BBB: espio, mas não espalho

Por: Paulo Ricardo Zargolin

George Orwell jamais imaginaria que seu romance, “1984”, de 1948, serviria à Endemol na criação de um programa de TV, no qual o ditador comunista conhecido como Grande Irmão se converteria ao tórrido capitalismo.

A teletela, também imaginada pelo autor, utilizada para controlar as ações dos cidadãos, transformar-se-ia em câmeras para registrar comportamentos – principalmente, os maus! – de confinados cujo objetivo é conquistar telespectadores em busca de um prêmio milionário, enquanto desfrutam os dias em uma bela mansão.

Enquanto isso, aqui fora, uns acompanham cada passo dos “heróis” e apoiam uma fantasia similar àquela criada por  Lewis Carroll, quase que entrando junto com Alices e Alicios na “toca do coelho” e vivendo “maravilhas que só a televisão poderia proporcionar”.

Outros, por sua vez, criticam insistentemente, com a intenção de moralizar a TV, tal como  fazia a “Liga das Sentinelas” de “Enigma na Televisão”, de Marcos Rey (1986), que criticava os beijos demorados nas telenovelas, mas para fazer isso, acompanhava todos os capítulos das tramas.

Há ainda aqueles que preferem fingir que não dão bola ou, de fato, fazem o tipo de quem nunca viu nem pretende ver o BBB, sustentando a pompa decrépita do moralismo e fazendo argumentações embasadas na falta de conteúdo do programa.

Ora bolas, um programa sem conteúdo e com a maior audiência do país? Ou seja, com um retorno financeiro que não é brincadeira! Isso é, no mínimo, estranho, não é mesmo?

Mas, para um povo que não tem educação (vinda de berço) e que é ensinado a “armar barraco”, porque “brasileiro não leva desaforo pra casa”; “festejar, ainda que as coisas estejam ruins” e “dar um jeitinho pra tudo”, tirando vantagens, principalmente quando o assunto é dinheiro, o BBB não vai além dos limítrofes do lado mais torpe de nossa própria cultura, já que hipocrisia e imoralidade, juntas, fundam a “moral da sociedade brasileira”.

Então, assistir ou não ao BBB não pode caracterizar ninguém como mais ou menos intelectual, mais ou menos culto.

A questão é que, se assistir, deve-se fazê-lo com consciência de que os heróis, mocinhas e vilões serão identificados, mas, tal como na renomada teledramaturgia brasileira, no fim da novela, todas as personagens voltam ao anonimato, mais cedo ou mais tarde.

Além disso, aquele que melhor tiver dissimulado seus defeitos ou tenha mostrado características que alavanquem a audiência vai poder chegar na final ou até mesmo embolsar 1,5mi; enquanto, mais uma vez, seremos drasticamente distraídos durante a tomada de decisões políticas e econômicas que nos afetam, mas para as quais fechamos os olhos.

Então, antes de defender, criticar ou ignorar um programa de TV, lembremo-nos de que, aqui em terras tupiniquins, desde a colônia, roupa suja sempre fora passível de ser lavada em pay-per-view e, fosse qual fosse o cardápio, à fantasia ou a rigor, tudo sempre terminou em festa.

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