Por Paulo Ricardo Zargolin
O vídeo chegou ao grupo da família às 7h43.
Não vinha sozinho.
Antes dele, havia uma mensagem em letras maiúsculas, três pontos de exclamação e uma advertência que já parecia ter sido usada em muitas outras urgências:
VEJAM O QUE ELE DISSE!!!
Compartilhem antes que apaguem.
O rosto era conhecido.
A voz também.
Os lábios acompanhavam as palavras. A respiração aparecia nos lugares certos. Havia até uma pequena hesitação no meio da frase, dessas que costumam tornar qualquer fala mais humana.
A imagem tremia um pouco, como se tivesse sido gravada às pressas por alguém que não deveria estar ali.
Uma pessoa respondeu:
— Eu sabia.
Outra perguntou:
— Isso é verdadeiro?
Ninguém soube responder.
Mas o vídeo já havia sido encaminhado novamente.
O vídeo que chegou antes da dúvida
Talvez o vídeo fosse falso.
Talvez tivesse sido inteiramente fabricado.
Talvez a imagem fosse verdadeira e apenas a voz tivesse sido substituída. Talvez a voz fosse autêntica, mas retirada de outra ocasião. Talvez algumas palavras tivessem sido preservadas e outras acrescentadas. Talvez a fala tivesse acontecido, mas não naquele lugar, naquele dia ou com o sentido sugerido pela mensagem que a acompanhava.
O grupo não possuía instrumentos para examinar nenhuma dessas possibilidades.
Ainda assim, cada pessoa já começava a decidir o que havia acontecido.
Não a partir de uma perícia.
A partir daquilo que já acreditava sobre o rosto que aparecia na tela.
O vídeo não precisava provar.
Bastava confirmar.
Eis o caso.
A campanha eleitoral não precisa mais apenas convencer o eleitor de que uma frase é verdadeira. Agora, ela também pode fabricar a sensação de que a frase foi realmente pronunciada.
Durante muito tempo, a desinformação dependeu principalmente de palavras.
Uma notícia inventada podia ser escrita. Uma declaração podia ser atribuída a alguém. Uma fotografia podia receber uma legenda falsa. Uma imagem podia ser recortada para esconder aquilo que acontecia fora do enquadramento.
A inteligência artificial não inaugurou a mentira.
Ela apenas aprendeu a lhe emprestar rosto, voz, movimento, iluminação, respiração e aparência de testemunho.
Quando ver deixou de ser prova
Houve um tempo em que uma fotografia parecia encerrar uma discussão.
Se estava registrado, deveria ter acontecido.
Depois aprendemos que fotografias podiam ser recortadas, retocadas, montadas, deslocadas no tempo ou retiradas do contexto.
O vídeo, entretanto, conservou por mais tempo uma autoridade especial.
Não era apenas uma imagem.
Havia movimento.
Havia voz.
Havia sequência.
Havia pequenas imperfeições capazes de fazer a cena parecer ainda mais verdadeira.
Um vídeo parecia mostrar não apenas que alguém esteve em determinado lugar, mas que falou determinadas palavras, reagiu de determinada maneira e participou de um acontecimento que poderia ser revisto quantas vezes fosse necessário.
Essa segurança começou a desaparecer.
Sistemas de inteligência artificial já conseguem reproduzir vozes, reorganizar movimentos labiais, alterar expressões, gerar pessoas inexistentes e construir cenas que nunca estiveram diante de uma câmera.
Nem sempre o resultado é perfeito.
Mas não precisa ser.
Um vídeo comprimido, encaminhado várias vezes, assistido numa tela pequena e recebido por alguém predisposto a acreditar não precisa resistir a uma análise cinematográfica.
Precisa apenas sobreviver aos poucos segundos anteriores ao próximo compartilhamento.
A mentira mais perigosa talvez já não seja aquela que parece verdadeira. Pode ser aquela que parece perfeitamente possível.
O rosto combina com a frase.
A frase combina com a imagem que o público construiu daquela pessoa.
A imagem combina com o medo, a raiva ou a esperança de quem recebe.
Quando todas essas peças se encaixam, o desejo de verificar pode parecer desnecessário.
Afinal, o vídeo mostra exatamente aquilo que alguém já esperava encontrar.
A inteligência artificial entrou na campanha
Nas eleições de 2026, a inteligência artificial não ocupará apenas os bastidores das campanhas.
Ela poderá aparecer na criação de peças visuais, edição de vídeos, produção de textos, tratamento de imagens, geração de cenários, organização de informações e desenvolvimento de diferentes materiais de propaganda.
Nem todo uso de inteligência artificial é proibido.
O problema começa quando a tecnologia é usada para ocultar a própria intervenção, fabricar acontecimentos, atribuir falas inexistentes a pessoas reais ou produzir conteúdo capaz de enganar o eleitor sobre aquilo que efetivamente aconteceu.
As regras eleitorais exigem que conteúdos sintéticos ou significativamente manipulados por inteligência artificial sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível.
A informação deve acompanhar textos, imagens, áudios e vídeos sempre que a propaganda utilizar esse tipo de fabricação ou alteração.
O objetivo parece simples:
o eleitor precisa saber quando está diante de algo que não foi simplesmente captado, mas construído.
Também é proibido empregar deepfakes para prejudicar ou favorecer candidaturas.
Isso inclui conteúdos digitais manipulados para substituir ou alterar imagem ou voz de pessoas reais, produzindo uma representação falsa capaz de parecer autêntica.
A norma tenta preservar uma fronteira básica.
Uma campanha pode criar.
Não deveria poder falsificar alguém e apresentar essa falsificação como prova.
Nem toda IA é deepfake
As palavras costumam perder precisão quando entram no debate público.
“Inteligência artificial”, “montagem”, “deepfake”, “fake news” e “manipulação” começam a circular como se significassem exatamente a mesma coisa.
Não significam.
Uma campanha pode usar inteligência artificial para criar uma ilustração, melhorar a qualidade de um áudio, gerar uma animação ou organizar elementos gráficos sem necessariamente atribuir uma fala falsa a uma pessoa.
Um vídeo também pode ser editado de modo tradicional e, ainda assim, enganar profundamente por meio de cortes, mudanças de ordem e retirada de contexto.
O deepfake representa um tipo mais específico de manipulação.
Ele busca imitar características humanas reconhecíveis: rosto, voz, gestos, expressões ou movimentos. Seu efeito mais perturbador surge quando alguém parece fazer ou dizer aquilo que nunca fez ou disse.
Já a expressão fake news, usada de forma muito ampla, costuma designar conteúdos falsos ou enganosos que se apresentam com aparência informativa.
A inteligência artificial pode participar desse processo.
Mas uma mentira eleitoral não precisa de tecnologia avançada.
Às vezes, uma fotografia antiga, uma legenda inventada e a pressa de quem compartilha continuam sendo suficientes.
É importante distinguir:
Uso de IA: emprego da tecnologia para criar, editar, organizar ou transformar algum conteúdo.
Conteúdo sintético: material produzido ou significativamente alterado por ferramentas digitais.
Deepfake: fabricação ou manipulação capaz de imitar de forma convincente a imagem ou a voz de uma pessoa.
Desinformação eleitoral: conteúdo falso, manipulado ou gravemente descontextualizado com potencial de interferir na compreensão do eleitor ou na integridade do processo.
A distinção importa porque o combate à desinformação não pode transformar toda utilização tecnológica numa mesma infração.
Também não pode permitir que uma peça enganosa escape de qualquer responsabilidade apenas porque foi produzida por um método mais antigo.
O problema não está somente na ferramenta.
Está na finalidade, na transparência e no efeito produzido sobre quem recebe.
A mentira que não precisa convencer todo mundo
Imaginamos muitas vezes que uma fraude eleitoral só será perigosa se conseguir enganar milhões de pessoas.
Não necessariamente.
Um conteúdo falso pode cumprir sua função em poucas horas.
Pode provocar uma reação imediata.
Pode dominar uma conversa.
Pode forçar uma candidatura a gastar tempo negando algo que nunca fez.
Pode alimentar uma manchete, fortalecer uma suspeita ou alcançar exatamente o grupo de eleitores predisposto a recebê-lo como confirmação.
Quando o desmentido chega, o conteúdo talvez já tenha desaparecido da superfície.
Mas a impressão permanece.
A pessoa pode esquecer o vídeo.
Talvez não esqueça a sensação de que “havia alguma coisa estranha ali”.
A desinformação não precisa construir uma certeza completa.
Às vezes, basta produzir uma névoa.
A mentira chega inteira.
A correção costuma chegar acompanhada de explicações, verificações, ressalvas, documentos e uma frase pouco emocionante:
“O conteúdo foi manipulado.”
É difícil competir com a intensidade de um vídeo que parece flagrar alguém confessando exatamente aquilo que seus adversários sempre disseram.
O grupo da família virou seção eleitoral
A propaganda eleitoral já não vive apenas no horário televisivo, no palanque, no comício, no santinho ou no perfil oficial de uma candidatura.
Ela entra pelos lugares em que as pessoas conversam.
Chega no grupo da família, no grupo do trabalho, na conversa dos vizinhos, no aplicativo da igreja, na turma da escola e naquele conjunto de contatos reunido anos atrás para organizar um aniversário.
Nesses espaços, o conteúdo não parece chegar enviado por uma estrutura política.
Chega pela tia.
Pelo colega.
Pelo antigo professor.
Por alguém que acredita estar alertando pessoas queridas antes que seja tarde.
A confiança não está necessariamente no vídeo.
Está em quem o encaminhou.
É isso que torna a circulação doméstica tão poderosa.
A pessoa talvez desconfiasse de uma propaganda exibida por uma candidatura.
Mas pode baixar a guarda quando a mesma peça chega acompanhada de uma mensagem pessoal:
“Estou mandando porque vocês precisam ver.”
A campanha se mistura à intimidade.
O convencimento político passa a utilizar relações construídas muito antes da eleição.
E o familiar que compartilha não se percebe necessariamente como parte de uma operação de propaganda.
Ele imagina estar apenas mostrando a verdade.
O aviso que pode desaparecer
As regras determinam que a utilização de conteúdo sintético seja informada de maneira clara.
Mas a vida de uma peça eleitoral raramente termina no lugar em que ela foi publicada pela primeira vez.
Um vídeo pode ser baixado.
Pode ser recortado.
Pode perder a legenda.
Pode ter o aviso retirado.
Pode reaparecer numa gravação de tela, numa montagem ou numa publicação feita por alguém que já não conhece sua origem.
O rótulo pode cumprir sua função no perfil oficial e desaparecer na terceira republicação.
Mesmo quando permanece, ainda existe outra dificuldade:
quantas pessoas realmente leem o aviso antes de reagir ao conteúdo?
Uma pequena identificação de inteligência artificial pode ser juridicamente visível e emocionalmente irrelevante diante de um rosto conhecido pronunciando uma frase explosiva.
A transparência é necessária.
Mas não funciona sozinha.
Ela precisa sobreviver ao compartilhamento, permanecer associada à peça e aparecer com clareza suficiente para interromper, ainda que por alguns segundos, o impulso de acreditar.
Quando todos podem falsificar, todos começam a negar
Existe ainda uma consequência menos evidente.
A inteligência artificial não apenas permite que acontecimentos falsos pareçam verdadeiros.
Ela também permite que acontecimentos verdadeiros sejam descartados como falsificações.
Uma gravação autêntica pode aparecer.
A pessoa envolvida pode simplesmente responder:
“Isso foi feito por inteligência artificial.”
A dúvida tecnológica oferece uma nova rota de fuga.
Se tudo pode ser fabricado, qualquer coisa pode ser negada.
É nesse ponto que o deepfake produz um estrago maior do que o conteúdo falso isolado.
Ele contamina a confiança no registro audiovisual inteiro.
Já não desconfiamos apenas do vídeo falso.
Passamos a desconfiar também do vídeo verdadeiro.
Em Três sóis e um abismo epistêmico, o problema observado era a fragmentação dos critérios usados para reconhecer uma explicação como verdadeira. As pessoas já não discordavam somente sobre os fatos, mas sobre quem possuía autoridade para validá-los.
Nas eleições atravessadas por inteligência artificial, esse abismo ganha uma nova profundidade.
Podemos assistir à mesma gravação e não concordar sequer sobre a existência do acontecimento mostrado por ela.
O desacordo já não começa na interpretação.
Começa antes.
Começa na pergunta:
Isso aconteceu?
A autenticidade também virou argumento
A política sempre dependeu de encenação.
Discursos são preparados. Cenários são escolhidos. Imagens são enquadradas. Frases são testadas. Gestos são repetidos até parecerem espontâneos.
A inteligência artificial não criou a fabricação da imagem pública.
Mas tornou a própria palavra “autêntico” mais difícil de sustentar.
Uma campanha pode produzir um candidato sintético dizendo aquilo que o candidato real gostaria de ter dito com perfeição.
Pode ajustar pausas, retirar hesitações, corrigir entonações e construir uma versão audiovisual mais convincente do que a pessoa que pretende representar.
Em Bem humaninho e sem travessões, a relação entre autoria humana e inteligência artificial já levantava uma pergunta incômoda: até que ponto uma criação assistida continua sendo expressão do sujeito, e quando começa a funcionar como terceirização dele?
Na propaganda eleitoral, essa pergunta deixa de ser apenas autoral.
Torna-se democrática.
Quando uma imagem fabricada fala em nome de uma candidatura, quem está realmente se dirigindo ao eleitor?
A pessoa?
A equipe?
O sistema?
Ou uma versão cuidadosamente calculada de todos eles?
A identificação do uso da tecnologia não elimina essas perguntas.
Apenas permite que elas sejam feitas com alguma honestidade.
Verificar é mais trabalhoso do que compartilhar
Diante de um vídeo suspeito, a orientação costuma parecer simples:
verifique antes de compartilhar.
Mas verificar exige tempo.
É preciso procurar a publicação original, observar o perfil, comparar falas, consultar fontes confiáveis, buscar desmentidos, verificar datas e desconfiar da legenda que tenta decidir antecipadamente o que deve ser visto.
Compartilhar exige um toque.
Essa diferença de esforço favorece a circulação do engano.
O conteúdo falso oferece emoção pronta.
A verificação oferece trabalho.
Além disso, nem todo usuário possui formação técnica para encontrar sinais de manipulação, e muitos desses sinais deixarão de ser visíveis conforme as ferramentas melhorarem.
Não será razoável transferir toda a responsabilidade ao eleitor.
Campanhas, plataformas, autoridades, veículos de comunicação e instituições de verificação também precisarão agir com rapidez.
O Tribunal Superior Eleitoral mantém um sistema para receber alertas relacionados a desinformação eleitoral e ao uso de inteligência artificial em desacordo com as regras.
Ainda assim, nenhum canal institucional conseguirá entrar em cada grupo antes do primeiro compartilhamento.
A proteção democrática continuará dependendo também de um gesto pequeno:
suportar alguns minutos de dúvida antes de transformar a dúvida em certeza encaminhada.
A campanha que aprendeu a imitar a verdade
No grupo da família, a discussão continuou.
Uma pessoa afirmou que a gravação parecia verdadeira demais para ter sido fabricada.
Outra respondeu que justamente por isso poderia ter sido produzida por inteligência artificial.
Alguém encontrou uma postagem dizendo que o vídeo era falso.
Outra pessoa desconfiou da postagem.
Um terceiro participante enviou uma versão mais curta da mesma gravação.
A nova versão parecia ainda mais convincente.
Ninguém voltou ao começo para perguntar de onde o arquivo havia saído.
A dúvida se multiplicou, mas não interrompeu a circulação.
Talvez esse seja o traço mais perigoso da inteligência artificial nas eleições de 2026.
Ela não precisa substituir completamente a verdade.
Pode apenas cercá-la de tantas versões que reconhecê-la se torne cansativo.
Em O Nome da Rosa: o livro, o filme e o labirinto da verdade, documentos, instituições, silêncios e disputas pelo conhecimento revelam que a verdade nunca circula sozinha.
Nas campanhas digitais, ela também precisa atravessar interesses, algoritmos, edições, recortes, impulsos e afetos.
A tecnologia apenas construiu corredores novos para esse antigo labirinto.
Durante muito tempo, perguntávamos se uma campanha estava dizendo a verdade.
Em 2026, talvez precisemos fazer uma pergunta anterior:
Foi mesmo aquela pessoa quem disse?
O vídeo continuará mostrando um rosto.
A voz continuará parecendo conhecida.
A boca continuará acompanhando cada palavra.
A iluminação poderá parecer natural.
A respiração poderá aparecer exatamente onde deveria.
Mas a verdade já não estará necessariamente dentro da imagem.
Talvez precise ser procurada fora dela.
Enquanto isso, no grupo da família, alguém já terá apertado novamente:
encaminhar.
Fontes oficiais para compreender as regras eleitorais:
Tribunal Superior Eleitoral — Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral
Este caso termina aqui. A inquietação, não.
Conheça outros acontecimentos, comportamentos e contradições dissecados na estante Estudos de Caso para Mentes Inquietas.
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