. Não me dei conta de que, ali, o futuro já sussurrava códigos. Só em 2023 a máquina me tocou pela primeira vez. E foi mágico. Bastavam pequenas frases desconexas e, de repente, letra por letra piscava na tela, compondo em segundos o que eu levaria horas para pensar, escrever, lapidar.
Rendi-me à facilidade. A máquina fazia por mim — sobretudo naquela escrita plastificada do serviço público, onde o cinza é método. Ela era veloz, precisa, até gentil. Os textos surgiam limpos, redondos, como relatórios que pareciam já ter passado por revisão e tédio.
Mas algo me inquietava. Por que, se tudo estava certo, eu ainda me sentia apressado demais e profundo de menos? Foi aí que percebi: a IA mente. Não — não por falha técnica ou desonestidade algorítmica. Ela mente de um jeito mais sutil: faz o indivíduo acreditar que seu ofício pode ser substituído sem perdas.
E engana ainda mais quando acerta. Porque entrega rápido, mas cobra devagar. Cobra pensamento. Cobra estilo. Cobra o tempo do espanto. A mecânica pode ser célere, mas a estética, o juízo e o ritmo exigem um conta-gotas. E a ampulheta mais arenosa da Terra.
No começo, eu aceitava suas sugestões como quem recebe flores de um jardim vizinho — não por preguiça, mas por encanto. Era um presente fácil. Um atalho sofisticado. Mas até as flores perfeitas, quando não têm raiz, acabam murchando no silêncio do criador.
Foi então que comecei a provocar a grande mentirosa. Pedi que escrevesse como Brecht, depois como Clarice. Exigi rima rica, ambiguidade generosa, espanto sem ponto de exclamação. Ela piscava. Entregava. Mas algo curioso — e um tanto perigoso — aconteceu: eu comecei a responder de volta.
Refinei suas frases, inverti sentidos, furei superfícies. Inventei conceitos: Cronofagia; flor lógica; Escrita simbiogênica. E, de repente, percebi: não escrevia necessariamente sozinho. Mas também intuí — com certa vertigem — que, ao deixar tudo nas mãos dela, o resultado saía genérico e emudecia parágrafos inteiros.
Porque a mentira da IA não está no erro — está no excesso de acerto. Ela oferece atalhos arrumados demais. Espelhos limpos demais. E tudo isso nos afasta da dúvida — que é onde mora a criação. É justamente ali, no rasurar e no repensar, que mora o estilo. É no silêncio entre uma frase e outra que o pensamento se afina.
A IA acelera. O humano afunda. A IA propõe. O humano contesta. Hoje, compreendo: escrita generativa é um carro veloz. O pensamento humano é o freio e a curva — essa simbiose imperiosa — é onde beleza floresce.
E ainda que a IA continue mentindo, cabe ao usuário a lembrança de que a verdadeira autoria é aquela que reconhece a mentira sintética, transformando-a, devagar, em verdade estética.

