Por: Paulo Ricardo Zargolin
Na sala de aula, a criança pegou a mochila e retirou alguns cadernos para poder identificar melhor o que ela precisava. Selecionou os materiais: caderno, estojo e régua. Colocou-os em cima de sua carteira. Observou que a professora estava colocando o cabeçalho na lousa. Falou com a colega ao lado. Levantou-se e foi até o outro lado da sala. Ajoelhou-se ao lado de uma colega e começou a cochichar. Virou-se para frente da sala, observando a professora, enquanto conversava. Notou que a professora pediu para todos voltarem aos seus lugares. Cochichou durante mais alguns instantes e voltou correndo à sua carteira.
A menina notou que a aula era de Matemática e gritou à professora: “Quem vai entregar os EMs hoje?”. A professora respondeu que poderia ser ela a entregar e, assim, ela correu até o armário, partilhou os cadernos com outra colega e saiu pela classe distribuindo-os. Voltando ao seu lugar, retirou rapidamente um bloco de notações da bolsa, escreveu rapidamente um recado, que tratou de destacar, dobrar e pedir para que a colega ao lado entregasse à amiga com quem cochichara.
A indisciplina é um das maiores dificuldades enfrentadas pelos educadores para desenvolverem o trabalho pedagógico. De acordo com Parrat-Dayan (2008, p. 21), os conflitos em sala de aula caracterizam-se pelo descumprimento de ordens e pela falta de limites como, por exemplo: falar durante as aulas o tempo todo, não levar material necessário, ficar em pé, interromper o professor, gritar, andar pela sala, jogar papeizinhos nos colegas e no professor, dentre outras atitudes que impedem os docentes de ministrar aulas com mais qualidade.
Diante desta constatação, percebe-se a necessidade de um maior engajamento por parte da escola em busca de alternativas de intervenções para o enfrentamento de conflitos na sala de aula. Enfatiza-se que o trabalho coletivo é o principal instrumento de viabilização dessas ações. O diálogo, o estudo e a cooperação são os instrumentos que mediarão o caminho na busca por uma disciplina que considere o respeito como condição principal nas relações existentes na escola.
Assim sendo, como o professor poderia agir diante de comportamentos que demonstrem indisciplina na sala? Quais seriam os saberes teóricos necessários? Quais as práticas que poderiam ser aplicadas para que um trabalho de qualidade possa ser desenvolvido com as crianças?
Conforme Parrat-Dayan (2008, p. 64), “[…] é mais eficaz se aproximar calmamente de um aluno e pedir para retomar seu trabalho que chamar a sua atenção em voz alta na frente de todos. […]”. A forma como se estabelece a relação professor-aluno é a base para o enfrentamento dessas questões.
De acordo com o exposto, notamos que o Guia aponta que a aprendizagem da criança começa muito antes da aprendizagem escolar, ou seja, a aprendizagem escolar nunca parte do zero. Partindo desse pressuposto, Vygotsky (2003) mostra que a criança chega a idade escolar carregada de conhecimentos, valores, ansiedades, expectativas, etc.
Libâneo (2004, p.46-47) ainda nos chama a atenção para as mudanças no aspecto individual. As pessoas são estimuladas a se preparar para competir, por si mesmas, no mercado de trabalho e gerar seus próprios meios de vida.
Neste sentido, perde-se o sentido da coletividade, das trocas, de vínculos afetivos duradouros e da cooperação mútua. Passa-se a ideia de que o prazer está nos bens materiais e não no companheirismo, na convivência, no diálogo e na solidariedade.
Desse modo, tal como explicito por Nono e Mizukami, os casos de ensino mostram situações complexas vividas por professoras durante sua atividade docente, trazendo exemplos de como é possível lidar com determinadas situações e, mais que isso, explicitando dilemas e conflitos enfrentados por docentes ao lidar com o ensino e com seus alunos.
REFERÊNCIAS
LIBÂNEO, J. C. Organização e Gestão da escola: teoria e prática. 5 ed. Goiânia: Alternativa, 2004.
PARRAT-DAYAN, S. Como enfrentar a indisciplina na escola. Trad. Silvia Beatriz Adoue e Augusto Juncal.São Paulo: Contexto, 2008.
