Ninguém entra sozinho numa sala cheia de gente
Parece uma frase contraditória.
Não é.
Quando alguém entra em um grupo, não leva apenas o próprio corpo, uma cadeira e eventualmente um caderno. Leva expectativas, medos, experiências anteriores, maneiras de interpretar o mundo, relações já vividas e uma coleção razoavelmente organizada — ou nem tanto — de ideias sobre o que os outros esperam dela.
E os outros fazem exatamente a mesma coisa.
Talvez por isso os grupos sejam lugares tão extraordinários para aprender e, ao mesmo tempo, tão eficientes para produzir ansiedade, resistência, conflito, silêncio, liderança, alianças e aquela vontade ocasional de fingir que a reunião foi cancelada.
É nesse território que se movimenta Enrique Pichon-Rivière em O processo grupal.
Não estamos diante de um simples manual sobre como coordenar grupos. A obra reúne textos produzidos em diferentes momentos do percurso intelectual do autor e permite acompanhar a construção de uma psicologia social preocupada com algo fundamental: compreender o sujeito não como uma criatura isolada, mas como alguém constituído em relações.
💡 IDEIA PARA LEVAR NA BAGAGEM
Para compreender uma pessoa, olhar apenas para ela pode ser pouco.
É preciso olhar também para os vínculos dos quais participa, para os grupos aos quais pertence e para a realidade na qual esses vínculos acontecem.
Do indivíduo ao vínculo
Uma das movimentações mais importantes realizadas por Pichon-Rivière é justamente retirar o indivíduo de uma espécie de cápsula psicológica.
O sujeito possui um mundo interno, evidentemente. Mas esse mundo não surge do nada.
As relações vividas são internalizadas. Pessoas, objetos e experiências passam a compor uma estrutura interna de vínculos que continua interferindo na maneira pela qual o sujeito percebe, interpreta e estabelece novas relações.
O que acontece entre as pessoas, portanto, deixa de ser mero cenário.
Passa a fazer parte do próprio fenômeno psicológico.
Essa perspectiva ajuda a entender por que duas pessoas podem participar da mesma situação e vivê-la de maneiras completamente diferentes. Cada uma chega ao encontro carregando uma história de vínculos e uma determinada maneira de organizar a experiência.
E então elas se encontram.
Pronto.
Começou o problema.
Ou, para sermos pichonianos, começou a possibilidade de transformação.
🔵 VÍNCULO NÃO É SIMPLESMENTE RELAÇÃO
O vínculo envolve sujeito, objeto e a interação existente entre eles.
Não estamos falando apenas de “duas pessoas que se relacionam”, mas de uma estrutura dinâmica na qual cada participante interpreta e transforma o outro — e também é transformado por ele.
É por isso que compreender um vínculo exige perguntar não somente quem são essas pessoas, mas o que acontece entre elas.
O grupo não é a soma das cadeiras
Colocar oito pessoas numa sala não produz automaticamente um grupo.
Produz oito pessoas numa sala.
O grupo começa a adquirir outra qualidade quando existe entre seus integrantes uma relação organizada em torno de necessidades, objetivos, vínculos e, especialmente na formulação pichoniana, de uma tarefa.
E aqui aparece uma das ideias mais férteis de O processo grupal.
Um grupo não pode ser compreendido apenas por aquilo que declara estar fazendo.
É preciso observar também como ele se organiza para conseguir — ou evitar — fazer aquilo que deveria fazer.
É uma diferença considerável.
Uma equipe pode reunir-se oficialmente para elaborar um projeto e passar uma hora discutindo detalhes periféricos.
Uma turma pode estar reunida para aprender e desenvolver estratégias sofisticadíssimas para não entrar em contato com aquilo que precisa aprender.
Uma comissão pode ter uma tarefa perfeitamente registrada em ata e, simultaneamente, construir uma dinâmica coletiva dedicada a impedir que ela aconteça.
Pichon-Rivière provavelmente teria bastante material de pesquisa em qualquer reunião contemporânea.
Tarefa, pré-tarefa e projeto
A tarefa ocupa posição central nessa concepção de grupo.
Não se trata simplesmente da atividade prescrita — “ler um texto”, “resolver um problema”, “planejar uma ação”. A tarefa envolve um processo de elaboração que exige do grupo enfrentar obstáculos, reorganizar formas de pensar e modificar-se durante o percurso.
Antes disso, porém, frequentemente aparece a pré-tarefa.
É o território das resistências.
Diante da mudança, surgem mecanismos que permitem ao grupo parecer ocupado sem necessariamente enfrentar aquilo que o mobiliza.
A resistência não deve ser entendida apenas como preguiça, má vontade ou incompetência. Há ansiedades envolvidas. Mudar implica abandonar determinadas estruturas conhecidas e entrar em contato com uma situação ainda não dominada.
Quando consegue atravessar esse movimento, o grupo pode chegar ao projeto: uma possibilidade de posicionar-se diante do futuro a partir daquilo que aprendeu e transformou.
🔷 TRÊS PALAVRAS PARA OBSERVAR UM GRUPO
PRÉ-TAREFA
O grupo mobiliza defesas e resistências diante da mudança.
TAREFA
O grupo enfrenta aquilo que precisa elaborar e começa efetivamente a trabalhar sobre seu objeto.
PROJETO
O aprendizado produzido permite reorganizar a ação e projetar novas possibilidades.
O interessante é que essas dimensões não precisam ser imaginadas como três gavetas perfeitamente separadas. A dinâmica grupal é movimento.
Por que mudar incomoda tanto?
Porque o conhecido pode ser ruim e ainda assim continuar sendo conhecido.
A mudança ameaça equilíbrios já estabelecidos. Pichon-Rivière identifica nesse processo ansiedades fundamentais relacionadas à perda da estrutura existente e ao ataque que pode vir da nova situação.
Em linguagem menos acadêmica:
“E se eu perder aquilo que já sei?”
e
“E se eu não souber lidar com aquilo que vem depois?”
Boa parte da resistência grupal pode ser compreendida nesse intervalo.
Isso torna a proposta particularmente interessante para a Educação.
Quando uma equipe resiste a uma mudança, por exemplo, a pergunta pode deixar de ser simplesmente:
“Por que essas pessoas não querem fazer?”
e tornar-se:
“O que essa mudança está colocando em risco para esse grupo?”
A segunda pergunta costuma produzir respostas bem mais interessantes.
🌊 RESISTÊNCIA TAMBÉM COMUNICA
Silêncios, desvios de assunto, conflitos aparentemente laterais, dependência excessiva de uma liderança ou insistência em determinadas rotinas podem não ser apenas obstáculos.
Podem ser pistas.
Em vez de perguntar somente como eliminar a resistência, talvez seja mais produtivo perguntar o que ela está dizendo sobre a relação do grupo com a tarefa.
Os personagens que o grupo fabrica
Outro aspecto especialmente interessante é a emergência de papéis.
Em determinadas situações, integrantes podem assumir funções como liderança, porta-voz, sabotagem ou bode expiatório.
O detalhe importante é este:
o papel não deve ser compreendido apenas como característica individual.
O porta-voz, por exemplo, pode expressar algo que pertence à dinâmica do grupo, ainda que seja ele quem coloque aquilo em palavras ou comportamento.
O bode expiatório pode concentrar aspectos negativos que o conjunto deposita sobre determinado integrante.
O líder pode assumir expectativas e necessidades coletivamente produzidas.
E aquele integrante aparentemente empenhado em sabotar a tarefa talvez esteja ocupando uma posição que também só existe porque encontra condições para existir naquele grupo.
Isso desloca novamente a pergunta.
Em vez de:
“Qual é o problema dessa pessoa?”
podemos perguntar:
“Por que esse grupo precisa que alguém ocupe esse lugar?”
E a sala inteira muda de figura.
ECRO: ninguém observa o mundo sem algum tipo de óculos
Entre os conceitos associados ao pensamento de Pichon-Rivière está o ECRO — Esquema Conceitual, Referencial e Operativo.
O nome parece exigir três cafés.
A ideia é mais amigável.
Nós interpretamos a realidade a partir de referências. Conceitos, experiências, conhecimentos e maneiras de compreender o mundo formam esquemas com os quais lemos aquilo que acontece e decidimos como agir.
Um esquema útil, porém, não pode transformar-se numa moldura tão rígida que obrigue a realidade a caber dentro dele.
Ele precisa permanecer aberto à experiência.
Conhecer, nessa perspectiva, não é acumular conceitos para contemplá-los numa estante intelectual.
Conhecer precisa ajudar a operar sobre a realidade.
🧠 ECRO, SEM PÂNICO
Esquema — porque organiza elementos.
Conceitual — porque trabalha com conceitos.
Referencial — porque oferece referências para interpretar uma situação.
Operativo — porque deve servir para agir sobre a realidade.
Um conhecimento que nunca modifica nossa maneira de olhar ou agir corre o risco de virar apenas decoração teórica.
Aprender é modificar-se
Aqui talvez esteja uma das ideias mais bonitas da obra.
A aprendizagem não aparece simplesmente como armazenamento de informações.
Aprender envolve transformação.
O sujeito aprende ao entrar em contato com o objeto, operar sobre ele e, nesse movimento, modificar também a si mesmo. É por isso que comunicação, aprendizagem, vínculo e mudança aparecem tão profundamente relacionados.
A adaptação saudável não significa submissão passiva ao mundo.
Pichon-Rivière trabalha com uma perspectiva de adaptação ativa à realidade: compreender, atuar, transformar e transformar-se.
Há uma diferença gigantesca entre adaptar-se porque “as coisas são assim” e desenvolver instrumentos para ler criticamente as condições existentes e agir sobre elas.
Talvez seja justamente aqui que O processo grupal continue especialmente provocador para quem trabalha com Educação.
Ensinar não consiste apenas em fazer informações chegarem ao outro.
Se houve aprendizagem verdadeira, alguma coisa na relação do sujeito com a realidade precisou se movimentar.
O grupo operativo
Todas essas ideias encontram uma expressão particularmente importante na proposta dos grupos operativos.
O grupo operativo organiza-se em torno de uma tarefa e utiliza a própria dinâmica grupal como espaço de investigação e aprendizagem.
Isso significa que importa tanto o que o grupo está fazendo quanto o que acontece com o grupo enquanto ele faz.
Quem fala?
Quem permanece silencioso?
Quem centraliza?
Quem interpreta?
Que dificuldades reaparecem?
Que papéis começam a cristalizar-se?
Que assunto surge sempre que o grupo se aproxima de determinado problema?
Que medo parece circular sem jamais ser nomeado?
O grupo torna-se, simultaneamente, espaço de ação e objeto de leitura.
🔎 UMA PERGUNTA MUITO PICHONIANA
Quando um grupo não consegue realizar uma tarefa, talvez o problema não esteja apenas na tarefa.
Pode estar na relação que o grupo construiu com ela.
É uma pequena mudança de perspectiva capaz de produzir uma enorme diferença na maneira de coordenar equipes, formações e situações de aprendizagem.
E o coordenador no meio disso tudo?
Não é o dono da verdade.
Também não deveria transformar o grupo numa plateia dedicada a admirar suas conclusões.
A coordenação observa processos, ajuda a tornar visíveis obstáculos, favorece comunicação e aprendizagem e intervém sobre aquilo que dificulta a realização da tarefa.
Isso exige uma postura particularmente interessante: olhar para além do conteúdo explícito.
Às vezes, aquilo que um grupo diz estar discutindo não é exatamente aquilo que está acontecendo.
Há dimensões implícitas circulando.
Há expectativas.
Há fantasias.
Há ansiedades.
Há relações de poder.
Há histórias anteriores.
Há papéis sendo distribuídos.
E há uma tarefa tentando sobreviver no meio disso tudo.
Por que um educador deveria ler Pichon-Rivière?
Porque Educação acontece em grupos o tempo inteiro.
Turmas são grupos.
Equipes escolares são grupos.
Reuniões pedagógicas são grupos.
Formações continuadas são grupos.
Famílias relacionando-se com instituições também produzem dinâmicas grupais.
E qualquer pessoa que já tenha coordenado uma reunião sabe empiricamente uma coisa que Pichon-Rivière ajuda a compreender teoricamente:
não basta reunir pessoas e apresentar uma tarefa para que um grupo trabalhe sobre ela.
Existem vínculos, resistências, papéis, ansiedades, formas de comunicação e esquemas de referência atravessando aquela situação.
Perceber essas dimensões não oferece uma fórmula para controlar pessoas.
Ainda bem.
Oferece algo melhor: instrumentos para ler processos.
📘 PARA LEVAR PARA A PRÓXIMA REUNIÃO
Quando estiver diante de um grupo, experimente observar:
— Qual é a tarefa explícita?
— O grupo realmente entrou nela?
— O que aparece quando a tarefa começa a provocar mudança?
— Quais papéis estão se formando?
— Quem está dizendo aquilo que talvez o grupo inteiro esteja sentindo?
— Como circula a comunicação?
— O grupo está aprendendo ou apenas repetindo maneiras conhecidas de funcionar?
Talvez você nunca mais consiga assistir tranquilamente a uma reunião de duas horas que poderia ter sido um e-mail.
Para fechar o livro — e continuar olhando para os grupos
O processo grupal não é necessariamente uma leitura leve.
Seu vocabulário carrega marcas da psicanálise, da psiquiatria e dos debates teóricos de seu tempo. Em vários momentos, exige que o leitor diminua a velocidade e reconstrua relações entre conceitos.
Mas existe uma recompensa.
Depois de Pichon-Rivière, torna-se mais difícil olhar para um grupo como simples coleção de indivíduos.
Começamos a enxergar circulação.
Papéis.
Vínculos.
Ansiedades.
Resistências.
Aprendizagens.
Transformações.
E começamos principalmente a desconfiar daquela explicação confortável segundo a qual “fulano é o problema”.
Talvez fulano esteja dizendo alguma coisa.
Talvez o grupo inteiro esteja dizendo alguma coisa através dele.
E talvez compreender essa diferença seja justamente o começo da tarefa.
🌱 Um recadinho para as Sementes
Gostou da conversa e quer ir além da síntese?
O processo grupal, de Enrique Pichon-Rivière, está disponível no Acervo do Logosgrafia para Assinantes Semente.
Porque algumas obras merecem mais do que uma apresentação: merecem ser abertas, revisitadas, discutidas e colocadas em relação com aquilo que fazemos todos os dias.
Sementes têm acesso à obra completa no Acervo. 🌱
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