Semente

Nostalgrafia Especial

Uma canção, suas raízes e tudo aquilo que ainda pode germinar.

Ainda existem músicas que envelhecem.

E existem aquelas que germinam.

Semente, de Armandinho, pertence ao segundo grupo.

Quando ela começou a tocar nas rádios e a circular pela internet brasileira, entre 2007 e 2008, dificilmente alguém imaginaria que, quase vinte anos depois, sua letra encontraria um novo terreno para florescer.

Na época, ela era uma canção agradável, de refrão fácil, voz tranquila e mensagem otimista.

Hoje, também pode ser lida como uma pergunta filosófica.

Porque toda boa música continua dizendo coisas que nem o próprio compositor talvez tenha imaginado.

Se não mente, fale a verdade

Existe um detalhe curioso logo no início da letra.

Semente, se não mente…

A frase parece apenas uma brincadeira sonora. Um jogo de palavras construído para caber na melodia. Mas basta ouvi-la com calma para perceber que ela faz exatamente o contrário do que parece.

Ela interrompe o ouvinte.

A música não começa oferecendo respostas.

Começa exigindo honestidade.

Se não mente…

Fale a verdade.

E só depois vem a pergunta.

De que árvore você nasceu?

Não é uma pergunta botânica.

Também não é apenas genética.

É uma pergunta sobre identidade.

Quem nos formou?

Que histórias carregamos?

Quais ideias nos alimentaram antes mesmo de percebermos que estávamos crescendo?

Que pessoas deixaram raízes em nós?

Toda semente nasce de alguma árvore.

Mas nenhuma árvore permanece exatamente igual dentro da semente seguinte.

Talvez seja justamente por isso que essa música faça tanto sentido dentro do Logosgrafia .

Quando criei o plano de assinaturas, decidi chamar os apoiadores de Sementes .

Não porque fossem pequenos.

Nem porque estivessem no começo.

Muito menos porque precisassem crescer.

A ideia era outra.

Toda árvore depende de alguém que acreditou nela quando ainda era invisível.

Quem planta nunca vê imediatamente aquilo que plantou.

Existe um intervalo entre a confiança e a sombra.

Entre a aposta e os frutos.

Entre a terra e a copa.

Ser uma Semente nunca significou apenas consumir um conteúdo.

Sempre significou acreditar em um projeto antes que ele estivesse completo.

Eu sou a terra, você, minha semente

É curioso.

A terra não fabrica sementes.

Ela oferece condições para que descubram aquilo que já carregam por dentro.

Talvez o melhor trabalho de um espaço dedicado à escrita seja exatamente esse.

Não convencer as pessoas sobre o que devem pensar.

Não produzir leitores idênticos.

Nem transformar autores em produtos.

Mas oferecer um terreno fértil para que ideias encontrem tempo, cuidado e profundidade.

Quem passa pelo Logosgrafia dificilmente sai pensando igual.

Mas espero que saia pensando melhor.

É na chuva que a gente se entende

Não é sob o céu completamente azul.

É na chuva.

Na dificuldade.

Na pausa.

Na dúvida.

As melhores conversas raramente acontecem quando tudo está perfeito.

Grande parte dos textos publicados aqui nasceu justamente durante períodos de inquietação.

Foram semanas crudelíssimas .

Retornos inesperados .

Memórias antigas.

Livros esquecidos.

Canções que voltaram décadas depois.

Perguntas aparentemente pequenas que insistiram em permanecer abertas.

Talvez seja na chuva que um projeto editorial descubra quem realmente caminha ao seu lado.

É fácil admirar uma árvore cheia de folhas.

Mais raro é permanecer diante da terra molhada, quando quase nada ainda pode ser visto.

Tem gente que ainda acredita

Mais adiante, a música abandona as perguntas e começa a falar de esperança.

Não de uma esperança ingênua.

Mas daquela que exige permanência.

Tem gente que ainda acredita
e aposta na força da vida.

Essa talvez seja uma das definições mais bonitas para qualquer comunidade construída em torno da escrita.

Acreditar mesmo quando os números ainda são modestos.

Mesmo quando quase ninguém conhece o caminho.

Mesmo quando seria muito mais fácil seguir as fórmulas prontas da internet.

Existe uma diferença enorme entre produzir conteúdo e cultivar uma árvore.

Conteúdo precisa ser publicado.

Árvores precisam de tempo.

E busca um novo amanhecer

Toda nostalgia corre o risco de olhar apenas para trás.

Mas Semente não faz isso.

Ela se lembra da origem enquanto aponta para aquilo que ainda pode nascer.

Talvez seja por isso que uma música de 2007 continue tão viva.

Ela não pertence apenas à época em que foi lançada.

Pertence também às pessoas que a reencontram.

Às memórias que ela desperta.

E aos significados que recebe quando pousa em outras terras.

O novo amanhecer da canção, aqui, é este.

Ela deixa de ser apenas uma lembrança daquela época e passa a representar uma comunidade que ainda está sendo construída.

Os assinantes que chegaram primeiro.

Os que chegarão depois.

Os que talvez estejam lendo este texto antes mesmo de decidir entrar.

Todos pertencem à mesma possibilidade de futuro.

Semente, pode entrar em mim

Há algo de acolhimento nesse verso.

Mas também há entrega.

A terra não recebe a semente sem ser modificada por ela.

Depois do plantio, já não existe apenas terra.

Existe expectativa.

Existe cuidado.

Existe alguma coisa acontecendo por baixo da superfície.

É assim também com cada pessoa que se aproxima do Logosgrafia.

Um leitor não é apenas um número acrescentado às estatísticas.

Uma assinatura não é apenas uma transação.

Cada chegada altera discretamente o terreno.

Cria novas possibilidades.

Sustenta textos que ainda serão escritos.

Ajuda projetos ainda invisíveis a atravessarem a superfície.

Manter a nobreza de ser quem tu é

Esse talvez seja o trecho mais importante de toda a canção.

Conseguir aquilo que se quer já é difícil.

Conseguir e continuar sendo quem se é talvez seja ainda mais.

Esse também é um dos maiores desafios de qualquer projeto que cresce.

Alcançar mais pessoas sem abrir mão da própria voz.

Experimentar novos formatos sem se transformar em uma fábrica de conteúdo.

Aceitar novas sementes sem arrancar as raízes.

Se um dia o Logosgrafia se tornar muito maior do que é hoje, espero que continue reconhecendo a árvore da qual nasceu.

Porque existem sucessos que custam caro demais.

E nenhuma floresta vale a pena se precisar esquecer sua primeira semente.

A flor vai ser de esperança

Quando esta música foi lançada, ela falava sobre esperança.

Hoje, para mim, ela também fala sobre continuidade.

Sobre leitores que permanecem.

Sobre autores que escrevem.

Sobre pessoas que chegam.

Sobre aquelas que ainda chegarão.

Talvez seja cedo para saber o tamanho da árvore que o Logosgrafia poderá se tornar.

Mas isso nunca foi o mais importante.

Toda árvore começou exatamente onde ninguém costuma olhar.

Debaixo da terra.

Em silêncio.

Como uma simples semente.

Algumas raízes crescem mais para dentro.

Conheça a comunidade e descubra o que continua germinando.

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