Ana Paula #04

Por: Paulo Ricardo Zargolin

A boneca estava deitada embaixo da cama havia dias.

Não caída. Caída é a palavra que a gente usa quando ainda acredita em acidente. Ela estava largada com certa pose, como se tivesse escolhido o próprio abandono. Era uma bonequinha de pano, dessas com vestido armado, sapatinho inútil, chapéu pequeno e uma elegância francesa de loja barata. Uma parisiense dondoquinha, feita para decorar prateleira, não para vigiar tragédias.

Mas vigiava.

Do quarto de Ana Paula, havia um vão estreito entre a porta e o chão. Por ali, a boneca enxergava uma fatia da sala: a perna do rack, um pedaço do tapete, a luz azulada da televisão e, quando a tela aumentava o brilho, os vultos trêmulos dos apresentadores falando como se soubessem mais do que podiam dizer.

Na TV, repetiam a mesma notícia desde cedo.

Rômulo Fagundes, banqueiro conhecido na região nobre da cidade, havia sido internado em estado grave após um acidente doméstico.

Acidente doméstico.

A expressão era perfeita para esconder o impossível. Tinha a limpeza covarde das palavras oficiais. Cabia em nota hospitalar, cabia em legenda de telejornal, cabia na boca de médico cansado diante de microfones. Acidente doméstico podia ser tudo. Um copo quebrado. Uma queda no banheiro. Uma mão atravessando o espelho depois de perder uma discussão com a própria cara.

A equipe médica informou que o paciente dera entrada com um corte profundo na mão e perda considerável de sangue. O quadro exigia observação. Novas informações seriam divulgadas oportunamente.

Oportunamente.

Ana Paula quase riu.

Havia palavras que nasciam para passar pano em abismos.

Nenhuma nota mencionava a pele. Nenhuma nota falava das manchas. Nenhuma nota ousava dizer aquilo que, na cidade inteira, já tinha virado cochicho, print, corrente, teoria e entretenimento de mau gosto.

A doença.

Aquela doença.

A doença que ninguém pronunciava com seriedade porque seriedade exigiria admitir que ela existia. Nos canais oficiais, era como se o corpo de Rômulo tivesse apenas se ferido. Nas redes sociais, porém, o corpo dele já havia sido desmembrado em memes.

Ana Paula estava sentada no sofá, com o celular nas mãos, olhando sem querer olhar.

Um vídeo da festa circulava em várias versões.

Em uma, alguém havia colocado efeito sonoro no momento em que Rômulo tocava suas luvas.

Boom.

Em outra, repetiam a cena em câmera lenta, como se o gesto fosse gol de final de campeonato. Havia setas vermelhas, zoom no rosto dela, zoom nas mãos dele, uma música dramática ao fundo e, no final, a sirene da ambulância editada por cima.

A internet era isso: pegava uma tragédia, passava no liquidificador da graça e servia com legenda.

Ana Paula desligou a tela.

Por alguns segundos, a sala ficou menor.

Então sentiu.

Não era barulho. Não era movimento. Era aquela percepção incômoda de quando alguma coisa sem vida parece estar prestando atenção demais.

Olhou para o corredor.

A porta do quarto permanecia entreaberta.

Lá dentro, embaixo da cama, a boneca continuava onde estava.

Ana Paula se levantou devagar.

Não por medo exatamente. Medo era palavra simples demais. O que sentia diante da boneca era mais antigo, mais infantil, mais ridículo. Um desconforto que envergonha o adulto porque o obriga a admitir que nem todo objeto aceita ser apenas objeto.

Foi até o quarto.

Parou na porta.

— Eu sei que você está olhando.

A boneca não respondeu.

Claro que não respondeu.

Bonecas de pano, em geral, têm essa ética: testemunham tudo e depois fingem inocência. Permanecem com os olhos pintados, a boca costurada, as pernas moles, como se não carregassem, no algodão, metade da história de uma casa.

Ana Paula se aproximou e abaixou o corpo com cuidado.

A bonequinha estava de lado. O vestido amarrotado. O chapéu torto. Um braço dobrado para trás numa elegância dolorosa, quase teatral. Parecia uma herdeira falida esperando chá embaixo de uma cama.

— Não faz essa cara — disse Ana Paula. — Você também viu.

Nada.

— Agora estão dizendo que foi acidente doméstico.

A boneca continuou inerte.

— Acidente doméstico é ótimo, né? A pessoa quebra por dentro, sangra por fora, vira assunto da cidade inteira, mas, se aconteceu dentro de casa, pronto: doméstico. Quase fofo. Quase decoração.

Ana Paula ficou em silêncio.

Houve um tempo, não muito distante, em que a boneca responderia.

Ou Ana Paula acreditava que responderia.

Na primeira semana de febre, quando a pele ardia e as manchas ainda pareciam sujeira, a boneca falava muito. Falava com voz fina, debochada, impaciente. Dava palpites, fazia comentários, achava tudo cafona. Chamava os médicos de homens com diploma e medo. Chamava Ana Paula de “minha contaminadinha trágica”, o que era ofensivo, mas, de algum modo absurdo, reconfortante.

Depois parou.

Ou Ana Paula melhorou.

Nunca soube qual das duas coisas era pior.

Desde então, a boneca apenas assistia.

E Ana Paula, que já perdera o direito a muitos tipos de companhia, aceitava aquela presença imóvel como quem aceita uma cadeira vazia à mesa: não conversa, mas impede que o silêncio se sinta dono da casa.

Sentou-se no chão.

A madeira estava fria.

— Viralizou tudo — contou. — A festa, o toque, a luva, o “Boom”. Principalmente o “Boom”. Essa cidade tem um talento enorme para encontrar a legenda mais idiota no meio do fim do mundo.

A boneca parecia olhar para o vão da porta.

— Estão me chamando de bomba humana. De praga fina. De Chernobyl de luva. Teve um que escreveu “Emily em Paris radioativa”. Confesso que essa foi quase boa.

Ela sorriu sem vontade.

— Você teria gostado.

O quarto permaneceu imóvel.

Na sala, a televisão seguia falando. A voz da jornalista atravessava o corredor em pedaços: estado grave, investigação preliminar, família preserva silêncio, equipe médica.

Família preserva silêncio.

Ana Paula abaixou os olhos.

Silêncio era uma dessas palavras bonitas que os ricos usavam quando ainda podiam escolher o que não dizer.

O celular vibrou em sua mão.

Ela olhou.

Mais mensagens.

Mais links.

Mais gente que nunca chegaria perto perguntando se ela estava bem com uma curiosidade cuidadosamente fantasiada de preocupação.

Rolou a tela sem abrir nada.

Então a galeria de fotos apareceu por acidente.

Ou por maldade.

Havia imagens antigas ali. Gente sorrindo demais. Dias com sol demais. Uma vida anterior costuma ser muito sem noção dentro de uma tela: fica se oferecendo inteira, colorida, sem qualquer respeito pelo que veio depois.

Ana Paula tocou sem querer numa foto.

A imagem abriu.

Uma área de lazer.

Piscina azul.

Cadeiras de plástico.

Copos descartáveis.

Três amigas rindo com os cabelos molhados, os óculos escuros tortos e aquela felicidade preguiçosa dos dias em que o corpo ainda parece uma coisa confiável. Ana Paula estava no canto da foto, bronzeada, viva, usando um vestido leve por cima do biquíni. Tinha nas mãos a bonequinha de pano.

A mesma.

Naquele dia, alguém havia brincado que a boneca parecia uma madame francesa sequestrada para um churrasco.

Ana Paula lembrou do cheiro de protetor solar.

Lembrou da música ruim tocando alto.

Lembrou de uma amiga dizendo que todo verão era uma tentativa fracassada de ser rica.

E lembrou do menino.

A lembrança não entrou devagar.

Arrombou.

Ele surgiu pelo portão lateral como se fugisse de alguma coisa que ninguém via. Devia ter doze, treze anos. Talvez menos. Talvez mais. A doença altera a idade das memórias. Estava branco. Não branco de susto. Branco de coisa apagada. Branco de parede antiga. Branco de quem tinha sido lavado pelo avesso.

Ninguém entendeu.

Uma das mulheres gritou.

Outra levantou.

O menino correu.

Não pediu ajuda. Não olhou para ninguém. Apenas correu na direção da piscina com uma urgência tão feroz que parecia não querer entrar na água, mas atravessá-la.

Pulou.

O impacto foi violento.

Água para todos os lados.

Copos caíram.

A música continuou tocando, indecente, porque aparelhos eletrônicos não têm senso de ocasião.

Ana Paula lembrava de ter segurado a boneca contra o peito.

Lembrava do vestido da boneca molhado por respingos.

Lembrava dos olhos do menino surgindo na superfície.

Muito abertos.

Muito claros.

Como se a piscina inteira estivesse olhando por eles.

Depois vieram os gritos. Homens correndo. Alguém mandando sair da água. Alguém perguntando de quem era aquela criança. Alguém dizendo que ele estava doente. Alguém dizendo para não tocar. Alguém tocando mesmo assim.

Sempre havia alguém tocando mesmo assim.

Ana Paula fechou a foto.

Mas a lembrança não fechou com ela.

No chão do quarto, a boneca continuava imóvel.

Só que agora havia alguma coisa errada.

Ana Paula inclinou o corpo.

O vestido da boneca parecia seco. As pernas de pano também. O chapéu continuava torto, a boca costurada, a pose insolente de parisiense arruinada.

Mas os olhos estavam úmidos.

Dois pontos brilhantes, impossíveis, pequenos demais para serem lágrima e grandes demais para serem ilusão.

Ana Paula não respirou.

Por um instante, a casa inteira pareceu submersa.

Da sala, a televisão anunciou, mais uma vez, que Rômulo Fagundes seguia internado após um acidente doméstico.

A boneca encarava o vão da porta.

E havia água em seus olhos.

ANA PAULA Capítulo
Retome o Capítulo 3, aqui.
Acompanhe a série “Ana Paula”, aqui.
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