Por: Paulo Ricardo Zargolin
Na infância, o mundo inteiro cabe nas palmas das mãos. Um punhado de areia vira montanha, um cabo de vassoura galopa como um cavalo, uma sombra na parede se transforma em fera selvagem. Tudo pulsa, tudo ensina, tudo sussurra segredos que só os pequenos ouvidos sabem decifrar. O brincar é, então, a mais séria das tarefas: é nele que a criança experimenta a vida, molda seus afetos, testa seus limites e ensaia os papéis que um dia assumirá na sociedade.
No chão de uma sala de pré-escola, meninos e meninas constroem castelos com blocos coloridos. Empilham, ajustam, equilibram. De repente, uma torre desmorona. Frustração, tentativa, reconstrução. Entre um tijolo de plástico e outro, a infância aprende que falhar não é fracassar, mas um convite para tentar de novo. E ali, sob o olhar atento da professora que guia sem amarrar, organiza sem aprisionar, o cidadão do futuro se desenha.
Brincar não é um passatempo fútil, nem um intervalo entre conteúdos importantes. É, antes, o próprio conteúdo da infância. A criança que brinca é a criança que pensa, que sente, que compreende o outro. Quando um pequeno pega um carrinho e o empurra pela mesa, ele não vê apenas um objeto deslizando pelo espaço — ele vê uma jornada, uma travessia. Aprende, intuitivamente, sobre distâncias, velocidades, encontros e despedidas.
Da mesma forma, ao rabiscar o papel, não está apenas desenhando figuras sem sentido. Está registrando um pedaço do mundo que carrega por dentro. As palavras ainda não vêm, mas os traços contam histórias. A cada pincelada, a cada cor espalhada no papel, a criança experimenta o prazer de criar, de dar forma ao que sente. E nesse ato, ensaia o que mais tarde chamaremos de cultura, de arte, de expressão.
Mas o brincar não acontece sozinho. Ele pede espaço, tempo e, sobretudo, respeito. A escola que compreende isso não antecipa passos, não transforma a infância em um estágio apressado para a vida adulta. Ela permite que os pequenos descubram, por si, a força das próprias escolhas. Uma criança que pode decidir entre um jogo e uma história, entre um canto e outro da sala, entre criar sozinha ou em grupo, está aprendendo democracia antes mesmo de saber o que significa essa palavra.
E é assim, nessa trama invisível do brincar, que a criança se torna gente. Não porque decorou regras ou preencheu páginas de exercícios, mas porque viveu, sentiu, errou e acertou. Porque foi ouvida, porque experimentou a liberdade de pensar e criar. Um dia, quando esse menino ou essa menina crescer, quando a areia virar cidade e o cabo de vassoura perder sua magia, restará a essência: um sujeito que compreende o outro, que sabe dialogar, que se importa. E faz do mundo, desde a infância, o seu brinquedo.

Obs.: Texto elaborado a partir de Encontro Formativo, com as professoras Karolyne Kusunoki e Natália Bearare, na Secretaria Municipal de Educação de Birigui.

