Por Paulo Ricardo Zargolin
Houve um tempo em que uma voz grave conseguia reorganizar a semana inteira de uma criança.
Não era preciso abrir aplicativo, percorrer catálogos, escolher entre dezenas de opções ou pedir recomendação a um algoritmo. Bastava estar diante da televisão no intervalo de algum programa e ouvir:
“Power Rangers: O Filme!”
A imagem aparecia. As armaduras brilhavam. Ivan Ooze fazia alguma ameaça. Explosões ocupavam a tela. E então Dirceu Rabelo anunciava, com a solenidade de quem comunicava um acontecimento interplanetário:
“Uma galera com superpoderes encarando altos perigos para salvar o universo.”
Altos perigos.
A expressão não precisava fazer muito sentido. Fazia tudo.
Naquele instante, a quinta-feira deixava de ser apenas um dia comum espremido entre a quarta e a sexta. Ela ganhava uma missão. Tínhamos um compromisso com Tommy, Kimberly, Billy, Aisha, Adam e Rocky. Eles precisariam salvar o universo, e nós precisaríamos estar em casa para acompanhar.
Era nesta quinta.
Era na Sessão da Tarde.
Não havia a possibilidade de assistir quando desse vontade. Era preciso aceitar as condições do tempo.
Quem estudava de manhã tinha uma vantagem estratégica. Quem estudava à tarde precisava torcer por um feriado, por uma dispensa inesperada ou por algum milagre pedagógico que jamais ocorria. Quem tinha consulta médica, visita à casa de parentes ou mãe decidida a ir ao centro exatamente naquele horário sentia que o destino havia se levantado ao lado de Ivan Ooze.
Talvez o filme voltasse a passar algum dia.
Talvez não.
Na infância, o “depois” era um território sem garantias.
Por isso, a chamada não era apenas propaganda. Era convocação.
O título era repetido duas vezes em 23 segundos, porque uma só não seria suficiente para comportar a importância da notícia.
Os heróis que víamos diariamente na televisão agora estavam no cinema, mesmo quando assistidos na sala de casa. Tinham armaduras metálicas, detalhes reluzentes, movimentos mais grandiosos e uma aparência que parecia ter vindo do futuro. A série havia crescido. Nós também acreditávamos ter crescido, embora ainda estivéssemos sentados no chão, perto demais da televisão.
Era o mesmo tipo de televisão que entrava em casa, ocupava o chão da sala e transformava gestos, bordões e canções em patrimônio íntimo. Uma televisão que fazia crianças levantarem para acompanhar uma coreografia, como em “Pop, pop: a difícil arte de parecer fácil”, ou permitia que um simples comercial escapasse da tela e virasse brincadeira familiar, como em “Quem bate? É a memória…”.
O filme começava em Alameda dos Anjos.
Para nós, jamais existiu Angel Grove.
Os Power Rangers viviam na Alameda dos Anjos, estudavam na Alameda dos Anjos e salvavam repetidamente a Alameda dos Anjos de criaturas gigantes que insistiam em destruir prédios aparentemente reconstruídos durante a madrugada.
A tradução não causava estranhamento. Ao contrário. Alameda dos Anjos parecia um lugar legítimo, quase localizável, talvez escondido depois de algum bairro que ainda não conhecíamos. Não era uma cidade americana distante. Era o lugar onde Zordon recrutava adolescentes com roupas coloridas para enfrentar monstros depois da aula.
Em algum canteiro de obras, operários desenterravam uma cápsula que deveria ter permanecido intocada. Dentro dela estava Ivan Ooze, um vilão roxo, viscoso, exagerado e estranhamente divertido, preso havia seis mil anos.
Zordon havia conseguido derrotar um tirano intergaláctico, mas aparentemente não encontrara lugar melhor para enterrá-lo do que uma área sujeita à expansão imobiliária.
Nós não questionávamos.
Também não perguntávamos como Ivan conseguiu distribuir gosma para tantas crianças, hipnotizar todos os pais da cidade ou instalar uma operação de trabalho forçado em tempo recorde.
A coerência era menos importante do que a ameaça.
E a ameaça era enorme.
Ivan Ooze destruiu o Centro de Comando, deixou Zordon à beira da morte e arrancou dos Rangers aquilo que, para nós, parecia impossível perder: seus poderes.
A visão de Zordon fora do tubo causava uma tristeza legítima. Ele já não era apenas o rosto flutuante que transmitia instruções. Era um homem frágil, envelhecido, quase morrendo diante de seus protegidos.
Naquele momento, o filme fazia algo que a série raramente conseguia fazer: dava a impressão de que os heróis poderiam fracassar.
Sem poderes, os Rangers partiram para Phaedos em busca do Poder Ninjetti. Encontraram Dulcea, enfrentaram criaturas de pedra, descobriram novos espíritos animais e retornaram com os Ninja Zords.
Tudo parecia maior.
O sapo de Adam podia não soar como a escolha mais imponente do universo, mas até isso se transformava em força quando ele declarava, tentando convencer a si mesmo e aos outros:
“Eu sou um sapo.”
A criança diante da televisão aceitava imediatamente.
Se um sapo podia ser um guerreiro, talvez qualquer um de nós também pudesse.
A batalha final colocava os novos Zords contra Ivan Ooze, enquanto os adultos hipnotizados caminhavam em direção a um penhasco. Crianças precisavam salvar os próprios pais. Rangers precisavam salvar Zordon. O universo dependia de adolescentes que ainda tinham prova, treino e lição de casa.
No fim, Ivan era destruído pelo Cometa Ryan, os adultos despertavam, Zordon revivia e Alameda dos Anjos voltava à paz provisória que duraria até o próximo monstro.
A história terminava.
Mas a tarde ainda permanecia.
Depois do filme, a televisão seguia sua programação como se nada extraordinário tivesse acontecido. A sala começava a escurecer. Alguém chamava para o banho. Havia cadernos abertos pela metade, copos sobre a mesa e a sensação de que o dia havia valido mais do que os outros.
No dia seguinte, o filme continuava na escola.
Alguém imitava uma luta. Outro discutia qual Ranger era o mais forte. Havia sempre quem preferisse Tommy, porque Tommy atravessara cores, poderes e penteados suficientes para parecer invencível.
As crianças repetiam golpes, faziam poses de morfagem e transformavam qualquer objeto comprido em espada.
O filme também oferecia aquela alegria exagerada, física e quase impossível de esconder que pertencia a outros sucessos do cinema dos anos 1990. A mesma década em que uma máscara verde permitia que Stanley Ipkiss ocupasse o mundo inteiro também nos dava armaduras coloridas, robôs gigantes e adolescentes capazes de salvar o universo antes do jantar.
Não tínhamos assistido sozinhos.
Quando a chamada terminava dizendo “Tá todo mundo de olho na Globo”, não era apenas um slogan publicitário. Era quase uma descrição.
Todo mundo estava de olho.
Na mesma emissora.
No mesmo filme.
Na mesma quinta-feira.
A televisão organizava uma espécie de infância coletiva. No dia seguinte, muitas crianças chegavam à escola carregando a mesma referência, a mesma cena favorita e a mesma vontade de discutir se o Megazord venceria qualquer outro herói conhecido.
Era uma televisão capaz de produzir encontros mesmo quando cada espectador permanecia em sua própria casa. Uma televisão que podia transformar um fã em personagem por alguns segundos e milhões de crianças dispersas pelo país em uma única plateia.
Hoje, o acesso ficou mais fácil.
Podemos pausar, voltar, adiantar e abandonar no meio para continuar em outro momento. Podemos rever as armaduras, Ivan Ooze, Dulcea, os Ninja Zords, a destruição do Centro de Comando e a ressurreição de Zordon em poucos segundos.
Mas nunca mais assistiremos como naquela tarde.
Porque o filme não começava quando surgia o logotipo dos Power Rangers.
Começava dias antes, durante a chamada.
Começava na voz de Dirceu Rabelo.
Começava na promessa:
“Nesta quinta, na Sessão da Tarde.”
A espera também fazia parte da aventura.
Talvez seja disso que sentimos saudade.
Não apenas dos Rangers, das armaduras brilhantes ou da Alameda dos Anjos.
Sentimos saudade do tempo em que uma chamada de 23 segundos era capaz de iluminar a semana.
Do tempo em que quinta-feira era longe.
Do tempo em que perder um filme parecia uma tragédia.
Do tempo em que todos assistiam juntos, mesmo estando em casas diferentes.
Não era apenas o universo que os Power Rangers salvavam.
Durante algumas horas, eles salvavam a tarde.
E, naquela idade, isso era quase a mesma coisa.
Hoje, não é preciso esperar.
O filme segue disponível abaixo.
A espera desapareceu.
Mas a Alameda dos Anjos continua lá.
Continue passeando pela estante Nostalgrafia e reencontre outras lembranças que a televisão deixou morando dentro da gente.




