Maracangalha
Capítulo 16
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Ísis havia saído sem dizer para onde, mas Laura ouviu quando ela murmurou “vou tomar um açaí”. Estava quente. Um calor de cansaço, daqueles que fazem a cidade parecer mais embaçada do que nublada. Cristina, da janela, observou até que o portão se fechasse. Só depois respirou. Era o tipo de saída que deixava rastros: perfume no corredor, um gole de água esquecido, fones ainda pendendo do pescoço.
Laura ficou. Sentada no sofá, com um livro no colo, mas sem ler. O rádio, em seu posto antigo, continuava insistente. Estalos, chiados, ruídos que não viravam palavra. Parecia que alguém do outro lado estava tentando falar e não encontrava o idioma.
Cristina apareceu na porta. Segurava as mãos como quem carrega coisa frágil.
— Posso?
— Pode — respondeu Laura, sem erguer os olhos.
A tia sentou-se com cuidado. Apoiou-se na borda do sofá, parecendo que se sentar de todo fosse arriscar demais.
— O Plínio passou aqui mais cedo.
Silêncio.
— Comentou que sente tua falta. Que você anda distante. Eu disse que andava… pensativa.
Outra pausa. O rádio estalou.
— Às vezes eu acho — continuou Cristina, com voz que fingia neutralidade — que você e a Ísis andam… íntimas demais. Não falo por mal. Só observo. Vocês foram criadas como primas.
O livro se fechou. Sem estalo. Apenas o som do fim.
— Cuidado com as palavras, tia.
— Eu só…
— Se for pra falar com meias-palavras, não fale.
— Eu me preocupo.
— Com o quê? Com o que os outros vão pensar? Com o que a Marta pensaria?
— Com você. Com teu futuro. Com tua imagem. Com tua paz.
— Paz não é viver pela metade, tia. Paz não é fingir.
Cristina endireitou a coluna. Encarou a sobrinha. O rosto severo, mas os olhos cansados.
— Você não sabe como era. Na minha época…
— Eu sei. Porque você ainda vive nela.
— E você acha que está pronta pra enfrentar tudo isso? Sozinha? Com essa cidade inteira cochichando?
— Melhor cochichos do que viver calada. Melhor o escândalo do que o arrependimento.
O rádio chiou forte, como se reagisse.
— A Marta… — disse Cristina, baixo, quase para si. — Ela… era mais do que amiga. Mais do que irmã de criação. Mais do que eu soube dizer. Ou permitir.
Laura não respondeu. O ar pareceu mudar de densidade.
— Eu não toquei nela. Nunca. Mas amei. E me calei. Achei que, com o tempo, passava. Não passou. Então tentei me tornar outra coisa. A mulher que costura, que reza, que educa. Mas dentro… ainda tinha ela. Ainda tem.
— Por isso o Plínio?
Cristina assentiu, com um aceno que não precisava ser completo.
— Porque se você se arriscar… Oviu a moça noutro dia? Ela deixou um ex-namorado em São Paulo. E não sei se aguento assistir você sofrendo…
A frase ficou ali, entre elas, refletindo em um espelho sujo. Mostrava, mas não tudo.
Laura respirou. Não havia raiva agora, só um reconhecimento do abismo.
— Eu não sou você, tia. E você não é sua época. A gente ainda pode mudar alguma coisa.
— Com a cidade contra?
— Com coragem. E alguma lucidez. Um copo de cada.
As duas ficaram em silêncio.
Laura se levantou. Foi até a cozinha. Voltou com duas xícaras. Café forte, sem açúcar.
— Agora?
— Agora.
Cristina pegou a xícara com mãos que tremiam pouco.
Sentaram-se lado a lado. O rádio, por fim, parou de chiar. Mas não era silêncio. Era presença que não precisava de mais palavra.
Não estava tudo dito. Nunca estaria.
Mas pela primeira vez, o que não se disse foi escutado.




