Maracangalha
Capítulo 17
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A segunda-feira chegou sem fazer alarde. O calor já se anunciava cedo, mas o céu parecia limpo de expectativas — como se a cidade tivesse decidido apenas existir, sem prometer nada.
Ísis vestiu-se devagar, sem a pressa de outros dias. Havia algo nela que não se explicava, mas que se percebia: uma leve reorganização interna, um silêncio mais confortável. O fim de semana havia lhe devolvido alguma coisa — talvez paciência, talvez nitidez.
Antes de sair, cruzou com Laura no corredor. Havia algo nos olhos da outra que pedia permanência, mesmo sem palavra alguma. Cristina, de pé no tanque, levantou o rosto e perguntou se voltaria para o almoço. Ísis sorriu — um sorriso que era quase pedido, quase adeus.
— Hoje não. Talvez mais tarde.
O tom não era evasivo. Era terno demais para quem ainda procurava uma kitnet. E, por isso mesmo, dizia muito mais do que as palavras diziam.
Na prefeitura, o dia correu sem sobressaltos. Raul cumprimentou-a com o de sempre, Belisário se limitou ao protocolo, e os demais transitavam como num teatro ensaiado para durar anos. Ísis circulava entre eles como quem já sabia que o papel não era dela — mas podia ser lido enquanto convinha.
Aprendera o ritmo do lugar, a hora do café, o volume das piadas, o tempo das portas entreabertas. Não lutava contra o cenário — deslizava dentro dele, como quem ensaia algo por trás da cortina.
Disfarçava com perfeição.
Mas sua mente percorria outras rotas. A mensagem de Sombra11 não lhe saía da lembrança. O endereço, as coordenadas, a promessa implícita de algo escondido entre as paredes da cidade.
No fim da tarde, quando Raul cruzou a sala e disse, com a voz baixa e enigmática:
— Às vezes, a gente descobre mais coisa no fim do dia do que na semana inteira…
Ela respondeu com o exato grau de indiferença que a cena exigia:
— Concordo. O fim do dia guarda segredos que a rotina não vê.
No celular, abriu o aplicativo.
Digitou o endereço enviado.
Confirmou.
“Motorista a caminho.”
Levantou, recolheu seus papéis com a elegância de quem não deixa rastro. Sorriu para Raul, acenou de leve para Belisário, atravessou o portão como quem vai apenas buscar um documento esquecido.
Nada nela dizia pressa.
Mas o olhar — o olhar já estava do outro lado da cidade.
O carro parou diante de um sobrado envelhecido. A fachada mantinha resquícios de imponência, mas o tempo havia deixado suas digitais em cada fresta, cada racha, cada janela pregada com cruzetas de madeira.
— Balinha, moça? Tem de menta e uma aqui… que eu acho que era de uva.
— Agradeço.
— Se precisar de água, tá ali no bolsão, viu? Geladinha.
— Gentileza assim é artigo de luxo. Boa noite.
O motorista sorriu e partiu.
Ísis ficou sozinha na calçada, encarando o sobrado como quem observa um animal antigo, ferido e ainda perigoso. A rua parecia ter parado. Havia silêncio demais. Nem rádio, nem criança, nem cachorro. Apenas a casa — em suspensão.
Deu a volta pelo lado, atravessando o mato seco que cercava o fundo do terreno. Atrás de uma moita rala, avistou uma placa em estado terminal. Estava desbotada, com partes faltando, mas a leitura ainda se sustentava:
“Ca_ _ dos En_ _ os”.
A Gestalt fazia seu trabalho. Estava no lugar certo.
Talvez só tivesse errado a década.
Pegou o celular para pedir um carro de volta. Mas foi interrompida por uma voz rouca, vinda de trás do portão:
— Tonico do Pandeiro! Ao dispor da madame!
A figura saiu de onde o tempo esconde os que ninguém procura. Camisa larga, rosto castigado, chapéu que já não sabia sua função. Um bafo de pinga se insinuava com ternura.
— Não se assuste, moça. Eu só moro ali, ó — apontou para um colchão encostado num trailer sem rodas. — Vi a senhora olhando muito. Tá procurando a casa da Dona Benta?
Ísis ajustou o celular na mão.
— Dos Encantos, o senhor quer dizer…
— É essa mesmo, moça. Encantada, encantadora… um tempo aí que tinha movimento. Depois… silenciou. Mas é tudo a mesma coisa. Benta botava o nome que queria, depende do freguês.
— E ela ainda mora aqui?
Ele riu. Cuspiu de lado. Riu de novo.
— Que nada! Já tiraram ela daqui faz uns mês. Muita reclamação. Gente da rua falando, gente da reza implicando. A prefeitura… cês sabem, né? De vez em quando ajuda. Levaram ela pra um canto mais bonito, falaram em mansão. Disseram que vai sair a orla. “Requalificação da área central”, esses nome bonito aí.
— E essa casa?
— Tá aí, né? Muda. Mas viva. Te juro, moça, de vez em quando ela sussurra. Faz um barulhinho. A casa… parece que respira. Quem tem medo, nem passa. Quem tem saudade, encosta só pra ouvir.
Ísis abaixou o celular. A chamada não foi feita.
Olhou de novo para a fachada.
O que procurava não era mais o mesmo. E mesmo assim, sabia que tinha encontrado o que precisava.

