Por: Paulo Ricardo Zargolin
Capítulo 5
O FERIADO
O clube amanhecera cheio.
Era feriado na cidade, desses em que as pessoas acordam convencidas de que descansar exige companhia. O estacionamento lotava antes do almoço. Crianças corriam entre mesas de plástico. O cheiro de protetor solar disputava espaço com carvão, cerveja e cloro. Caixas de som espalhavam músicas que ninguém escolhera de verdade, mas que todos fingiam conhecer.
Na área infantil, uma menina construía um castelo de areia perto do parquinho.
Devia ter quatro anos.
Cinco, no máximo.
A mãe conversava com outra mulher enquanto mantinha aquele tipo de vigilância que só parece absoluta até o instante em que deixa de existir.
— Não sai daí, ouviu?
A menina respondeu com um “tá” tão automático quanto todos os “tás” da infância.
Continuou brincando.
Por alguns minutos.
Depois cansou.
Castelos têm um defeito estrutural: quando ficam prontos, deixam de oferecer trabalho.
Levantou-se.
Olhou em volta.
O mundo dos adultos sempre pareceu interessante justamente porque nunca era feito para crianças.
Seguiu caminhando.
Primeiro passou pelos brinquedos.
Depois pela lanchonete.
Parou diante da piscina infantil.
A água brilhava sob o sol como se tivesse sido inventada naquela manhã.
A menina mergulhou apenas os pés.
A água estava morna.
Sorriu.
Fez pequenas ondas com os dedos.
Ficou ali algum tempo, completamente ocupada pela ciência inútil de deslocar água de um lado para outro.
Então percebeu.
A mãe não estava mais por perto.
Olhou para trás.
Nenhum rosto conhecido.
Nenhuma voz chamando seu nome.
A descoberta produziu um segundo de hesitação.
Mas o medo infantil dura pouco quando o mundo ainda parece uma enorme promessa.
Saiu da piscina.
À frente havia um pequeno portão de ferro separando a área infantil da piscina principal.
Empurrou.
O trinco era leve.
Passou.
Ali tudo parecia diferente.
As espreguiçadeiras eram maiores.
Os guarda-sóis mais elegantes.
As conversas mais baixas.
Até o silêncio dos adultos parecia mais caro.
A menina caminhou devagar pela borda da piscina.
Os pés pequenos escorregavam de leve sobre o piso úmido.
Por um instante, aproximou-se demais da água.
O tênis perdeu aderência.
O corpo inclinou.
Mas ela recuperou o equilíbrio antes da queda.
Não porque fosse habilidosa.
Porque alguma coisa desviou completamente sua atenção.
Uma boneca.
Estava recostada numa espreguiçadeira, como se estivesse aproveitando o feriado.
Vestido claro.
Chapéuzinho.
Pernas de pano cruzadas com uma elegância improvável.
Parecia esperar alguém.
A menina abriu um sorriso.
Esqueceu imediatamente a piscina.
Correu até a cadeira.
Quando estendeu a mão para pegar a boneca, ouviu uma voz atrás de si.
— Ela gosta quando pedem licença.
A menina virou-se.
A mulher era muito bonita.
Não havia nela nada que chamasse atenção por excesso.
Era justamente o contrário.
Tudo parecia repousar no lugar certo.
A pele tinha um tom rosado e saudável, como quem acabara de voltar de uma caminhada ao sol.
Os cabelos caíam lisos sobre os ombros, brilhando com a naturalidade das coisas que não precisam provar beleza.
Os olhos sorriam antes da boca.
Ela segurava dois copinhos de sorvete.
Estendeu um deles para a menina.
— Você aceita?
A criança olhou primeiro para o sorvete.
Depois para a boneca.
Depois para a mulher.
Assentiu.
Sentaram-se lado a lado na espreguiçadeira.
A menina colocou a boneca entre as duas.
Conversaram sobre assuntos importantes.
Qual era o nome da boneca.
Se ela dormia.
Se bonecas francesas gostavam de piscina.
Se nuvens tinham mãe.
Em algum momento, começaram a rir.
A boneca permaneceu imóvel.
Mas parecia participar da conversa com uma discrição muito antiga.
Foi então que um grito atravessou o clube.
— Laura!
A mãe vinha correndo.
O rosto desfeito pelo susto.
Os cabelos desalinhados.
Os olhos procurando a filha com aquele desespero que só existe entre o desaparecimento e o reencontro.
Quando viu a menina sentada, diminuiu a velocidade.
Abraçou-a com força.
— Meu Deus… eu procurei você por toda parte…
A menina apontou para a mulher.
— Eu tava brincando com ela.
A mãe levantou os olhos.
Sorriu por educação.
Depois tornou a olhar.
O sorriso desapareceu.
Ficou parada.
Como se alguma lembrança muito antiga tivesse acabado de atravessar seu corpo.
Observou o rosto da mulher.
Os cabelos.
A pele.
Os olhos.
Deu um passo à frente.
Outro.
A voz saiu baixa.
Quase um pedido.
— Ana…?
A mulher sorriu.
O mesmo sorriso tranquilo com que oferecera o sorvete.
A mãe levou lentamente a mão à boca.
Não havia manchas.
Não havia luvas.
Não havia qualquer sinal daquela palidez impossível.
A pele parecia viva.
Mais viva do que a lembrança permitia.
Ela respirou com dificuldade.
Então perguntou, quase sem acreditar na própria pergunta:
— Você… se curou?
Ana Paula apenas a olhou.
E continuou sorrindo.




