Por: Paulo Ricardo Zargolin
No começo, havia uma escolinha improvisada.
Era início dos anos 1990, e minha vida escolar começou no Centro Comunitário da Cohab JACB, que a boca do povo, sempre mais íntima que os documentos, chamava de Jaquibê. Devo ter ficado ali poucos meses, talvez o bastante para que a lembrança nascesse mais como chão inaugural do que como ano letivo inteiro.
Eu não passei pela creche. Entrei no Jardim 1 como quem chega ao mundo escolar sem muita cerimônia, carregando uma lancheira, alguma curiosidade e nenhum pressentimento de destino.
Depois veio o Arapuã.
Lá cursei parte do Jardim 1 e o Pré. Talvez o bairro não fosse tão distante assim, mas a infância aumenta as distâncias. Para uma criança, atravessar bairros é quase atravessar países. Eu morava na Cohab, mas estudava onde o mundo parecia começar depois de muitas esquinas.
Até que, na rua da minha casa, fizeram outra escolinha. Provisória, também. Mas bonita, arrumada, com jeito de promessa enquanto a escola grande ainda nascia em algum ponto do bairro. Falava-se no CAIC como quem falava de futuro. Um prédio colorido, enorme, desses que pareciam sair do chão já com destino de virar lembrança.
E virou.
Estudei no CAIC da 2ª à 4ª série. No histórico escolar, ele aparece com nome de documento: EEPG José Antônio Caparroz Bogaz. Nome comprido, respeitável, oficial. Mas a memória não costuma obedecer ao cartório. Para mim, foi e continuou sendo o CAIC.
Grande. Colorido. Bonito.
E com uns barrancos maravilhosos.
Barrancos bons de escorregar na terra, de sujar a roupa, de chegar em casa carregando no corpo a prova do crime. Minha mãe tinha razão de brigar. Eu também tinha razão de escorregar. Há alegrias que a infância comete antes de aprender a pedir desculpas.
O CAIC ficou assim dentro de mim: escola e chão. Prédio e poeira. Lousa e terra. Nome oficial no papel, apelido vivo na memória.
Anos depois, quando eu já havia cursado Letras na Unijales e estudava Psicologia na FUNEC, em Santa Fé do Sul, surgiu a possibilidade de fazer Pedagogia pela UFSCar. Inscrevi-me no vestibular quase por inércia, desses gestos que a gente faz sem saber que está empurrando uma porta antiga.
Quase não fui fazer a prova.
Mas fui.
Quando saiu o resultado, descobri que o polo da Universidade Aberta do Brasil funcionava justamente ali.
No CAIC.
O prédio da infância me recebia de novo, agora sem barranco aparente, sem roupa suja, sem bronca de mãe. Voltei como jovem universitário, procurando outros desníveis. Outros riscos. Outras quedas. Outras formas de aprender a subir.
Formei-me.
A Pedagogia, que primeiro me encontrou como aluno, depois me tomou por inteiro. Trabalhei em Fernandópolis, Jales e Birigui. Fui técnico, educador, gestor, formador. Passei por salas, reuniões, relatórios, famílias, equipes, políticas públicas, urgências, delicadezas e impossíveis cotidianos. A educação me deu régua, estrada, cansaço e sentido.
Mais tarde, veio a tutoria pela UFTM, no polo de Matão. Entrei buscando renda, experiência, movimento. Mas a vida, quando quer dizer alguma coisa, raramente avisa antes. Ela apenas reorganiza os caminhos e espera que a gente perceba.
Percebi quando Jales voltou a aparecer.
E, com Jales, o CAIC.
Assumi a tutoria também no lugar onde, um dia, fui menino. Continuei acompanhando Matão, mas passei a estar presente nas provas dos estudantes de Pedagogia em Jales, naquele mesmo território que já havia me recebido criança, universitário e, agora, tutor.
Não voltei para visitar uma escola.
Voltei para ocupar outro lugar dentro dela.
O menino que escorregava nos barrancos do CAIC retornou para acompanhar futuros pedagogos. A terra da infância virou chão de formação. A brincadeira virou metáfora. A memória, sem pedir licença, virou ofício.
Talvez os barrancos nem existam mais. Talvez tenham sido cobertos, nivelados, corrigidos pela engenharia dos anos. Mas alguns relevos não ficam no terreno. Ficam na gente.
E eu, que tantas vezes pensei estar seguindo adiante, descubro agora que avançar também pode ser uma forma de voltar.
A vida não anda em linha reta.
Ela escorrega.
Ela sobe.
Ela suja a roupa.
Ela faz a mãe brigar, o tempo passar, o prédio mudar de função, o menino crescer, o estudante se formar, o tutor retornar.
Um dia, desci aqueles barrancos por brincadeira.
Hoje, entendo: passei a vida inteira aprendendo a subir por eles.




