O espectro #01: Dez em ponto

Logosgrafía es más · O espectroHoracio Quiroga · tradução e adaptação livre de Paulo Ricardo Zargolin para o Logosgrafia

Todas as noites, às dez em ponto, Enid e eu entrávamos no Grand Splendid.

Não importava o frio. Não importava a chuva. Não importava se a cidade parecia ter desistido de sair de casa. Às dez, estávamos lá.

Havia alguma coisa de tranquilizador naquela pontualidade.

Os vivos gostam de chamar isso de hábito.

Talvez porque certas palavras sejam mais confortáveis quando ninguém pergunta o que existe por trás delas.

Entrávamos quando as luzes já começavam a baixar e escolhíamos um camarote qualquer. Não tínhamos preferência. Às vezes encontrávamos um vazio. Em outras noites, o teatro estava lotado e precisávamos dividir o espaço.

Nunca foi um problema.

Sentávamos discretamente ao fundo.

Os casais continuavam se beijando. Homens ajeitavam o casaco. Mulheres procuravam alguma coisa dentro da bolsa. Alguém reclamava do lugar. Outro pedia silêncio.

Ninguém nos mandava sair.

Também não pagávamos ingresso.

Acho que nunca atrapalhamos ninguém de verdade.

No máximo, acontecia uma coisa ou outra.

Uma moça levava de repente a mão ao braço.

— Você sentiu?

O namorado não tinha sentido.

Ou alguém se virava no meio do filme, convencido de que havia outra pessoa atrás dele.

Não havia.

Pelo menos, não uma pessoa que ele pudesse ver.

Uma vez, um homem ficou tanto tempo olhando em nossa direção que pensei que finalmente tivesse conseguido nos distinguir na penumbra. Apertou os olhos. Inclinou o corpo. Procurou alguma forma no escuro.

Enid segurou minha mão.

O homem empalideceu.

Depois voltou-se para a tela.

Nunca soubemos o que ele viu.

Se viu.

Nós não conversávamos durante os filmes.

Não precisávamos.

Havia entre nós uma intimidade que dispensava comentários e, entre nós e a tela, uma espécie de pacto.

A luz começava.

O mundo desaparecia.

E, por algum tempo, existiam apenas aquelas figuras gigantescas caminhando diante de nossos olhos.

Homens que amavam.

Mulheres que mentiam.

Pessoas que morriam.

Pessoas que voltavam.

Sobretudo estas últimas me interessavam.

Enid assistia de um jeito diferente. Não sei explicar sem parecer sentimental — defeito que sempre desprezei nos outros e tolerei magnificamente em mim.

Ela não olhava para a tela.

Ela entrava nela.

Se uma mulher corria, Enid prendia a respiração.

Se alguém chorava, seus olhos se enchiam de uma tristeza antiga, mesmo quando o filme era péssimo.

E havia filmes péssimos.

A morte não melhora necessariamente o gosto.

Esse talvez tenha sido um dos primeiros desapontamentos.

Eu gostava de observá-la quando ela pensava que eu estava olhando para a projeção.

Durante a vida, também fazia isso.

Enid sempre teve olhos difíceis de esquecer. Havia neles um veludo azul, úmido e sereno, como se a felicidade soubesse soluçar.

Tentei.

Antes dela, houve outras mulheres.

Depois dela, fez-se noite para todas as outras.

Não porque tenham morrido.

Porque desapareceram.

É diferente.

Naquela noite, o Grand Splendid estava particularmente cheio.

Chegamos às dez, como sempre, e encontramos quase todos os camarotes ocupados. Escolhemos um onde havia um casal jovem. Ela se inclinava sobre o parapeito; ele parecia muito interessado numa região próxima ao pescoço dela.

Sentamo-nos atrás dos dois.

Nenhum percebeu.

O filme começou.

Passados alguns minutos, a moça se encolheu.

— Está frio aqui.

— Não está.

— Está, sim.

O rapaz, que tinha outras prioridades térmicas, passou um braço ao redor dela.

Enid olhou para mim.

Sorriu.

Ainda hoje esse sorriso me perturba.

Ou talvez “ainda hoje” não seja exatamente a expressão adequada.

Perdemos certas medidas depois que morremos.

Dias.

Meses.

Anos.

O relógio continua funcionando, evidentemente. Basta observar os vivos correndo atrás dele.

Para nós, dez horas continuam sendo dez horas apenas porque decidimos que devem ser.

É uma forma de disciplina.

Ou de esperança.

A moça voltou a se mexer.

Desta vez, virou-se.

Seus olhos atravessaram primeiro Enid.

Depois passaram por mim.

Pararam.

Ela franziu a testa.

Por um segundo, achei que tivesse nos visto.

O namorado perguntou:

— O que foi?

Ela demorou a responder.

— Nada.

Então olhou novamente.

Eu permaneci imóvel.

Enid também.

A jovem levou a mão ao próprio pescoço.

— Juro que tem alguém aqui atrás.

O rapaz finalmente se virou.

Olhou diretamente para mim.

E não viu nada.

Claro que não viu.

Os vivos possuem algumas limitações irritantes.

Ele deu de ombros.

— Não tem ninguém.

A moça tornou a olhar.

Desta vez, encontrou apenas a escuridão.

Virou-se devagar para a tela.

O filme continuou.

Enid apertou minha mão.

E nós continuamos assistindo.

Mudos.

Atentos.

Como todas as noites.

Talvez, a esta altura, seja necessário explicar uma coisa.

Não gosto de revelações antecipadas.

Estragam histórias.

Mas algumas informações, quando adiadas demais, transformam mistério em desonestidade.

Portanto:

Enid e eu estamos mortos.

Há bastante tempo.

E todas as noites, às dez em ponto, voltamos ao cinema.

O motivo é que ainda estamos esperando um filme.

Continua em #2 — O melhor amigo
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