Logosgrafia Apresenta: Baby-Art — quando a arte começa antes do desenho

Por Paulo Ricardo Zargolin

Durante muito tempo, o trabalho com arte na Educação Infantil foi associado à produção de objetos reconhecíveis: desenhos, pinturas, colagens e lembrancinhas que pudessem ser expostos ou enviados às famílias. Para os bebês, frequentemente restava uma participação conduzida pelo adulto: uma mão carimbada, um pé coberto de tinta ou uma composição cujo resultado já estava previamente imaginado.

Baby-Art: os primeiros passos com a arte, de Anna Marie Holm, desloca radicalmente esse olhar. Em vez de perguntar o que uma criança tão pequena consegue produzir, a autora investiga o que ela pode experimentar quando encontra espaços, materiais, movimentos e adultos disponíveis para acompanhar sua curiosidade.

Publicada no Brasil pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, a obra reúne experiências realizadas com crianças de zero a três anos. Tintas, papéis, tecidos, argila, objetos cotidianos e superfícies pouco convencionais são transformados em possibilidades de investigação. Guarda-chuvas, paredes, caixas, almofadas, roupas, móveis e elementos encontrados no ambiente tornam-se suportes para a criação.

Entretanto, a força do livro não está apenas nas ideias que apresenta. Seu aspecto mais importante é a concepção de criança que sustenta cada experiência: ativa, curiosa, corporal, competente e capaz de produzir sentidos desde os primeiros meses de vida.

Uma criança que conhece o mundo com o corpo inteiro

Nas páginas de Baby-Art, a experiência artística aparece como uma ação inseparável do corpo. A criança observa, toca, sente, movimenta-se, repete gestos, interrompe-os, retorna aos materiais e acompanha as transformações que provoca.

Não há uma divisão rígida entre desenhar, brincar, deslocar-se, conversar e investigar. Tudo compõe uma mesma experiência. Essa compreensão dialoga diretamente com a organização curricular proposta pela Base Nacional Comum Curricular para a Educação Infantil.

Em vez de estruturar o trabalho por disciplinas, a BNCC reconhece as interações e as brincadeiras como eixos estruturantes e organiza o currículo por direitos de aprendizagem, campos de experiências e objetivos voltados aos diferentes grupos etários.

A escolha da palavra experiência não é acidental. Bebês e crianças bem pequenas não aprendem apenas quando um adulto lhes explica alguma coisa. Aprendem enquanto observam, tocam, experimentam, deslocam-se, relacionam-se e percebem os efeitos das próprias ações.

É justamente nesse ponto que o livro de Anna Marie Holm se aproxima da BNCC: a arte não aparece como uma atividade isolada ou como um produto destinado à exposição. Ela se torna uma maneira de investigar o mundo.

O bebê não está sendo preparado para um futuro encontro com a arte. Ele já percebe, transforma, cria e produz marcas no presente.

Conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se

Os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento definidos pela BNCC atravessam as experiências documentadas por Anna Marie Holm.

A criança convive quando cria ao lado de outras crianças, observa seus gestos, compartilha materiais e percebe diferentes maneiras de agir. Ela brinca ao transformar um objeto comum em instrumento, suporte ou elemento de uma narrativa improvisada.

Participa quando pode escolher materiais, movimentos, espaços e tempos, em vez de apenas cumprir comandos previamente determinados. Explora cores, formas, texturas, pesos, superfícies, resistências, sons e possibilidades de movimento.

Expressa-se por meio de gestos, marcas, olhares, vocalizações, deslocamentos e palavras. Também pode conhecer-se, percebendo o próprio corpo, suas preferências, seus limites e sua capacidade de interferir no ambiente.

Esses direitos não aparecem separadamente. Em uma mesma experiência, a criança pode explorar um material, observar outra criança, comunicar uma descoberta, movimentar o corpo, fazer escolhas e perceber o resultado de suas ações.

Muito além de “Traços, sons, cores e formas”

O diálogo mais imediato entre Baby-Art e a BNCC ocorre com o campo de experiências Traços, sons, cores e formas. As propostas ampliam o repertório de gestos, materiais, suportes, cores, texturas e procedimentos colocados à disposição das crianças.

Reduzir o livro a esse único campo, no entanto, seria contrariar a concepção integrada que atravessa a obra.

Quando um bebê alcança um material, muda de posição, engatinha ao redor de uma superfície ou utiliza diferentes partes do corpo para produzir marcas, também vivencia experiências relacionadas a Corpo, gestos e movimentos.

Quando observa outras crianças, compartilha objetos, reage à aproximação do adulto ou interfere em uma produção coletiva, aproxima-se de O eu, o outro e o nós.

Ao escutar narrativas, vocalizar, nomear elementos ou comunicar suas descobertas, articula experiências de Escuta, fala, pensamento e imaginação.

Ao perceber tamanhos, quantidades, deslocamentos, durações, misturas e transformações dos materiais, também estabelece relações com Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.

A arte, portanto, não constitui uma experiência separada das demais dimensões da vida infantil. Ela articula corpo, pensamento, imaginação, convivência, sensibilidade e investigação.

O processo não é uma preparação para o produto

Um dos pontos mais importantes do livro está na recusa de uma arte orientada pelo resultado adulto. As crianças não recebem modelos para copiar nem precisam produzir objetos parecidos entre si.

A pintura pode escorrer, misturar-se, desaparecer, cobrir superfícies ou ultrapassar os limites inicialmente imaginados. O valor está no encontro entre a criança, a matéria, o ambiente e as outras pessoas.

Isso não significa ausência de intencionalidade pedagógica. Existe uma diferença decisiva entre uma experiência aberta e uma situação improvisada sem planejamento.

A professora ou o professor precisa selecionar materiais seguros, organizar o espaço, prever possibilidades de movimento, garantir diferentes formas de acesso, observar as crianças e decidir quando intervir. A intencionalidade não consiste em determinar antecipadamente o resultado, mas em construir condições para que a investigação aconteça.

O adulto que prepara, observa e acompanha

Em muitas propostas tradicionais, a participação adulta é medida pela quantidade de instruções oferecidas. Em Baby-Art, o trabalho docente aparece de outra maneira.

O adulto escolhe o ambiente, apresenta materiais, acompanha aproximações, percebe interesses e sustenta o tempo da experiência. Em vez de ensinar imediatamente a maneira “correta” de utilizar um objeto, observa o que a criança descobre ao manipulá-lo.

Uma criança pode preferir carregar o pincel em vez de pintar. Pode observar longamente antes de tocar. Pode concentrar-se no recipiente, e não na tinta. Pode interessar-se pelos sons produzidos, pelas próprias mãos sujas ou pelo movimento das outras crianças.

Essas ações não representam necessariamente um desvio da proposta. Podem constituir justamente o centro da investigação infantil.

O desafio do educador é interpretar essas ações sem transformar cada gesto em um objetivo escolar artificial. A observação pedagógica deve buscar compreender como a criança participa, quais estratégias cria, o que repete, o que modifica, como se comunica e quais relações estabelece.

Bebês não precisam produzir lembranças para os adultos

O livro também ajuda a questionar práticas ainda comuns nas creches. Muitas vezes, a produção dos bebês é planejada para se tornar um objeto visualmente agradável aos adultos. A professora conduz a mão, delimita o lugar da marca, completa a composição e transforma uma participação mínima em uma suposta obra da criança.

Nesse processo, o produto pode parecer infantil, mas a autoria continua sendo adulta.

Anna Marie Holm segue outra direção. As marcas podem ser irregulares, intensas, discretas ou quase imperceptíveis. Algumas experiências produzem objetos que podem ser guardados; outras existem principalmente como acontecimentos.

Por isso, a documentação pedagógica se torna fundamental. Uma pintura isolada não mostra necessariamente como a experiência aconteceu. É necessário registrar como a criança se aproximou, que movimentos realizou, quanto tempo permaneceu, quais escolhas fez, como reagiu às transformações e como se relacionou com outras pessoas.

A aparente simplicidade exige um olhar sofisticado

Muitas experiências apresentadas no livro utilizam materiais comuns e estruturas aparentemente simples. Essa simplicidade, porém, não deve ser confundida com precariedade ou falta de planejamento.

Uma folha presa à parede produz movimentos diferentes de uma folha colocada sobre a mesa. Pintar no chão exige outras posições corporais. Uma superfície transparente permite observar quem está do outro lado. Um objeto com rodas modifica o gesto e o tipo de marca. Um tecido reage à tinta de maneira diferente do papel.

O espaço, o suporte e o material não funcionam apenas como cenário. Eles participam da experiência.

A leitura do livro pode ajudar o educador a formular perguntas essenciais:

Que movimentos este espaço permite? O material pode ser alcançado e manipulado com autonomia? Há tempo para observar, repetir e modificar a ação? Todas as crianças precisam participar da mesma maneira?

O adulto está acompanhando a experiência ou dirigindo o resultado? O registro revela a criança em ação ou mostra somente o produto final?

Um diálogo necessário com a BNCC

Baby-Art não foi escrito como um manual de implementação da BNCC. Relacionar a obra ao documento curricular não significa afirmar que cada experiência corresponde automaticamente a um objetivo de aprendizagem. Uma associação mecânica reduziria tanto o livro quanto a própria Base.

A aproximação mais importante está na concepção de infância.

Bebês e crianças bem pequenas aprendem ao interagir, brincar, participar, explorar, expressar-se e construir relações com o mundo. A experiência artística constitui um território privilegiado para esses processos porque reúne corpo, matéria, emoção, imaginação, convivência e descoberta.

O livro também nos recorda que nenhuma lista de objetivos consegue garantir, sozinha, a qualidade da prática pedagógica. É possível mencionar a BNCC em um planejamento e continuar oferecendo atividades fechadas, produtos padronizados e pouca participação infantil.

Da mesma forma, é possível trabalhar com materiais muito simples e construir experiências profundas, desde que existam escuta, intencionalidade, tempo, segurança e abertura ao inesperado.

Antes dos primeiros passos

O subtítulo do livro anuncia os “primeiros passos com a arte”. Talvez a expressão ainda seja modesta.

A arte começa antes dos passos. Começa quando o bebê acompanha uma luz, percebe uma sombra, toca uma superfície, amassa um papel, espalha uma substância, produz um som e observa o efeito de seus próprios movimentos.

Anna Marie Holm não apresenta bebês sendo preparados para um contato futuro com a arte. Ela os reconhece como sujeitos que já vivem experiências estéticas e criadoras.

Esse é o principal diálogo entre Baby-Art e a BNCC: bebês e crianças bem pequenas não são espectadores de práticas organizadas pelos adultos. São participantes ativos, produtores de marcas, relações, perguntas e sentidos.

O maior mérito do livro, portanto, não está apenas em apresentar dezenas de possibilidades de trabalho. Está em retirar a arte do domínio da atividade pronta e devolvê-la ao território da experiência.

Nesse território, uma mancha não precisa representar alguma coisa para ter significado. Antes de ser desenho, ela pode ser gesto, encontro, descoberta e presença.

Leia Baby-Art: os primeiros passos com a arte

A obra de Anna Marie Holm está disponível no acervo do Logosgrafia.

Acessar o livro

Logosgrafia Apresenta — Especial Pedagogia e outras ciências

Fediverse reactions

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo

Descubra mais sobre logosgrafia

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo