Logosgrafia Apresenta: “É um ratinho?”, de Guido van Genechten

Em É um ratinho?, cada imagem parece oferecer uma resposta — até que uma dobra, um movimento ou uma nova perspectiva transforma aquilo que parecia certo. O livro convida a criança a observar, imaginar, levantar hipóteses e descobrir que uma imagem pode guardar muito mais do que mostra à primeira vista.
Livro de imagem Autor e ilustrador: Guido van Genechten Educação Infantil Leitura, imaginação e investigação

Um livro sem narrativa verbal não é um livro sem história. Em obras como É um ratinho?, de Guido van Genechten, a narrativa acontece por meio das imagens, das formas, das cores, das dobras e das relações que o leitor constrói entre uma página e outra.

A criança não recebe tudo pronto. Ela observa uma parte da imagem, procura pistas, compara possibilidades e tenta antecipar aquilo que poderá aparecer. Ao abrir a página, descobre que a figura inicial podia transformar-se em algo diferente do que havia imaginado.

Antes de descobrir o que a imagem “é”, a criança experimenta aquilo que ela “poderia ser”.

Essa dinâmica faz da leitura uma pequena experiência investigativa. A pergunta presente no título não solicita apenas a identificação de um animal. Ela inaugura um jogo de percepção: o que estamos vendo, quais pistas encontramos e que outras formas podem surgir a partir delas?

Um livro para ler com os olhos, o corpo e a imaginação

Durante a leitura, as crianças podem apontar detalhes, movimentar o corpo para representar os animais, nomear cores, imitar sons, discordar dos colegas e modificar suas hipóteses. A experiência literária, portanto, não se limita à escuta silenciosa nem à procura de uma resposta correta.

O livro cria condições para que cada criança participe conforme suas possibilidades. Algumas poderão nomear os animais; outras apontarão elementos das imagens, produzirão sons, realizarão gestos ou demonstrarão surpresa diante das transformações. Todas essas manifestações podem ser reconhecidas como formas legítimas de leitura e participação.

Observar

Perceber linhas, cores, formatos, posições e pequenos indícios presentes nas imagens.

Levantar hipóteses

Imaginar o que poderá aparecer e justificar as próprias ideias a partir das pistas encontradas.

Comunicar

Expressar descobertas por meio da fala, dos gestos, dos movimentos, dos sons e das produções gráficas.

Reformular

Perceber que uma hipótese pode ser modificada quando surgem novas informações.

O diálogo com a BNCC

Na Educação Infantil, a BNCC organiza o currículo a partir dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento e dos campos de experiências. Isso significa que o livro não precisa ser utilizado como pretexto para exercícios isolados ou para a antecipação de conteúdos escolares.

Sua potência está nas experiências que pode favorecer: brincar com as imagens, participar da leitura, explorar diferentes formas de expressão, comunicar descobertas, conviver com interpretações distintas e construir conhecimentos por meio da curiosidade.

Considerando especialmente o trabalho com crianças bem pequenas — de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses , a proposta pode dialogar com objetivos como:

EI02EF01

Dialogar com crianças e adultos, expressando desejos, necessidades, sentimentos e opiniões.

EI02EF03

Demonstrar interesse e atenção ao ouvir a leitura de histórias e outros textos, diferenciando escrita e ilustrações e acompanhando a leitura realizada pelo adulto.

EI02EF04

Formular e responder perguntas sobre a história, identificando personagens, cenários e acontecimentos.

EI02EF05

Relatar experiências, fatos, histórias ouvidas e produções audiovisuais assistidas.

EI02EF06

Criar e contar histórias oralmente com base em imagens ou temas sugeridos.

EI02CG05

Desenvolver progressivamente habilidades manuais em experiências de desenhar, pintar, rasgar, folhear e manipular diferentes materiais.

EI02TS02

Explorar cores, texturas, superfícies, formas e volumes ao criar com materiais variados.

EI02ET04

Identificar relações espaciais, como dentro e fora, em cima e embaixo, entre e ao lado, além de relações temporais como antes, durante e depois.

EI02ET05

Classificar objetos considerando atributos como tamanho, cor, peso e forma.

Importante: os objetivos da BNCC não precisam ser mobilizados todos ao mesmo tempo. O professor deverá selecionar aqueles que correspondem às experiências realmente planejadas, à faixa etária e aos interesses manifestados pelo grupo.

Como realizar a leitura

1

Apresente o livro

Convide as crianças a observar a capa, o formato, as cores e os elementos que aparecem inicialmente. Leia o título e acolha as primeiras hipóteses sem revelar antecipadamente as transformações.

2

Leia sem pressa

Permita que as crianças examinem cada imagem. Faça pausas verdadeiras: o tempo de observação é parte da leitura, e não um intervalo entre duas falas do professor.

3

Acolha diferentes interpretações

Em vez de perguntar apenas “que animal é esse?”, incentive a investigação: “O que você percebeu?”, “Onde está essa pista?” ou “Alguém imaginou outra coisa?”.

4

Valorize a surpresa

Ao revelar a transformação da imagem, observe as reações das crianças. Não é necessário explicar imediatamente. O espanto, o riso, o gesto e a vontade de rever a página também fazem parte da experiência estética.

5

Retome o livro

Em uma segunda leitura, as crianças já conhecem algumas surpresas e podem observar como cada transformação foi construída. Reler não significa repetir mecanicamente: significa descobrir outras camadas da obra.

Perguntas que ampliam a experiência

  • O que você está vendo?
  • O que fez você pensar nisso?
  • Qual parte da imagem parece com um animal?
  • O que poderá aparecer quando abrirmos a página?
  • Alguém imaginou uma coisa diferente?
  • O que mudou na imagem?
  • Quais formas e cores continuaram iguais?
  • Que som esse animal poderia fazer?
  • Como ele poderia se movimentar?
  • Em que outra coisa essa forma poderia se transformar?

As perguntas não devem formar um interrogatório nem funcionar como teste de atenção. Elas são convites para olhar novamente, compartilhar ideias e perceber que diferentes leitores podem construir diferentes caminhos de interpretação.

Possíveis desdobramentos

Jogo das transformações

Disponibilize formas geométricas, recortes ou manchas para que as crianças imaginem no que cada elemento pode se transformar.

Desenho com surpresa

Produza desenhos em folhas dobradas, criando uma imagem inicial que se modifica quando a folha é aberta.

Corpo de animal

Convide o grupo a experimentar movimentos, gestos e sons inspirados nos animais encontrados durante a leitura.

Caixa de imagens

Reúna fotografias, silhuetas e fragmentos de figuras para que as crianças comparem cores, tamanhos, formas e texturas.

Nova página coletiva

Crie com as crianças uma página inspirada na lógica do livro, registrando as hipóteses e decisões do grupo.

Pesquisa sobre animais

Retome os animais que despertaram maior curiosidade e procure informações em livros, imagens e outros materiais selecionados pelo professor.

O desdobramento não precisa acontecer imediatamente. Também não é necessário transformar toda leitura literária em uma sequência de tarefas. Em muitos momentos, ler, conversar, observar novamente e permitir que o livro permaneça disponível ao grupo já constitui uma experiência completa e significativa.

O vídeo como recurso complementar

O recurso audiovisual pode ampliar o contato com a obra, favorecer uma retomada da narrativa e apoiar situações em que o livro físico não esteja disponível para todas as crianças. No entanto, ele não substitui integralmente a experiência de manusear o livro, observar suas dobras e controlar o próprio tempo de leitura.

Uma possibilidade é realizar primeiro a leitura mediada com o livro físico e utilizar o vídeo posteriormente, convidando as crianças a comparar as duas experiências: o que perceberam novamente, quais detalhes haviam passado despercebidos e de qual forma de leitura mais gostaram.

Recurso complementar: apresentação audiovisual de É um ratinho?, de Guido van Genechten.

A mediação docente faz diferença

Trabalhar com um livro de imagem não significa abandonar a intencionalidade pedagógica. Significa deslocá-la. O professor não precisa conduzir todas as crianças até uma única interpretação, mas organizar condições para que observem, formulem hipóteses, comuniquem suas ideias e ampliem progressivamente suas formas de ler.

Uma mediação potente não antecipa todas as respostas. Ela sustenta a curiosidade, acolhe os gestos e as falas, devolve perguntas ao grupo e reconhece que o pensamento infantil também se manifesta por meio do corpo, do silêncio, da repetição e do desejo de olhar mais uma vez.

O professor não lê a imagem no lugar da criança. Ele cria condições para que a criança se reconheça como leitora.

O que observar e documentar

Avaliar não é verificar quem acertou o animal.

Durante as experiências, o professor pode observar como cada criança participa da leitura; quais detalhes percebe; como comunica suas hipóteses; se acompanha as transformações das imagens; como reage às ideias dos colegas; quais gestos, sons e palavras utiliza; e de que maneira retoma elementos do livro em brincadeiras e produções posteriores.

Fotografias, pequenas transcrições de falas, registros das hipóteses, desenhos e anotações do professor podem compor a documentação pedagógica. Esses materiais ajudam a tornar visíveis os processos de aprendizagem sem reduzir a experiência a resultados padronizados.

Literatura como experiência, não como pretexto

É um ratinho? mostra que um livro aparentemente simples pode mobilizar observação, imaginação, linguagem, expressão corporal, percepção espacial, investigação e criação. Isso ocorre não porque a obra “ensine conteúdos” de maneira direta, mas porque oferece uma forma singular de olhar e de pensar.

Ao aproximar literatura, brincadeira e investigação, o professor preserva a dimensão estética da obra e, ao mesmo tempo, cria experiências coerentes com os princípios da Educação Infantil. A BNCC aparece, então, não como uma lista acrescentada posteriormente ao planejamento, mas como referência para compreender as aprendizagens que emergem das interações entre crianças, adultos, imagens, materiais e histórias.

Talvez o maior convite do livro seja justamente este: antes de ensinar a criança a procurar respostas prontas, permitir que ela descubra o prazer de formular uma boa pergunta.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018.

GENECHTEN, Guido van. É um ratinho? São Paulo: Gaudí Editorial.

GRUPO EDITORIAL GLOBAL. É um ratinho?: projeto de leitura. Material de apoio pedagógico.

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